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As descrições empíricas obtidas durante o GF foram analisadas, permitindo- nos apreender o significado da convivência diária da família, especialmente da mulher, com um membro alcoolista.

Iniciamos um processo de compreensão do material que emergiu da reunião do grupo (Quadro 19), partindo da perspectiva de que toda tentativa de objetivar algo sobre a convivência da mulher com um companheiro alcoolista é insuficiente para exprimir o significado da experiência por completo.

Quadro 19 - Caracterização do grupo focal

Idade Estado Civil Local de

Residência

Filhos

Maior Menor

Rosa 35 Casada21 São Miguel 0 2

Margarida 54 Casada São Miguel 1 0

Hortênsia 55 Casada São Miguel 0 0

Orquídea 36 Casada São Miguel 0 3

Girassol 60 Divorciada São Miguel 3 0

Fonte: Elaborado por Rosana Nascimento a partir do Grupo Focal com mulheres de alcoolistas. Setembro de 2013

21 As mulheres ainda declaram o estado civil casadas, pois aguardam a finalização da ação de divórcio.

Os resultados do GF estão apresentadas a partir dos eixos e temas previamente estabelecidos na elaboração do roteiro do encontro, e algumas falas das depoentes foram sendo trabalhadas ao longo da construção do texto (Quadro 20).

Quadro 20 - Eixo 1 - Divórcio

Tema 1. Por que optaram pelo divórcio Rosa [...] ele passou a ser dependente de álcool.

Ideia-chave: Dependência do álcool Margarida [...] ele bebia socialmente e eu me tornei a cabeça

da casa.

Hortênsia [...] quando eu fui morar com ele, já sabia que ele bebia, mas achei que ele fosse parar e não parou. Orquídea [...] ele começou a usar drogas e a beber muito.

Girassol [...] ele começou a usar drogas e também bebia, chegou a me agredir.

Fonte: Elaborado por Rosana Nascimento a partir do Grupo Focal com mulheres de alcoolistas. Setembro de 2013

A dependência do álcool tem sido o fator principal para o término dos relacionamentos e tomada de decisão pelo divórcio. Em alguns casos, foi citado o uso de outras drogas, agravando a situação vivenciada pelas famílias.

Girassol relata um episódio de violência doméstica22, do tipo física – “chegou a me agredir” – e fez questão de afirmar que essa foi a única vez, porém, sofreu várias agressões verbais e psicológicas.

[...] vários estudiosos têm concluído que o álcool é a substância mais ligada às mudanças de comportamento provocadas por efeitos psicofarmacológicos que têm como resultante a violência. Isso, pelo menos provisoriamente, pode ser depreendido dos dados apresentados acima. Estudos experimentais (FAGAN, 1990, 1993) mostram que o abuso de álcool pode ser responsável pelo aumento da agressividade entre os usuários. (MINAYO; DESLANDES, 1998)23.

22 Lei 11.340, de 7 de agosto de 2006 (Lei Maria da Penha).

23 Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-311X1998000100011&lang=pt>. Acesso em: 9 fev. 2014.

Ao atender as mulheres no NPJ, foi possível perceber que nem sempre os casos de violência doméstica e familiar do tipo físico, são resultantes do alcoolismo, as mulheres acabam sendo vítimas das outras formas de violência.

Art. 7o São formas de violência doméstica e familiar contra

a mulher, entre outras:

I – a violência física, entendida como qualquer conduta que ofenda sua integridade ou saúde corporal;

II – a violência psicológica, entendida como qualquer conduta que lhe cause dano emocional e diminuição da autoestima ou que lhe prejudique e perturbe o pleno desenvolvimento ou que vise degradar ou controlar suas ações, comportamentos, crenças e decisões, mediante ameaça, constrangimento, humilhação, manipulação, isolamento, vigilância constante, perseguição contumaz, insulto, chantagem, ridicularização, exploração e limitação do direito de ir e vir ou qualquer outro meio que lhe cause prejuízo à saúde psicológica e à autodeterminação;

