8.2. Restrictive and mitigating measures - country by country
8.2.2. Measures in Finland
Na obra Aloucura do trabalho: estudo de psicopatologia do trabalho, Dejours (1992), a partir de estudos desenvolvidos na França, argumenta que se a organização formal do trabalho se choca com a história individual, portadora de projetos, de esperanças e de desejos, ignorando-a, instaura-se o sofrimento. Se, por outro lado, o trabalho autoriza a descarga de energia psíquica, por meio da satisfação de necessidades do trabalhador, deflagra-se uma fonte sublimatória de prazer e de enriquecimento da identidade.
Por conseguinte, as vivências de prazer e/ou de sofrimento no trabalho estão relacionadas tanto ao contexto socioprofissional quanto à história subjetiva de cada trabalhador (Mendes, 1995). Baseada na ideia freudiana de que a atividade do homem se pauta pela busca de ausência de desprazer ou sofrimento, e pela experiência intensa de prazer, a psicodinâmica do trabalho postula que o trabalho, como parte do mundo externo ao sujeito e do seu próprio corpo e relações sociais, representa uma fonte de prazer ou de sofrimento se as condições externas oferecidas atenderem ou não à satisfação dos desejos inconscientes (Martinez & Paraguay, 2003; Mendes & Tamayo, 2001).
Para Dejours (2007), o prazer-sofrimento no trabalho se estabelece como um constructo dinâmico, dialético, resultante do enfrentamento do sofrimento, seja pelo uso de estratégias defensivas, conforme já discutido, que visam à negação ou ao controle do sofrimento, seja pelas estratégias de mobilização coletiva, que ajudam na
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ressignificação do sofrimento, transformando situações precipitantes de sofrimento em situações geradoras de prazer. O sofrimento no trabalho pode constituir um mobilizador para a busca de prazer, e, nesse sentido, tal sofrimento não é patogênico, mas criativo, a partir do qual os trabalhadores elaboram soluções favoráveis, especialmente, para sua saúde psíquica (Meireles, 2006). Assim, o sofrimento é concebido pela psicodinâmica do trabalho em sua dupla potencialidade: poderá conduzir ao adoecimento ou à criatividade (Seligmann-Silva, 2011).
A conversão do sofrimento patogênico, originado na rigidez da organização formal do trabalho, em criatividade depende, segundo Dejours (2007), de dois elementos: a ressonância simbólica e o espaço público de discussão coletiva. A ressonância simbólica ocorre sob o signo de uma compatibilização entre as representações simbólicas do sujeito, seus investimentos pulsionais e a realidade de trabalho. Conforme atestam Dejours, Abdoucheli e Jayet: “A ressonância simbólica articula o teatro privado da história singular do sujeito ao teatro atual e público do trabalho, abrindo assim uma problemática socialmente referenciada da sublimação e do prazer no trabalho” (2011, p. 48). Convém destacar que, na maioria das vezes, a forma de organização do trabalho não permite ou limita o espaço para ressonância simbólica (Mendes, 1995). O espaço público de discussão é construído pelos próprios trabalhadores, constituindo o momento em que se enunciam e se confrontam as opiniões elaboradas pelos trabalhadores, em que acontece a expressão coletiva do sofrimento e a busca de mecanismos de transformação da situação vigente (Dejours, Abdoucheli, & Jayet, 2011).
Além das estratégias de defesa, contra o sofrimento patogênico, outro mecanismo de enfrentamento refere-se às estratégias de mobilização coletiva, as quais enfatizam os aspectos socioculturais e essencialmente coletivos envolvidos na
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mobilização subjetiva, em particular a cooperação. Dejours (2011) afirma que a mobilização coletiva só se afigura no coletivo construído pelos trabalhadores, diferentemente das defesas, que podem ser individuais. Esse caráter do coletivo presente na mobilização é o que possibilita as mudanças (a mobilização não é conservacionista, como tendem a sê-lo as estratégias coletivas de defesa) das situações concretas de trabalho diante dos desafios que o real impõe. Destacamos que a psicodinâmica do trabalho tem, também, por referência fundamental, os conceitos ergonômicos de trabalho prescrito e de trabalho real. É sob o indicativo de uma mobilização integral e coletiva e da insuficiência da prescrição, que o trabalhador mobiliza a sua inteligência: uma inteligência transgressora, astuciosa; uma inteligência do corpo, enraizada no corpo, nas percepções e na intuição sensível dos trabalhadores (Dejours, 2011).
A transgressão das normas prescritas não acontece pelo simples prazer da transgressão, mas para a preservação do ofício e para o atendimento aos objetivos estabelecidos, através do uso de soluções engenhosas (manobras, técnicas inventadas, ações diversas – os segredos do ofício) criadas pelos próprios trabalhadores. Se trabalhar é, justamente, preencher a irredutível diferença existente entre a tarefa e a atividade, este preenchimento se dá, segundo Dejours (2008), sempre pela via da transgressão (o que comporta riscos), isto é, os trabalhadores precisam fazer excursões fora das normas, regras, prescrições para poder alcançar os objetivos que lhe foram atribuídos, já que o real do trabalho é precisamente o que se faz conhecer ao sujeito pela sua resistência à aplicação dos procedimentos (Dejours, 2008).
Em relação às vivências de sofrimento-prazer no trabalho e considerando a ideia de que o sofrimento pode engendrar um processo de satisfação, afigura-se um questionamento: como o sofrimento pode se transformar em prazer? Em resposta a tal pergunta, Dejours diria que o movimento de conversão do sofrimento em satisfação se
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dá em função da assim chamada dinâmica do reconhecimento (Dejours, 2004a). Por ser de ordem também subjetiva, o trabalho em si não pode ser avaliado. Somente as consequências do trabalho, infinitamente menos complexas que o trabalho subjacente, podem ser objetivamente avaliadas. Esse consequente é o objeto do reconhecimento (Dejours, 2004b).
A via do reconhecimento, na perspectiva dejouriana, é o julgamento, o juízo sobre o trabalho, caracterizado de forma dupla: o julgamento de utilidade e o julgamento estético ou de beleza (Dejours, 2011). O julgamento de utilidade é de natureza vertical, porquanto advém de instâncias hierárquicas diferentes: chefes, supervisores, e mesmo, subordinados e clientes. Diz respeito à utilidade técnica, social e econômica do trabalho realizado. O julgamento estético, por sua vez, é de natureza horizontal e diz respeito a dois aspectos: a conformidade, ou seja, a obediência às regras do coletivo na realização da tarefa, e a singularidade, relativa ao grau de inventividade empreendido na tarefa. Por ser proferido pelos pares, ojulgamento estético é tido, pelos trabalhadores, como o mais importante, pois somente quem compartilha do mesmo ofício, quem conhece as regras do métier pode fazer uma avaliação criteriosa do engenho necessário para burlar os constrangimentos impostos pelo real do trabalho. Vale salientar, por fim, que o reconhecimento de que trata a psicodinâmica do trabalho é o reconhecimento de natureza, sobretudo, simbólica, não se limitando, embora não prescinda deles, a aspectos de ordem material, como o salário.