Em termos teóricos, a importância de conhecer a diferença entre os impulsos instintivos e agressivos no contexto da estruturação da personalidade da pessoa é definida pela tese winnicottiana de que “a agressão está sempre ligada ao estabelecimento de uma distinção entre o que é, e o que não é o eu” (1964d [1984a], p. 104). Isso significa que antes de a fusão ser alcançada, a agressão101 experienciada pelo lactente - e que é parte integrante do impulso amoroso primitivo (a motilidade e o movimento) -,
100 Segundo Winnicott, os distúrbios de alimentação estão relacionados à experiência da destrutividade. Quando a pessoa não entra em acordo com a sua agressividade e, portanto, não a isola do ato de comer, os problemas alimentares e digestivos se apresentam. Em 1936, Winnicott já observava isso e afirmava que para as crianças “a atitude em relação à comida é uma atitude em relação a uma pessoa, a mãe” e que, mais tarde, quando adultos, os sintomas da alimentação variariam de acordo com o relacionamento com as diversas pessoas (1958e [1936], p. 103).
101 Winnicott deixa claro que durante os estágios iniciais, anteriormente à fusão ser alcançada, o comportamento reativo do bebê a falhas no ambiente significa sofrimento, e não agressão.
juntamente com as idéias ligadas a ela, têm a função de colocar o objeto separado do si- mesmo, fora da área de onipotência. Isso acontece gradualmente, à medida que a integração em uma unidade vai se tornando um fato estabelecido e o bebê caminha para o estágio em que reconhece que há um eu e um não-eu.
Winnicott não coloca a satisfação instintual como objetivo primordial da pessoa, nem tampouco a destaca como parte da tarefa de constituição de um si-mesmo pessoal, da tarefa de criação da externalidade (mundo externo) e do relacionamento que será construído a partir de então entre as realidades interna e externa. Pelo contrário, ele afirma que “a gratificação instintiva proporciona ao lactente uma experiência pessoal, mas pouco afeta a posição do objeto”, pois “a mudança de objeto de ‘subjetivo’ para ‘percebido objetivamente’ é realizada menos efetivamente por satisfações do que por frustrações” (1965j [1963], p. 165; os itálicos são meus).
Diferentemente de Freud, que acreditava que a agressividade era decorrente da frustração e conseqüência de satisfações instintuais não atendidas, Winnicott propõe que, ao amadurecer, uma criança considera aborrecido continuar experienciando uma situação de onipotência quando já dispõe de recursos próprios que lhe permitem conviver com as frustrações e as dificuldades de seu meio ambiente. Portanto, lidar com frustrações ligadas ao princípio da realidade, na teoria winnicottiana, é indicativo de amadurecimento e não a razão dos traumas e das repressões. É por perceber os sinais indicativos da condição de o bebê não precisar ser prontamente atendido que faz uma mãe adaptada iniciar a desadaptação, permitindo esparsas experiências de frustração. São essas experiências de frustração vividas após a fusão102 dos impulsos que indicam a existência de um mundo que é não-eu. Só um bebê que experienciou um cuidado ambiental absoluto pode aproveitar essas falhas na adaptação, pois, pelo fato de ter a memória do cuidado, retém a idéia do objeto como potencialmente satisfatório e pode odiar concretamente o objeto que falha.
102 Winnicott reforça que até atingir a fusão, o bebê passa por “um tremendo desenvolvimento” e que isso não pode ser deixado de lado quando se considera a possibilidade de a falha ambiental exercer seu papel positivo: proporcionar ao lactente começar a reconhecer um mundo que é repudiado (1965j [1963], p. 165).
Mas o que acontece com o bebê entre estes dois momentos: ser incompadecido e não consciente de sua agressividade e se tornar consciente e preocupado com ela? Qual a relação entre agressividade e frustração?