III – a violência sexual, entendida como qualquer conduta que a constranja a presenciar, a manter ou a participar de relação sexual não desejada, mediante intimidação, ameaça, coação ou uso da força; que a induza a comercializar ou a utilizar, de qualquer modo, a sua sexualidade, que a impeça de usar qualquer método contraceptivo ou que a force ao matrimônio, à gravidez, ao aborto ou à prostituição, mediante coação, chantagem, suborno ou manipulação; ou que limite ou anule o exercício de seus direitos sexuais e reprodutivos;

I V – a violência patrimonial, entendida como qualquer conduta que configure retenção, subtração, destruição parcial ou total de seus objetos, instrumentos de trabalho, documentos pessoais, bens, valores e direitos ou recursos econômicos, incluindo os destinados a satisfazer suas necessidades;

V – a violência moral, entendida como qualquer conduta que configure calúnia, difamação ou injúria. (LEI MARIA DA PENHA).

[...] após 10 anos de casada começaram as agressões verbais. (Girassol, depoimento colhido em janeiro de 2014).

As participantes do GF nos levaram a perceber que a convivência diária com um parceiro alcoolista implica diversas formas de violência, desde as que já são reconhecidas até as que estão veladas, resultando na permanência das mulheres nessas relações de risco.

Segundo Sena, Boery et al. (2011, p. 3): “Para assegurar o casamento, vale até silenciar a própria vontade, em nome da ética, do sentimento de satisfação por cumprir o mandado social e continuar casada [...]”.

Nesse sentido a ausência de cuidados também se constitui em uma forma de violência.

O Quadro 21 revela o nível de compreensão das mulheres sobre o alcoolismo, bem como a forma de aceitação da condição de doença de seu parceiro.

Quadro 21 - Eixo 2 - Alcoolismo

O que É Alcoolismo

Rosa [...] ele passou a ser não se reconhecia como dependente de álcool... dependente ou viciado.

Ideia-chave: Beber muito Margarida [...] ele bebia “socialmente”...

Hortênsia [...] já sabia da bebida, mas achei que ele fosse parar e não parou.

Orquídea [...] ele começou a usar drogas e a beber muito.

Girassol [...] ele se envolveu com drogas e também bebia,...

Fonte: Elaborado por Rosana Nascimento a partir dos depoimentos colhidos em setembro de 2013

De acordo com National Councilon Alcoholismand Drug Dependece, alcoolismo é uma doença primária, crônica, com fatores genéticos, psicossociais e ambientais que influenciam seu desenvolvimento e manifestações.

A dependência do álcool é definida no IV Manual Diagnóstico Estatístico (DSM-IV) da Associação Americana de Psiquiatria como a repetição de problemas decorrentes do uso do álcool em, pelo menos, três das sete áreas de funcionamento, ocorrendo conjuntamente, em um período mínimo de 12 meses. (SILVEIRA, 2012, p.152).

Apenas a fala de Rosa traz as expressões “dependente” e “viciado”, o que sugere que a maioria das mulheres não tem a compreensão total da dependência do álcool como uma doença progressiva, ou ainda temem sua rotulação estigmatizante. Para definir a dependência do álcool, cientistas tem usado quase que indistintamente o termo “alcoólatra” e “alcoolista”, o que tem sido reproduzido pelo público de modo geral.

[...] ele bebia “socialmente” e eu me tornei a cabeça da casa [...] (Margarida, GF, setembro de 2013).

A fala de Margarida sugere as relações de gênero e os papeis socialmente aceitos, quando o homem deve exercer a função de provedor do lar, e a entonação que a participante deu a essa colocação nos leva a entender que, para ela, agregar ao papel feminino o de chefia doméstica foi o que mais agravou sua relação.

