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“Em muitas situações em vários países, a água residual é simplesmente demasiado valiosa para ser desperdiçada” (Fatta, D., et al (2003))

2.5.1. U

TILIZAÇÃO DE ÁGUAS RESIDUAIS

A utilização de águas residuais tem sido uma prática comum em todas as regiões do globo, sendo que os sectores onde os efluentes tratados são mais utilizados dependem das áreas de negócio mais desenvolvidas em cada região.

A utilização das águas residuais tratadas, subproduto dos sistemas de saneamento, contribui para o desenvolvimento da economia local e das populações.

De acordo com Bixio, et al (2006) foram identificadas mais de 3.300 instalações de tratamento de águas residuais para reutilização em todo o mundo. As actividades que

utilizam mais este recurso podem agrupar-se em quatro categorias: 1 - Agricultura; 2 - Recarga de aquíferos, actividades urbanas, utilização para fins recreativos e ambientais;

3 - Processos industriais; 4 - Combinações das utilizações referidas.

Na figura 40 indicam-se o número de instalações de recuperação de água residual, por regiões, e por tipo de utilizações finais.

Figura 40 – Número de sistemas de tratamento de água residual por tipo de utilização e por região (Fonte: Bixio, et al (2006))

Neste mapa é possível verificar que as regiões da América Latina e da África Sub-Sahariana são as que têm menos sistemas de utilização de água residual tratada identificados. Estas duas regiões e a Ásia, à excepção do Japão, são as regiões onde se encontram a maior parte dos países em vias de desenvolvimento.

É de referir que, apesar de não existirem muitos sistemas de tratamento para produção de água residual tratada com vista à posterior reutilização nas regiões referenciadas, verifica-se a utilização de água residual bruta para diversos fins.

2.5.2. C

ARACTERÍSTICAS DA

Á

GUA

R

ESIDUAL

T

RATADA

As características da água residual tratada dependem de três factores principais: Da qualidade da água de abastecimento antes da sua utilização;

Da origem da água residual e dos processos que a produziram (origem humana, origem industrial, origem agro-pecuária);

Dos sistemas de saneamento, desde a sua captação até ao seu tratamento, com especial enfoque para as eficiências de remoção dos diversos poluentes.

Dependendo destes factores as águas residuais podem apresentar diferentes composições, sendo que de acordo com as principais preocupações referidas na bibliografia os parâmetros a monitorizar e a controlar são:

Salinidade;

Nutrientes - principalmente azoto e potássio;

Organismos patogénicos – principalmente coliformes fecais; Metais pesados – como o cobre ou o zinco.

Todos estes parâmetros têm sido avaliados exaustivamente nos sistemas de utilização da água residual tratada, principalmente na análise dos impactos que têm nas plantas, solos e populações.

É importante referir que o ponto mais importante na utilização de água residual na agricultura, é que a qualidade da água residual tratada e as técnicas de irrigação devem ser adequadas ao tipo de solo, clima da região e ao tipo de culturas agrícolas, e mesmo adequadas ao tipo de cultura alimentar do local.

Como valores de referência para alguns parâmetros de qualidade da água residual tratada a utilizar na agricultura, referem as orientações publicadas em Metcalf & Eddy (2003), apresentadas no quadro seguinte (quadro 6):

Quadro 6 – Orientações sobre a qualidade da água para irrigação (Metcalf & Eddy, 2003) Grau de Restrição de Utilização

Parâmetros Unidades

Nulo Moderado Elevado

Condutividade mS/cm < 0,7 0,7 – 3,0 > 3,0

Sólidos Dissolvidos Totais mg/l < 450 450 – 2.000 > 2.000

Cloretos

Irrigação de superfície mg/l < 140 140 - 350 > 350 Irrigação gota a gota mg/l < 100 > 100

Sódio

Irrigação de superfície mg/l < 3 3 - 9 > 9 Irrigação gota a gota mg/l < 70 > 70

Azoto mg/l < 5 5 - 30 > 30

pH Entre 6,5 e 8,4

2.5.3. O

RIENTAÇÕES PARA A

U

TILIZAÇÃO DE

Á

GUA

R

ESIDUAL

T

RATADA NA

A

GRICULTURA

A utilização de água residual na agricultura é uma realidade actual em todas as regiões do mundo. Em alguns locais, principalmente em países em vias de desenvolvimento, estas são utilizadas em bruto, sem qualquer tipo de tratamento, mas a prática aconselhada, e que tem sido amplamente divulgada por organizações internacionais e organizações não governamentais, é a de que a água residual pode e deve ser utilizada na agricultura, mas tem de ser sujeita a tratamento adequado, para que os requisitos mínimos sejam cumpridos. Estes requisitos mínimos têm vindo a ser definidos localmente através de Legislação e Regulamentos, e são aplicados a casos específicos de tipo de solo, método de irrigação, tipo de cultura e tipo de tratamento das águas residuais. As orientações e restrições exigidas em várias regiões são por vezes demasiado específicas da realidade local. Por seu lado as orientações da OMS são reconhecidas por todos os países e, apesar de estarem

constantemente a ser postas em causa por vários estudos, têm sido também as referências mais utilizadas e aceites a nível mundial.

De acordo com Bixio, et al (2006) as orientações existentes actualmente podem dividir-se em duas facções:

Abordagem “mais vale prevenir que remediar” muito restritiva, tem como objectivo reduzir o risco ao máximo possível. O Regulamento Califórnia Título 22 é exemplo desta visão, sendo que países como Chipre, Itália, Israel e Austrália, adoptaram o mesmo tipo de abordagem. Este regulamento assenta nas eficiências de tratamento de cada sistema de tratamento, e indica quais as culturas agrícolas que podem ser irrigadas pelas diferentes águas tratadas.

Abordagem menos restritiva, concebida para promover a reutilização de água residual tratada. Reconhece que os regulamentos devem ser realísticos e concretizáveis no contexto em que se enquadram. Como exemplo maior desta abordagem referem-se as orientações da OMS de 1989, que têm sido seguidas por vários países da região do Mediterrâneo. Estas orientações baseiam-se não no sistema de tratamento, mas na qualidade final das águas residuais tratadas.