O próximo passo seria propor questões que levem os alunos à análise dos elementos metalinguísticos que aparecem no poema e se referem ao próprio fazer poético, ou, em outras palavras, colocar em evidência as escolhas fonológicas, lexicais e sintáticas como uma escolha consciente do criador dos textos.
As indicações a seguir pretendem oferecer aos professores um roteiro que oriente a organização da atividade didática. Como já foi dito, não se trata de uma proposta fechada, mas de um conjunto de sugestões. Caberá ao professor adaptar o processo ao nível de seus alunos e à sua própria interpretação dos poemas.
No primeiro poema “A voz do poeta” deve-se observar que o título é o sujeito da oração “não é voz de passarinho/ flautado mato/viola” e das demais orações do poema (cada estrofe corresponde a uma oração que sempre apresenta como núcleo o verbo de ligação na 3ª pessoa do singular do presente do indicativo: “é”). Esse verbo reforça as certezas do enunciador, conota uma declaração que pode representar uma verdade universal, tendo a forma verbal o valor de “presente permanente”.
É importante destacar, também, para o aluno, a elipse do sujeito “A voz do poeta” nas duas primeiras estrofes. Essa elipse coloca em destaque o
177 advérbio de negação “não”, que introduz o posicionamento do enunciador sobre o que não é a voz do poeta.
Quanto à estrutura do poema, caberia orientar os discentes a notar que ele está organizado em quatro estrofes que apresentam uma distribuição simétrica na seguinte ordem: um terceto, um dístico, um terceto e um dístico. Essa simetria contrasta com a métrica irregular dos versos polimétricos, com uma predominância de heptassílabos ou redondilhos maiores. As quatro estrofes são formadas por quatro orações coordenadas assindéticas, justapostas. Possuem uma relação de independência na construção, mas estão semanticamente ligadas. Esse tipo de construção é comum, sobretudo, na língua oral (MARTINS, 1989, p.137). Nesse sentido, também podemos perceber que a quase ausência de pontuação confirma o tom espontâneo e ágil da língua falada.
A assimetria é compensada, também, pelo equilíbrio de duas orações negativas e duas afirmativas, respectivamente introduzidas pelas expressões anafóricas “não é voz” e “é voz” que constroem um paralelismo no poema.
Do ponto de vista lexical, observa-se a predominância de um vocabulário simples; com léxico pertencente ao campo semântico musical nas duas primeiras estrofes: “flauta do mato”, “viola”, “violão”, “clarinete” e “pianola”. As referências ao som migram do plano da natureza para o plano da cultura, em uma gradação que vai do natural (“passarinho”) ao construído (“pianola”).
Deve-se observar, com os alunos, a proximidade semântica dos termos, no sentido de que todos guardam alguma semelhança com a voz do poeta, visto que emitem som, mas não de natureza humana, como “passarinho”. Os instrumentos musicais, por sua vez, são acionados pelo homem, dependem dele para produzir sons, enquanto o pássaro o faz autonomamente. A ausência de pontuação aproxima a escrita da espontaneidade da fala. As orações introduzidas pelo advérbio de negação “não”, nas duas primeiras estrofes, parecem deixar clara a posição do enunciador e sua opinião incisiva a respeito do que é a “voz do poeta”, enfatizada nas orações afirmativas, em ordem direta, nas duas últimas estrofes introduzidas pelo verbo de ligação “é”.
Qual o papel das indagações entre parênteses? Elas remeteriam ao contexto histórico. A palavra “prisão” retoma aos tempos de ditadura militar e suas diferentes formas: “prisão domiciliar”, esconderijo, exílio. Como sugerem
178 as expressões interrogativas “na varanda? na janela?” ou a prisão no seu sentido mais estrito, o cárcere. As indagações estão na forma de locuções adverbiais e adjuntos adverbiais de lugar que podem representar, metaforicamente, o espaço da voz do poeta ou da própria criação.
O dístico final propõe uma espécie de conclusão a que chega o enunciador sobre a voz do poeta, que se materializa no poema e se explica por meio do aposto “fogo logro solidão”. As palavras justapostas, sem uso de vírgulas ou conectivos, marcam o estilo e o resgate de rupturas na pontuação típicas do primeiro momento modernista, como em poemas de Oswald de Andrade, por exemplo. As palavras “fogo”, “logro” e “solidão” conceituam metaforicamente o poema. O “fogo” pode revelar a intensidade e o misterioso, além de ser luz, calor, energia, vivacidade, agitação, desassossego e excitação; “logro” seria engano, fraude, gracejo; e “solidão” relaciona-se à escrita, principalmente a do poema lírico, escrita do poeta solitário, isolado do contexto por força da repressão.
