Até o momento buscamos demonstrar a importância da nutrição para o crescimento humano, observando que não somente é importante a quantidade de alimentos consumida, como também é fundamental a qualidade desse consumo. Mas, ainda que as condições de nutrição sejam adequadas em determinada população, uma elevada prevalência de doenças transmissíveis pode comprometer parcial ou totalmente a absorção de nutrientes pelo organismo, afetando assim, o seu pleno desenvolvimento (Scott e Duncan, 2002; Steckel, 1995). A situação pode agravar-se, ao considerarmos a existência de uma sinergia entre uma nutrição inadequada e uma alta prevalência de doenças infecciosas (Steckel, 1995; 2008). Ou seja, uma criança exposta a uma condição precária de nutrição, não somente irá apresentar déficits nutricionais como também terá uma chance maior de contrair doenças infecciosas agravando ainda mais o seu crescimento (Steckel, 2008; Scott e Duncan, 2002).
A associação entre o retardo no crescimento humano e a prevalência de infecções agudas e crônicas, durante as idades onde ocorre o crescimento, vem sendo observada tanto nas sociedades nas desenvolvidas quanto nas em desenvolvimento. Nas sociedades desenvolvidas existem evidências, obtidas na Itália (Perri et al, 1999) e no norte da Irlanda (Murray et al, 1997), que apontam as infecções oportunistas por Helicobacter Pylori como responsáveis pela limitação do crescimento das crianças. Contudo, a maior parte das evidências, que dão suporte à existência dessa associação, encontra-se nos países em desenvolvimento. Uma das pesquisas longitudinais mais importantes da América Latina foi realizada pelo Instituto de Nutrição para América Central e Panamá
(INCAP) em quatro vilas rurais da Guatemala, durante o período 1966 – 1977 (Martorell et al 1975, Martorell, 1995). Posteriormente, se fez um seguimento da pesquisa com os mesmos indivíduos no período 1988 – 1989. A pesquisa INCAP teve como objetivo principal avaliar o impacto das condições precárias de nutrição no crescimento e na habilidade cognitiva das crianças e, para tanto, considerou dois momentos como cruciais: a gestação e o momento que precede o ingresso escolar. A pesquisa teve como hipótese principal que uma melhora nas condições de nutrição e saúde durante os primeiros anos de vida, contribuiria positivamente na formação do capital humano, durante a adolescência e idades adultas. (Martorell, 1995). Entre os diferentes resultados produzidos por essa pesquisa, se destaca o impacto negativo que as doenças intestinais têm sobre a estatura final das crianças que delas padeceram em comparação com as crianças que não apresentaram episódios dessas doenças (Martorell et al, 1975; Martorell et al, 1980; Martorell, 1995).
Pesquisas longitudinais similares, embora com menor período de acompanhamento dos indivíduos, procurando avaliar o impacto das doenças transmissíveis, em especial os episódios de gastroenterite e malária, foram conduzidas nas áreas rurais de Gâmbia (Rowland, Coale & Whitehead, 1977) e Bangladesh (Black, Brown & Decker, 1984). Nestas pesquisas, Rowland, Coale & Whitehead (1977) mostraram que durante os períodos de doenças diarréicas as crianças perdiam aproximadamente 1 mm no crescimento em comparação com seu crescimento em períodos livres de tais doenças. Já Black, Brown & Decker (1984) verificaram que as crianças vítimas de doenças diarréicas deixavam de ganhar 0,42cm no seu crescimento em comparação com as crianças que não foram acometidas por tais doenças. Outras pesquisas similares foram realizadas em diferentes países em desenvolvimento. Para citar dois exemplos, temos as pesquisas realizadas no Brasil que avaliaram o impacto das doenças diarréicas e dos episódios de pneumonia no crescimento (Guerrant et al, 1992; Victora et al, 1990; Fonseca et al, 1996) e também a pesquisa de Lopez de Romaña et al (1989) realizada no Peru onde se avaliou o impacto das doenças transmissíveis no crescimento das crianças em áreas da periferia urbana de Lima.
Além da necessidade de obter mais nutrientes para o combate da doença, o mecanismo pelo qual as doenças transmissíveis afetam o crescimento humano também está associado a uma limitação na absorção de nutrientes fundamentais por parte do indivíduo contaminado (Steckel, 1995; 2008; Scott e Duncan, 2002). Essa limitação vai variar de acordo com a severidade da infecção (Duggan et al; 1986). As infecções agudas (disenteria, pneumonia, etc.) ou crônicas (infecções por helmintos, etc.) que afetam o hospedeiro por um período de tempo tem um efeito negativo sobre o crescimento, uma vez que atrapalham seu desenvolvimento via estado nutricional. Isso acontece devido a três situações: primeiro, as infecções acarretam uma diminuição na ingestão de alimentos pelo indivíduo justamente no momento que ele mais precisa de determinados nutrientes. A febre que geralmente vem relacionada ao quadro de infecção, sobretudo, nos casos de infecções respiratórias ou diarréias, pode vir acompanhada de episódios de anorexia, quando o indivíduo pode diminuir o consumo de alimento em 20% ou mais, dependendo da severidade da infecção (Martorell et al 1980; Butle, N. et al, 1989). Em segundo, tanto a diarréia aguda, originada por vírus, bactérias ou protozoários, quanto às infecções por helmintos podem originar lesões na mucosa epitelial do intestino dificultando o processo de absorção de micro e macro nutrientes (Mata, 1992; Stephensen, 1987). Doenças como a diarréia, as infecções respiratórias agudas e a catapora estão associadas à deficiência da vitamina A (Campos et al, 1987; Rahman et al; 1996). A terceira situação está relacionada ao fato das infecções comprometem o transporte de nutrientes para alguns tecidos específicos (Stephensen, 1999; Lunn, 1991). Em geral, parece que todas as infecções que envolvem episódios de febre desencadeiam uma eliminação de algumas proteínas de baixo peso molecular na urina. Uma dessas proteínas, que talvez seja a mais afetada, é a RBP que transporta a vitamina A. À medida que vai aumentando a severidade da infecção aumenta-se também a eliminação dessa vitamina (Stephensen et al 1994).
Como resposta à infecção o organismo inicia um processo inflamatório que desencadeia uma série de mudanças metabólicas. Esse processo é denominado “Resposta de Fase Aguda - RFA” e refere-se a uma reação inflamatória que
ocorre após um ferimento tecidual (Stephensen, 1999; Lunn, 1991). A RFA é um processo pelo qual o organismo mobiliza tecidos e reservas com a finalidade de fornecer energia e substratos como combustível para combater à infecção. Os músculos esqueléticos, neste caso, são os mais afetados devido ao consumo exaustivo de proteínas utilizadas para a produção de energia e aminoácidos para a síntese de anticorpos ou outros processos imunes e também para o reparo dos tecidos danificados (Lunn, 1991). Adicionalmente, submetido a um longo processo RFA o organismo passa a produzir um tipo especial de citocinas pró-inflamatórias que contribuem para o fomento do processo inflamatório no organismo (Dinarello, 2000). Essas podem afetar o processo de remodelamento dos ossos, processo esse, necessário para garantir um maior crescimento físico ao indivíduo, sobretudo, se as infecções (bacterianas ou virais) envolvem células que conformam o tecido ósseo (Stephensen, 1999; Crimmins e Finch, 2006).
2.5 Os Determinantes Socioeconômicos: As condições