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Não pretendemos descrever a extraordinária vaga de inovações financeiras que se concretizaram na década 80, mas chamar a atenção para que sem uma nova infra-estrutura (computadores e redes de telecomunicações transmitindo dados) essas inovações não se poderiam ter tornado ferramentas comuns do “mundo financeiro”. Recordamos duas inovações que revolucionaram o modo de financiar as empresas e de reorganizar a sua estrutura de propriedade.

7.4.1. A Desintermediação Bancária - O sector dos bancos comerciais dos EUA experimentou

duas grandes transformações na década de 80: 1) Os Money Center Banks, atingidos em cheio pela crise da dívida soberana das economias da América Latina tiveram que se recentrar no mercado dos EUA para obter o nível de lucros que lhes permitissem constituir ao longo da década as provisões necessárias para suportar a desvalorização de activos que essa crise inevitavelmente iria exigir (aproveitando o tempo que as autoridades monetárias dos EUA lhes deram para realizar esse processo); esta recentragem no mercado dos EUA levou-os ao crédito ao consumo das famílias e ao crédito hipotecário e à necessidade de superar as limitações herdadas do New Deal no que respeita à possibilidade de exercerem actividade fora do seu Estado de registo incentivou o estreitamento de alianças com bancos locais, através de linhas de crédito e do desenvolvimento do mercado monetário por grosso (wholesale credit market); 2) Os bancos regionais começaram um processo de "saída” para fora dos seus Estados, que nesta década assentou em acordos bilaterais entre Estados a que as autoridades de regulação não se opuseram, este processo de intersate banking estaria na origem da criação para o final da década e principio dos anos 90 dos bancos que se passaram designar como Superrgionals ou seja bancos

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comerciais actuando já em múltiplos Estados e com uma carteira de activos cuja dimensão os aproximava dos Money CenterBanks. Uns e outros beneficiaram da perda de privilégios das

Savings and Loans, para entrarem a fundo no mercado do crédito hipotecário nos EUA.

A principal transformação que se operou na década de 80 no sistema financeiro dos EUA devido á desregulamentação, mas também às próprias dificuldades dos grandes bancos comerciais, foi o processo de desintermediação bancária graças á multiplicação de fundos de investimento abertos operando, quer no mercado monetário, ou seja, na recolha de poupanças de particulares e na sua canalização para o fornecimento de crédito de curto prazo através da compra de “papel comercial” emitido pelas empresas ou pelos próprios bancos comerciais (os designados Money

market funds), quer no mercado de capitais onde os mutaul funds atrairiam cada vez mais as poupanças das famílias, em detrimento dos depósitos bancários.

7.4.2. As junk bonds ou o “Milagre do Lixo” - As junk bonds foram uma inovação da

responsabilidade do financeiro Michel Milken e da sua empresa a Drexel Burnham Lambert, que financiaram um número recorde de take overs e de LBO-Levraged Buyouts , através da emissão de junk bonds, empresa que no final dos ano 80 se transformara num dos principais bancos de investimento de Wall Street. Este modo de financiamento abriu oportunidades excepcionais a milhares de médias empresas que até então não podiam entrar nos mercados de capitais e utilizá- los para o seu crescimento, ficando dependentes do ritmo da sua autofinanciamento e de eventuais empréstimos dos bancos comerciais. E desencadeou um processo de fusões e aquisições como os EUA não conheciam desde os anos 60, na fase de constituição dos conglomerados. Só que agora as fusões decorriam da destruição dos conglomerados e da construção de "empresa focalizadas" aspirando à liderança mundial nos seus respectivos segmentos de negócio, dando origem em poucos meses a um mercado de títulos inteiramente novo que no inicio dos anos 80 crescera o quase do zero aos 200 biliões com a Drexel Burnham Lambert a ser o actor dominante, chegando ater 70% do mercado. A ideia surgiu a Milken baseado no estudo dos comportamentos passados de obrigações distressed, que se transaccionavam nos mercados muito abaixo do seu valor facial, devido ao facto da empresa ter encontrado, por uma razão ou por outra, sérias difculdades. Estas obrigações de segunda qualidade poderiam oferecer grandes oportunidades de investimento, na medida em que o preço de venda com um elevado desconto davam ao comprador um rendimento muito maior do que obteria com investimentos mais seguros. A vantagem extra obtida pelos investidores que as adquirissem compensaria o risco de uma eventual falência posterior da empresa. A partir da

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análise dos comportamentos passados, Milken concluiu que as probabilidades de insucesso das empresas nestas circunstancias eram menores do que era sugerido pelo nível da taxa de desconto utilizada, que de uma forma geral exagerava o risco real de default implicto. Foi por isso que lhes chamoiu junk.