Condição essa vivida por muitas mulheres de alcoolistas, que acabam por assumir a responsabilidade de suas famílias, mesmo antes da separação de fato.

O período da negação do alcoolismo é uma longa fase, na qual nem o alcoolista, nem a família reconhecem o uso abusivo do álcool, o que pode ser notado na seguinte fala:

[...] já sabia da bebida, mas achei que ele fosse parar e não parou. (Hortênsia, GF, setembro de 2013)

Como alertam os autores:

A princípio, a família percebe o uso de álcool como um fator de interação social; nega que os problemas enfrentados tenham ligação com o uso/abuso do álcool e vai buscando justificativas para os conflitos existentes no lar. (FILZOLA, TAGLIAFERRO, ANDRADE, PAVARINI, FERREIRA, 2009)24

O alcoolismo, muitas vezes, está associado ao uso de outras drogas ilícitas agravando ainda mais o diagnóstico da família.

Os relatos mostram que as mulheres já vivenciaram o drama do alcoolismo em suas famílias de origem quando os dependentes eram seus genitores (Quadro 22).

Quadro 22 - Eixo 3 - Família de origem I

Seus Pais Tinham Problema com o Álcool?

Rosa Não declarou nada

Ideia-chave: Repetição da história

familiar Margarida [...] lembro-me de minha infância e de

momentos em que meu pai bebia muito. Hortênsia [...] meu pai também bebia muito. Orquídea [...] meu pai bebia.

Girassol [...] meu pai não bebia.

Fonte: Elaborado por Rosana Nascimento a partir do Grupo Focal com mulheres de alcoolistas. Setembro de 2013.

A repetição do histórico de dependência aparece mais nas famílias de origem das mulheres, do que nas famílias de origem dos alcoolistas. Há casos como o de

Orquídea, cujo alcoolismo se fez presente em sua família de origem e se estendeu à parentela do então cônjuge (Quadro 23).

Quadro 23 - Eixo 3 - Família de origem - II

Seus Pais Tinham Problema com o Álcool?

Rosa Não declarou nada

Ideia-chave: Repetição da história

familiar Margarida [...] que eu me lembre, o pai dele não bebia

Hortênsia [...] o pai dele não tinha problema com a bebida.

Orquídea [...] o pai dele bebia.

Girassol [...] o pai dele bebia e várias pessoas da família dele têm problema com a bebida..

Fonte: Elaborado por Rosana Nascimento a partir do Grupo Focal com mulheres de alcoolistas. Setembro de 2013.

Os depoimentos de nossos sujeitos nos revelam algo importante sobre a existência dos serviços de atenção as famílias dos alcoolistas no território (Quadro 24).

Quadro 24 - Eixo 3 - Ajuda/Tratamento

O Dependente e a Família Procuraram Ajuda

Rosa Não declarou nada. Ideia-chave:

Resistência à ajuda / negação do problema

Falta de informação Margarida Não procurou ajuda.

Hortênsia Não procurou ajuda.

Orquídea [...] ele chegou a passar por duas casas de recuperação.

Girassol [...] Eu tentei ajudá-lo ele não aceitou, ele dizia: “Paro quando quiser”.

Fonte: Elaborado por Rosana Nascimento a partir do Grupo Focal com mulheres de alcoolistas. Setembro de 2013.

Nas falas das participantes do Grupo Focal, percebe-se que a busca por ajuda não acontece, na maioria dos casos, principalmente de recursos profissionais (psicólogo, psiquiatra, médico), ou outros serviços que trabalham diretamente com as questões do alcoolismo (AA, Al-Anon, etc) e quando a família reconhece a necessidade e procura auxílio, o dependente não aceita. Por sua vez, a família não recorre à ajuda para si e, para essa situação, levantamos algumas hipóteses:

1. Desconhecimento dos recursos existentes na região; 2. Dificuldade de acesso aos serviços;

3. Vergonha de sua condição enquanto familiar de alcoolista;

4. Negação, ou seja, a busca por ajuda pode caracterizar aceitação do problema;

5. A família acredita que a ajuda/tratamento deve ser prestada apenas ao dependente.

Alguns familiares recorrem a práticas religiosas e à espiritualidade, à procura de alívio e forças para enfrentar seus problemas, outras, procuram apoio na própria família.