Retomando um pouco, apenas para situar a exposição, temos que, no estágio inicial ou da pré-integração detalhado anteriormente, a agressividade é parte do objetivo do impulso instintual e o “efeito agressivo” deve ser entendido como não intencional, uma vez que ainda não há uma pessoa constituída que possa se responsabilizar pelo que faz. O bebê pode até machucar a mãe enquanto mama, mas não se pode dizer que ele esteja tentando feri-la intencionalmente; ele apenas busca uma forma de expressar seu amor excitado. Embora possa parecer assustador um bebê que morde ou puxa os cabelos da mãe, é necessário saber que, nessa época, o que ele faz não é conseqüência de uma frustração ou de raiva, pois ainda não há uma pessoa presente para sentir.
No entanto, essa situação se modifica quando o bebê começa a emergir como uma unidade e reconhece a presença de intenção em suas ações, adquirindo, assim, a condição de vir a se sentir concernido pelo efeito das experiências instintivas, físicas ou ideativas. É interessante pontuar o que se passa com o bebê no limiar dessa passagem. Se até então o machucar o seio durante a amamentação acontecia como parte da experiência do mamar, com o passar do tempo o bebê percebe em si um impulso de morder e de agitar-se que traz em si mesmo satisfação. Trata-se, como diz Winnicott, “do início de algo muito importante” e que diz respeito “aos impulsos e à utilização de objetos desprotegidos” (1969b [1968], p. 26) por parte do bebê, que começa reconhecer seu incompadecimento.
A tendência incompadecida de mover-se na direção de algo e obter alguma forma de satisfação gradualmente assume o caráter de ações “que exprimem raiva” ou de “estados que denunciam ódio e controle do ódio” (1964d [1984a], p. 104). A agressividade casual, inerente ao impulso amoroso primitivo, vai se transformando em um “machucar com intenção de machucar” (idem). O bebê é capaz de vir a proteger o seio da mãe dessa destrutividade recém-percebida e o fará rapidamente quando se der conta de que a mãe que usa e destrói nos estados excitados é a mesma que ele ama nos estados tranqüilos. Antes, porém, de unir as duas mães e vir a proteger o seio, ele precisa
da experiência de “destruição da mãe” para confirmar sua confiança no ambiente e fortalecer o sentimento de continuidade de ser ou força de ego.
Estamos agora no estágio do uso do objeto. A experiência de “destruição da mãe” é o caminho para torná-la um objeto não-eu, que não faz parte daquilo que é o eu e que a configura como parte da externalidade. A mãe, que até então foi experienciada na área de controle onipotente como um objeto subjetivo e com o qual o bebê se relacionava de modo subjetivo, começa a ser vista como fenômeno externo; deixa de ser uma entidade projetiva e adquire realidade externa a partir de si mesma. Só quando o objeto subjetivo é repudiado e tornado externo, o bebê (que gradativamente desenvolveu a capacidade de usar objetos no período da transicionalidade) poderá usar o objeto e conquistar a capacidade de se relacionar com ele de modo objetivo. Nesse momento, ele testa se o ambiente (mãe) agüenta a destrutividade ligada ao amor primitivo.
É por isso que, nessa passagem entre o relacionar-se com o objeto subjetivo para o uso do objeto reconhecido como um não-eu, a mãe tem uma tarefa a cumprir sempre que o bebê a morde, arranha ou puxa os seus cabelos de modo cada vez mais intenso: ela precisa sobreviver. Sobreviver, aqui, significa continuar a ser ela mesma, sem se alterar e nem se transformar em uma pessoa vingativa e retaliadora. Somente quando a mãe sobrevive à “destruição”, ou seja, resiste ao teste, ela pode ser situada fora da área de controle onipotente, adquirir existência independente, passar a ser vista como externa ao bebê e se tornar útil. Se a mãe sobrevive, a realidade externa se constitui como fato independente e uma outra forma de relacionamento entre ela e o bebê se torna uma possibilidade. A mãe que sobrevive mostra ao bebê que poderá continuar sendo usada, mas agora com a sua anuência e com suas características pessoais, como parte da realidade externa.
Isso significa que, além do simples relacionar-se característico do momento anterior, quando o bebê não tinha consciência da existência independente da mãe e o cuidado físico era o principal fator, os aspectos que envolvem a mãe, seu jeito de ser e suas atitudes serão incorporadas à relação e “o puramente físico” começará “a ser enriquecido e complicado por fatores emocionais” (1964d [1984a], p. 109). É nesse instante que surge um novo significado para a palavra amor – a capacidade para amar
com afeição e não apenas como parte de um impulso. A mãe tem valor e merece ser amada porque sobreviveu à destruição por parte do bebê. Por isso ele, um eu incipiente, a ama, uma pessoa agora reconhecida como não-eu.
