• No results found

A poesia de Juca da Angélica, sem dúvida, oferece um rico painel representativo do patrimônio cultural e simbólico de Minas Gerais, constituído por bens de natureza material e imaterial. E, certamente, um desses bens imateriais – que atua como referência para a memória coletiva de diferentes grupos sociais e que se mostra latente nos versos do poeta – é a tradição caipira.

Sobre esse aspecto, o percurso que trilhamos até o momento nos permite afirmar que Juca da Angélica, por intermédio da literatura oral, atualiza a sua história e as raízes do lugar em que viveu (a roça), e, ao registrar em sua poesia o seu olhar acerca desse espaço, mais que cantar liricamente a sua identidade de roceiro e “trovador”, produz imagens poéticas do cotidiano rural, inspiradas em sua realidade social caipira. Maria Clara Machado (2006) identifica, a seguir, algumas das atividades representativas desse universo rústico que, segundo a autora, perduram na memória daqueles que, como Juca da Angélica, “as vivenciaram como experiências concretas de vida”:

As traições e os mutirões, as promessas ao pé da cruz, os terços cantados, as festas de Reis, os desafios, os pagodes, a encomendação das almas, as parteiras, os tecidos tramados no tear, as brolhas, os pontos cruz, os potes d'água, os monjolos, a feitura dos sabões em tachadas, as farinhas, as quitandas nos fornos de barro dispostos no quintal, as figuras do carreiro de boi e do boiadeiro e tantas outras imagens presentes no cotidiano rural de então, perduram, na maior das vezes, apenas na memória daqueles que as vivenciaram como experiências concretas de vida.

Todas as atividades listadas pela autora são tradicionais da região do cerrado – região onde o poeta viveu e que se encontra representada por meio da poesia do autor. No que se refere a essa região, dados do Ministério do Meio Ambiente (s/d) registram que o cerrado é o segundo bioma da América do Sul, ocupando aproximadamente 2 milhões de km² da região central brasileira, equivalente a cerca de 22% do território nacional. Entretanto, embora tal espaço seja rico no âmbito biogeográfico, concordamos com Barbosa e Gontijo (2014, p. 137), quando asseguram que “o domínio dos cerrados não pode ser analisado apenas sob o panorama do rico arcabouço constituído por suas características físicas (tipos de solo, formas do relevo, clima, potencial hídrico, fitofisionomias)”, uma vez que “o bioma integra também a perspectiva do patrimônio

cultural e humano, compondo um palco de disputas econômicas e simbólicas, baseadas em estratégias de usos que dão suporte a sua logística espacial”.

Nesse sentido, o vocábulo “cerrado” pode denotar diferentes significações, sendo, muitas vezes, utilizado por artistas e escritores como sinônimo da palavra “sertão” que, segundo Vinaud, Martins e Amaro (2007, p. 106):

É um termo aberto usado para designar uma multiplicidade de sentidos, que se estendem desde o plano material, relacionado a uma fisionomia da paisagem natural, ou seja à fisionomia dos Cerrados, ao plano imaterial, que corresponde à natureza humana, os sentimentos identitários e metáforas. Dessa forma, a palavra sertão é um recipiente no qual se tenta expressar universos complexos e complementares entre si. O espaço geográfico do sertão determina a afetabilidade de cada ser social que o habita e logo, a afetividade existente determinada por ele, que dá fruto aos modos de vida do povo sertanejo.

É justamente essa concepção de cerrado/sertão que utilizamos neste estudo, entendendo esse espaço e tudo que ele produz como um território simbólico que ultrapassa o seu valor material, uma vez que se apresenta impregnado de subjetividade e afetividade daquele que integra esse ambiente, o qual, de acordo com Vinaud, Martins e Amaro (2007, p. 106), é descrito com maior entusiasmo poético pelos que ali vivem:

O sertão, construído por diversos agentes sociais, é representado com maior fidelidade por aqueles que ali habitam, veem, ouvem e, principalmente, sentem esse espaço tão singular do território brasileiro. Grande parte dos estudos realizados sobre o sertão foram feitos por autores que ali conviveram e desenvolveram grandes obras de caráter memorialista, buscando resgatar as vozes do passado e preservar a história do lugar.

Tais apontamentos acerca da definição de sertão se aplica ao poeta Juca da Angélica, na medida em que o autor, mais que habitar o sertão mineiro, desenvolveu uma obra de caráter memorialista, no intuito de preservar a história do lugar em que viveu.

Além disso, conforme esclarece José Maurício Gomes de Almeida (1999, p. 53), “sertão designa, de modo geral em todo o Brasil, as regiões interioranas, de população relativamente rarefeita, onde vigoram costumes e padrões culturais ainda rústicos” – padrões esses que fazem parte das comunidades rurais de Minas Gerais, e que Juca resgata por intermédio de sua poesia, ao representar, por exemplo, as expressões linguísticas do caipira, as danças e comidas típicas da roça, além de outras tradições rústicas, como os desafios poéticos, as crendices, os costumes, as práticas festivo-religiosas, como a folia

de reis, o cururu, o catira e o pagode, bem como algumas atividades típicas do trabalhador rural, como o mutirão e as aventuras que envolvem a profissão de carreiro.

Com efeito, o objetivo deste capítulo é analisar o olhar poético que Juca da Angélica lança para alguns acervos culturais provenientes desse universo rural ao qual o poeta pertencia. Para tanto, tomaremos como referência a citação29 de Maria Clara

Machado (2006), quando enumera algumas práticas inerentes à realidade do sujeito do sertão mineiro, dentre elas a tradição dos pagodes e da religiosidade popular, entendida aqui, conforme definição de Talles de Azevedo (2002), como uma expressão de fé mais livre e espontânea do que a que se cultiva dentro das tradicionais igrejas institucionalizadas do Brasil.

Daremos mais atenção, neste primeiro momento, à representação poética que Juca faz de suas participações nos tradicionais pagodes e nos demais eventos festivo- religiosos da roça (como na folia de reis) e, em seguida, à representação lírica que o poeta desenvolve de sua relação com o sagrado – elemento que, conforme veremos, se manifesta na poesia do autor de diferentes formas, desde o simples culto a um santo protetor às práticas demonstrativas de fé mais populares, como a realização de promessas e de alguns rituais de cura, como a benzeção.