Esta "alquimia criativa" deu origem a um mercado secundário de grandes dimensões de obrigações de elevado rendimento. Eram emitidas por empresas de segunda escolha, que não podiam aceder aos financiamentos organizados pelos bancos de investimento tradicionais de Wall Street, já que não apresentavam características de blue chips. No ambiente liberalizado do tempo de Reagan a atmosfera era altamente favorável a lançar empresa médias ou pouco conhecidas ou que atravessassem dificuldades a fazer planos ambiciosos, a inovar e a expandir- se. A grande ruptura conceptual operada por Milken foi a de defender que o perfil de risco/retorno destas obrigações tinha sido até então mal avaliado, considerando que os retornos extra, pagos aos compradores de obrigações mais do que eclipsavam o risco de default dessas empresas. Muitos empresários tornaram-se multimilionários ao lançarem take overs sobre empresas que consideravam estar mal cotadas ou mal administradas. O "encanto" dos LBO e das

junk bonds utilizadas no seu financiament assentava nas vantagens em termos de lucro da alavancagem financeira, produzindo resultados não lineares. Quando a recessão de 1989 se instalou, num contexto de taxas de juro mais elevadas e quebras de receitas das empresas, o lado mau da não linearidade fez-se sentir. Os balanços das empresas que tinham sido objecto de LBO com elevadas alavancagens, bem como de milhares de outras empresas “cheias “ de junk bonds até ao limite das suas capacidades, estavam overstrechted e muitas colapsaram, enquanto outras conseguiram sobreviver, embora prisioneiras da armadilha de refinanciamentos maciços.

7.4.3.Novas Práticas de Reorganização Empresarial. As Leveradged Buy Outs (LBO) - Um

LBO, Leveraged Buy Out, dá-se quando um pequeno grupo de executivos de uma empresa, trabalhando como uma empresa especialista de Wall Street como a Kohlberg Kravis propunham- se comprar essa empresa aos seus accionistas, para a retirarem a seguir da bolsa, aquisição feita com base em dinheiro emprestado, obtido quer junto dos bancos, quer por colocação de títulos da empresa junto do público, há medida que a "loucura" das junk bonds se desencadeou através da emissão deste tipo de títulos através da emissão de junk bonds. A dívida teria de ser paga pelo

cash flow gerado da actividade normal da empresa e da venda de partes da empresa que fossem consideradas exteriores ao seu core business, no que se traduziu pela acelerada desconglomerização dos EUA. Os defensores dos LBO consideravam que estas permitiam

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“libertar valor das empresas até então não reconhecido pelos mercados no modo como as cotavam. Por sua vez, os LBO geravam para as firmas de Wall Street um fluxo elevado de receitas (sob a forma de fees) associadas às diferentes fases das operações – desde vender as junk

bonds para financiar a operação até receitas resultantes da actividade de conselho e pareciam oferecer a ambas as partes os rendimentos excepcionais resultantes do emagrecimento e acréscimo de produtividade Rendimentos excepcionais que permitiriam valorizar as empresas “transformadas” e gerar potenciais ganhos de capital, caso fosse possível vendê-las a seguir a

outras empresas que as considerassem bem adaptadas aos seus planos44. Em meados dos anos 80

a empresa emblemática dos LBO a já controlava mais de uma dúzia de companhias adquiridas com dinheiro emprestado).

7.4.4. Os Pools privados de capital - A redução de impostos sobre os rendimentos mais

elevados nos EUA. Realizada nos EUA durante as Administração Reagan "libertou" fundos que vieram a alimentar três novos tipos de entidades financeiras, todas elas distinguindo-se das restantes por serem pools privados de capital, fechados e sob gestão profissional, orientada para a maximização de rendimentos dos que nelas colocavam volumes muito consideráveis de capitais. A natureza fechada e privada destes fundos reduziu a sua exposição às autoridades regulamentares que intervinham no mercado de capitais e nomeadaments a SEC (Securities and

Exchance Comission): a) Os Private Equity Funds cuja função era retirar empresas dos mercados de capitais e fraccionar, reformular e reconfigurar em termos accionistas essas empresas; b) Os

Venture Capital Funds cuja função era descobrir, apoiar financeira e em aconselhamento empresa inovadoras obtendo valores muito elevados com os "benefícios de fundador" daquelas que conseguiam desenvolver-se com êxito até poderem ser colocadas na bolsa, neste caso no NASDAQ; e c) Os Hedge Funds- fundos que procuravam localizar à escala global todos os desajustamento existentes na superfície empresarial que permitissem obter ganhos de capital pela exploração da sua inerente fragilidade das entidades onde se verificavam esses desajustamentos (empresas, Estados, moedas) até ao momento da sua implosão ou reconfiguração.

44 Dois dos problemas associados aos LBO eram a "montanha de dívida" e a vulnerabilidade a mudanças de

conjuntura afectando as taxas de juro e os riscos de, ao pretender “emagrecer" as empresas liquidassem "órgãos vitais".

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