Nessa circunstância, o termo destruição não é usado apenas para enfatizar o impulso que o bebê tem de destruir, mas para enfatizar o risco de não-sobrevivência do objeto. A não-sobrevivência da mãe a essa “destruição” – o que significa dizer a mãe agir de modo retaliatório ou simplesmente não conseguir ser concernente (falha ambiental) com a necessidade do bebê – impediria a colocação do objeto fora da área de controle onipotente do bebê. Ou melhor dizendo, o fracasso nessa tarefa dificulta, complica ou até mesmo impede que a mãe seja colocada em um mundo que não é parte do eu, trazendo dificuldades para o bebê torná-la útil e e alcançar a capacidade de usar o objeto.
Winnicott denomina retaliação primitiva esse modo de agir da mãe nessa fase de transição em que o ambiente é tão parte do eu quanto os instintos e na qual ainda não é possível falar de uma verdadeira relação com a realidade interna. Quando essa retaliação acontece, o objeto (o ambiente ou a mãe) permanece parte do eu da mesma forma que os instintos. Nesse caso, ocorre a introversão precoce, na qual o indivíduo vive em um ambiente que é ele mesmo, o que “certamente se trata de uma vida muitíssimo pobre”, na medida em que não há crescimento de seu mundo pessoal, pois este não é “enriquecido a partir da realidade externa” (1945d, p. 231). Uma dificuldade nessa passagem se concretiza para Winnicott no “mais enfadonho de todos os fracassos iniciais que nos chegam para consertar” (1989vq, p. 174).
No entanto, quando tudo corre bem, isto é, a mãe sobrevive a destruição, o bebê se distancia das experiências iniciais relacionadas à estruturação da personalidade e o Eu Sou incipiente (unidade eu) começa adquirir uma feição mais definida. A continuidade de ser (força do ego) é fortalecida, ou seja, o sentido de integração mais estabelecido. Dessa maneira, o bebê torna a mãe útil e amadurece a capacidade de usar os objetos externos a ele. No meio de tanto desenvolvimento surge algo novo para o bebê: a fantasia “no sentido de mecanismo mental”103 (Dias, 2003, p. 109). O bebê poderá então, viver uma
103Para Freud, de maneira diferente de Winnicott, essa capacidade está sempre presente para os bebês desde o nascimento.
vida no mundo dos objetos, mas precisará lidar constantemente com os ganhos pessoais que isso lhe proporciona e com o peso da aceitação da destrutividade que agora está presente na fantasia relativa ao relacionamento com objetos.
Falar em fantasia nesse sentido indica muito em termos de amadurecimento pessoal. Significa que o eu é uma unidade e está contido e separado do exterior pela pele; portanto, a psique encontrou morada no corpo e isso traz sentido para os termos interno e externo e para a relação entre eles. É, portanto, uma aquisição do amadurecimento, indicativa da temporalização do bebê, que poderá a partir de agora criar (fantasiar) a partir de memórias relativas às experiências vividas com a mãe armazenadas no mundo pessoal e também a partir das novas experiências instintivas, pois a mente exerce as funções de comparar e pensar.
Facilitará a compreensão desse aspecto relembrarmos que a fantasia está relacionada ao conceito de elaboração imaginativa e que essa é a base para que a mente (ornamento da psique saudável) possa surgir como um caso especial do funcionamento do psique-soma. Nos momentos iniciais do amadurecimento a elaboração imaginativa deve ser compreendida como “aquilo que não é verbalizado, afigurado ou ouvido de maneira estruturada, por ser primitivo e próximo das raízes quase fisiológicas das quais brota” (1989vl [1961], p. 56 nota). Também ajuda recordar que todas as experiências do bebê, desde o início, “são tanto físicas quanto não-físicas” e que “as idéias acompanham e enriquecem as funções corporais, e estas acompanham e realizam a ideação” (1958b) [1950], p. 289), compondo um um somatório de idéias e memórias que fazem parte do mundo pessoal do bebê.