[...] meu ex-marido nunca aceitou tratamento, e eu também acabei não procurando ajuda para mim, quando sentia a necessidade de desabafar, procurava minha mãe. (Girassol, depoimento colhido em janeiro de 2014).

As mulheres permaneceram casadas por mais de 10 anos, mesmo com o agravante da condição de dependência do álcool, no que diz respeito aos motivos considerados como necessidades de ordem pessoal (Quadro 25).

Quadro 25 - Eixo 5 - Tempo de permanência no casamento

O Dependente e a Família Procuraram Ajuda

Rosa 17 anos Ideia-chave: Resiliência Margarida 22 anos Hortênsia 10 anos Orquídea 15 anos Girassol 17 anos

Fonte: Elaborado por Rosana Nascimento a partir do Grupo focal com mulheres de alcoolistas. Setembro de 2013. A convivência com o outro, a interação com pessoas diferentes, favorece o compartilhamento de afeto, de experiências positivas e negativas, de ensinamentos, entre outros aspectos, que engrandece e fortalece o ser humano. Dessa forma, a ligação com o familiar alcoolista pode ser facilmente compreendida desde que se considere o viver com o outro como algo intrínseco à natureza humana. (SENA, BOERY, CARVALHO, REIS, MARQUES, 2011).

O estudo nos revelou que as mulheres optam por continuar em um relacionamento abusivo e destrutivo, por diversos motivos, e dentre eles destacam-se:

 Filhos menores;

 Dependência emocional;  Amor;

 Esperança que o cônjuge pare de beber;

 Esperança de mudança e melhora no relacionamento.

Ele passava noites fora de casa, e eu aceitava tudo, mulherada e irresponsabilidades, eu o flagrei em adultério e planejei a sua morte. Peguei uma faca, amolei bem e coloquei debaixo do meu travesseiro, me deitei e esperei ele chegar, mas aquela noite ele não veio para casa. (Girassol, depoimento colhido em janeiro de 2014).

O Quadro 26 nos revela que algumas mulheres que viveram a ruptura conjugal em função do alcoolismo, estabelecerem novo relacionamento após a realização do divórcio, restabelecendo-se assim, o modelo de família nuclear de forma reconstituída.

Quadro 26 - Eixo 6 - Novo relacionamento I

Estabelecimento de Novo Relacionamento Pós-divórcio Rosa [...] eu tenho outro companheiro.

Ideia-chave: Oportunidade de

recomeço Margarida [...] minha separação é recente, por enquanto

não tenho outro.

Hortênsia [...] Tenho um companheiro. Orquídea [...] estou namorando.

Girassol [...] convivo em união estável há 11 anos.

Fonte: Elaborado por Rosana Nascimento a partir do Grupo Focal com mulheres de alcoolistas. Setembro de 2013.

A família nuclear continua sendo referência como forma de vida doméstica e idealizada por muitos. Ela remete aos ideais de estrutura, equilíbrio, segurança, aceitação social. Modelo que, em virtude de inúmeras mudanças ocorridas na sociedade, vem sendo substituído por outros modelos e arranjos.

Mudanças são particularmente difíceis, uma vez que as experiências vividas e simbolizadas na família tem como referência, a respeito desta, definições cristalizadas, socialmente instituídas pelos dispositivos disciplinares que existem em nossa sociedade, os quais têm nos meios de comunicação um vinculo fundamental, além de suas instituições específicas. (SARTI, 2003, p. 23).

Foi possível perceber que algumas mulheres, na segunda relação, mostram- se mais criteriosas em suas escolhas, levando em consideração o critério do companheiro não beber (Quadro 17).