Sobre o nível sonoro, pode-se destacar a assonância em “o” presente no último verso que indica “a possibilidade de imitar sons profundos, claros, graves, ruídos surdos e sugere ideias de fechamento, redondeza, escuridão, tristeza, medo, morte” (MARTINS, 1989, p. 32). Associando o sentido do som ao significado das palavras no verso “fogo logro solidão”, fica sugerida a ideia de desassossego, mistério, engano, solidão e tristeza.
Ainda sobre o poema “A voz do poeta”, o professor poderá destacar a presença da sequência argumentativa apresentada na sequência de definições explicativas que apresentam o que uma coisa é. Segundo Fiorin, umas das formas de argumentação em um texto são as definições que “impõem um determinado sentido, estão orientadas para convencer o interlocutor de que um dado significado é aquele que deve ser levado em conta” (2015, p.118)
Realizada a análise da estrutura linguística do poema “A voz do poeta”, o professor poderá solicitar que os alunos procedam à mesma análise do poema “Barulho”. As observações dos discentes devem ser orientadas pela leitura guiada do docente, chamando a atenção para os seguintes aspectos: em que medida esse poema se aproxima do anterior em sua estrutura, no léxico utilizado, nos tipos de orações presentes etc; trata-se da mesma temática?; como ela se apresenta, aqui?
179 A partir dessas questões, o professor levaria a observar que o poema “Barulho” apresenta versos polimétricos, como o anterior, agora distribuídos em duas estrofes: a primeira, com treze versos e a segunda, com sete. Novamente, o enunciador coloca em confronto negações e afirmações. O 1º verso afirma para, depois, dizer o que não é o poema. As negações tiram a materialidade do fazer poético. Na segunda estrofe, os 1º e 2º versos retomam, semanticamente, o sentido das negações apresentadas na primeira estrofe e reconduzem ao significado da imaterialidade do poema (“é sem matéria palpável”).
Nesse sentido, seria possível ampliar a reflexão, comentando que o poema retoma discussões já levantadas a partir da pintura “Ceci n´est pas une pipe”, do surrealista René Magritte, como se observa a seguir:
Fonte: www.tecituras.wordpress.com
O artista ironizou o estranho hábito de tomar as palavras pelas próprias coisas que as palavras designam. A figura do cachimbo, efetivamente, não é o cachimbo, mas sua representação. O quadro ilustra a consciência criadora dos artistas do século XX que persiste até o presente. No poema, pode-se dizer que o discurso poético assume que as palavras não são as coisas, porque elas sempre falam de outra coisa. Esta outra coisa, por sua vez, nunca está ali, mas sempre acolá ou algures.
No segundo verso, os dois pontos abrem o poema para uma série de orações negativas que explicam didaticamente o que não é a matéria do poeta
180 e do poema. A presença de duas orações subordinadas temporais nas duas estrofes (“quando escreve amanhã” e “quando rumoreja”) situam o fazer poético no tempo presente. O “barulho” aparece como metáfora não só do discurso gerado pelo poema e sua natureza dialógica, mas ainda anuncia as vozes dos coenunciadores, pressupondo que nada é estático no poema, ao contrário, tudo é dinamismo sob os olhos e a voz dos leitores [que exercem essa voz, mesmo que leiam o poema em silêncio].
É importante levar os alunos a observar que, nos dois poemas o enunciador conceitua o poema com um dos elementos da natureza. No primeiro, é fogo, portanto, é luz, calor, energia, vivacidade, mas também agitação, desassossego, excitação. No segundo, é ar, portanto transparente, sem cheiro, invisível como as ideias e os pensamentos; não os vemos, mas sua importância é fundamental.
Nos dois poemas, nota-se a quase ausência de pontuação, aproximando-se, como já foi dito, do fluxo de pensamento do enunciador e da língua falada. Mas é fundamental chamar a atenção para o uso dos dois pontos e seu sentido introdutor de palavras ou frases explicativas que reafirmam o ethos do poeta, professoral, didático, nos dois poemas.