Essas experiências - que incluem tudo o que acontece no relacionamento da unidade mãe-bebê e promove a continuidade do ser - ou, que, não acontece quando deveria acontecer e promove a distorção ou interrupção do amadurecimento - são armazenadas. Esse conjunto de experiências constitui o inconsciente originário ou o inconsciente não acontecido - “que é a forma negativa do inconsciente originário” (Dias 2003, p.172).
No entanto, quando o bebê conquista o si-mesmo pessoal, a fantasia fica referida à “totalidade da realidade psíquica ou pessoal da criança” (1989vl [1961], p. 56 nota) podendo ser certa parte consciente e certa parte inconsciente. Essa é a grande mudança
para o bebê. Se a integração em uma unidade foi alcançada como decorrência da harmonia entre experiências instintivas e destrutivas e o cuidado-ambiental adaptativo, ela não será ameaçada pela integração dos instintos. Isto facilitará à criança aceitar (assumir) os instintos como pessoais e se tornar responsável por eles. Esse é o sentido de consciência para Winnicott. O inconsciente originário será acrescido por esse novo modo de fantasiar e a criança (pessoa) terá acesso a ele pelos sonhos ou poderá revelá-lo nas brincadeiras. Seja como for, mesmo que temporariamente represente um incômodo para a pessoa em razão da existência de aspectos inaceitáveis, é o inconsciente que “contribui fundamentalmente para todas as experiências mais significativas do ser humano” (1963c, p. 197). Porém, caso aconteçam dificuldades ao longo do concernimento ou o embate no mundo pessoal se dê de forma intolerável em razão de aspectos intoleráveis, forma-se o inconsciente reprimido.
A destrutividade contida no impulso amoroso primitivo é o elemento comum à fantasia em todos os estágios do amadurecimento. A diferença no modo de fantasiar nos estágios iniciais em relação aos estágios da dependência relativa e da independência relativa está associada ao fato de, o bebê, originariamente não-consciente, vir a se tornar capaz de assumir que essa destrutividade lhe pertence, assim que se constituir como pessoa104. Assim, o que traz dificuldade para o bebê (pessoa) em relação à sua destrutividade é a condição de, sendo uma pessoa, suportar (admitir) que tudo o que lhe afeta lhe diz respeito.
Assim, para as pessoas que conquistaram a unidade eu, reconheceram a existência de um não-eu (o que indica que a integração no tempo e no espaço foi alcançada) e adquiriram uma identidade - uma posição completamente diferente da vivida nos momentos da dependência absoluta - o inconsciente originário, que contém elementos tão primitivos que podem até serem esquecidos, é o “depositário das áreas mais ricas”
104 Isto era tão certo para Winnicott que ele chegou a referir-se ao tema dizendo: “ O bebê humano tem idéias. Todas as funções são elaboradas na psique, e mesmo no início há uma fantasia associada à excitação e à experiência alimentar. A fantasia, tal como se depreende, é a de um implacável ataque ao seio materno e, finalmente à mãe, logo que a criança se apercebe de que pertence à mãe o seio que é atacado. Há um elemento agressivo muito forte no primitivo impulso de amor que é o impulso de mamar. Nos termos da fantasia de uma data ligeiramente posterior, a mãe é implacavelmente atacada e, embora, só uma pequena parcela de agressão seja observável, não é possível ignorar o elemento destrutivo nas pretensões da criança” (1957e [1945], p. 58 ).
(1963c, p. 197) do si-mesmo pessoal e contribui para todas as experiências mais significativas do ser humano, podendo ser alcançado em sonhos e no brincar.
Em contrapartida, em razão da dor pela dificuldade em aceitar algum sentimento ou emoção como parte do si-mesmo quando inicia o viver compartilhado, forma-se, como defesa, “uma nova espécie de inconsciente” (1988, p. 159) - o inconsciente reprimido, que torna inacessível os afetos intoleráveis, mantendo não-disponível tudo aquilo que não pode ser aceito como parte do si-mesmo.