Quadro 27 - Eixo 6 - Novo relacionamento II

O Atual Companheiro Tem Problemas com o Álcool Rosa [...] ele não bebe.

Ideia-chave: Reincidência

Margarida .

Hortênsia [...] ele bebia, mas foi para o AA e parou de beber.

Orquídea [...] ele não bebe.

Girassol [...] graças a Deus esse marido não tem vício nenhum.

Fonte: Elaborado por Rosana Nascimento a partir do Grupo Focal com mulheres de alcoolistas. Setembro de 2013.

O depoimento de Hortênsia no entanto, revela que seu atual companheiro já teve problemas com o álcool, resultando em mais uma repetição da história e das experiências com companheiro alcoolista. Porém, ele procurou o auxílio do AA, o que, segundo ela, trouxe um bom resultado.

O amor pelo companheiro e a satisfação por transmitir-lhe esse sentimento também apareceu como um dos motivos para a manutenção do casamento.

[...] Eu era apaixonada por ele, foi meu primeiro homem em tudo, eu me casei com 17 anos de idade e estava grávida. (Girassol, GF, setembro de 2013).

Outro fato importante, considerado essencial para a não separação do companheiro, é a constituição da família. Nessa perspectiva, a fala de Girassol revelou preocupação com essa questão, corroborando o controle moral sobre a mulher, na sociedade, o que tem a ver com as influências culturais, regionais e religiosas, bem como com o contexto sócio-histórico.

[...] passei a suportar o casamento, porque uma mulher separada não era bem-vista [...] (Girassol, GF, setembro de 2013).

Destacamos, ainda ,mais um fator que colabora para a tentativa de preservar o casamento com o cônjuge alcoolista: é a dependência financeira, que faz com que

algumas mulheres, fragilizadas e sem perspectivas de crescimento, se sujeitem e permaneçam na condição de dependência.

Segundo Sena, Boery et.al. (2011, p 6. ): “[...] Diante dessa situação, a mulher pode sentir-se presa à relação em decorrência da falta de perspectiva de vida e da possibilidade de comprometimento da sobrevivência”.

Para algumas mulheres, o fato de ter filhos, fruto do relacionamento com o alcoolista, foi um componente expressivo para o prolongamento do casamento, alegando a necessidade de cuidado e segurança da prole, em face da dependência financeira (Quadro 28).

[...] ele levava o meu filho para o bar, e fazia tudo ali na frente dele, eu ficava doida, até que, em 1993, eu acordei, decidi que não queria mais nada disso. [...] graças a Deus, o meu filho não tem vício nenhum, mesmo tendo visto o pai usar até drogas, ele não puxou ele nisso, pelo contrário [...] o pai bebe e usa drogas até hoje e é esse filho que o socorre. (Girassol, depoimento colhido em janeiro de 2014).

Quadro 28 - Filhos advindos do casamento com o alcoolista

Filhos Maior Menor Rosa 0 2 Margarida 1 0 Hortênsia 0 0 Orquídea 0 3 Girassol 3 0

Fonte: Elaborado por Rosana Nascimento a partir dos depoimentos colhidos em setembro de 2013.

Já para outras mulheres, a existência de filhos não foi a razão de permanecerem no casamento: buscaram outras formas de garantir o bem-estar dos filhos, ora apoiando-se em suas famílias de origem, ora encontrando alternativas de emancipação.

CONSIDERAÇÕES FINAIS E RECOMENDAÇÕES

[...] fazer pesquisa é descobrir caminhos, é configurar e decifrar uma paisagem desconhecida na perspectiva do que se está pesquisando. Na verdade partimos do que já conhecemos com vistas a um conhecimento mais pleno da realidade em análise, sabendo que tal conhecimento se constrói ao longo da pesquisa e só se revela na trajetória. (MARTINELLI, 2005, p. 123).

Consideramos que, durante a materialização da pesquisa, os objetivos propostos foram sendo atingidos, proporcionando, à pesquisadora, realização, transformação intelectual e profissional.

Assim, finalizamos este exercício investigativo, porém, sem concluí-lo, deixando o precedente para outras aproximações, buscas e considerações sobre a questão que nos trouxe até aqui: Rupturas conjugais motivadas pelo alcoolismo:

Uma aproximação às ações de apoio à família do alcoolista.

Apresentamos algumas considerações que expressam desafios e possibilidades no cotidiano institucional, na perspectiva de contribuir para a prática dos profissionais do Serviço Social, diante das demandas que lhes são apresentadas diariamente.

A realização da pesquisa nos permitiu aprofundar o conhecimento sobre o alcoolismo, para além dos seus aspectos científicos e farmacológicos já consolidados, ou seja, compreender a repercussão de seus efeitos na família, na maioria dos casos, a principal responsável pelo sucesso ou fracasso do processo de recuperação do alcoolista.

Durante a realização do Grupo Focal com mulheres de alcoolistas, nos atendimentos individuais e depoimentos espontâneos, nos deparamos com mulheres extremamente capazes, inteligentes e articuladas, porém, fragilizadas pelas sequelas causadas pelo alcoolismo, mas que, se apoiadas na fase inicial do processo, certamente o dano sofrido teria sido menor.

Tal constatação é, de certa forma, uma resposta á pergunta colocada pelos docentes à candidata, na entrevista de seleção para o programa de pós-graduação

em Serviço Social: “Sua intenção com essa pesquisa é preservar as famílias?” Qual o sentido da expressão “preservar a família”? Evitar rupturas e manter sua estrutura e composição apesar das dificuldades? Ou facilitar rupturas, para a preservação de parte de seus membros?

Considerando-se as atuais configurações da família, a preservação do núcleo familiar e bem-estar de seus membros seriam resultados da atenção à família do alcoolista, ainda que, para isso, se optasse por um novo arranjo decorrente de uma ação de divórcio.

Com a revisão sistemática de artigos na base de dados do Scielo, verificamos que a literatura existente sobre a questão pesquisada é recente e ainda insuficiente para fomentar ações de atenção à família do alcoolista em caráter preventivo e/ou curativo de forma mais expressiva, conforme preconizado nas políticas definidas pela Senad.

Pudemos também constatar a ausência de produção na área do Serviço Social sobre a temática Família e Alcoolismo, muito embora esteja frequentemente em pauta nos espaços sócio-ocupacionais em que os assistentes sociais estão inseridos, sendo, sua intervenção e mediação, de extrema importância para o fortalecimento e emancipação das mulheres esposas e companheiras de alcoolistas. É sempre importante reforçar que o diálogo entre o conhecimento e a prática poderá ampliar e enriquecer tanto a produção acadêmica e científica quanto a prática profissional, acerca da referida temática.

Ao nos aproximarmos do território cenário da pesquisa, o Distrito de São Miguel, encontramos algumas instituições que desenvolvem ações voltadas às famílias de alcoolistas, como o Al-Anon, a Pastoral da Sobriedade e serviços como o Caps-AD. Contudo, constatamos também que, embora os serviços já estejam funcionando na região há algum tempo, não são conhecidos por boa parte da população.

Mesmo de forma tímida e limitada, essas ações têm se apresentado como positivas, para as mulheres de alcoolistas que procuram as entidades e os serviços locais. Entendemos que é necessário investir na divulgação mais qualificada e de mais alcance desses trabalhos, a fim de dar visibilidade às possíveis alternativas de apoio, suporte e cuidado oferecidas a essas mulheres.

É preciso integrar e articular as ações voltadas às famílias de alcoolistas, tendo em vista o fortalecimento da rede existente no território, levando-se em consideração o distanciamento e isolamento das ações desenvolvidas.