Noites divertidas
Como ha nesta brilhante Capital muitas pessoas distinctas, que costumão reunir luzida Sociedade, seja por occasião de annos, ou por qualquer outra em que folgão de entreter tão licita, como agra- davelmente o tempo; e desejando muitas vezes tornar de algum modo mais divertido e variado o entretenimento da Assembléa, o que não permitte sem dúvida a monotonía do jogo, a que se recorre muitas vezes por não haver outro objecto que melhor entretenha os circunstantes: por isso, em quanto se achão nesta cidade, a cujos moradores se confessão mui reconhecidos, tem Mrs. Cossoul, e Robertson a honra de se offerecerem áquellas pessoas, que se quizerem aproveitar do seu prestimo para irem a suas casas entreter huma noite de Sociedade, com gostosa variedade de entretenimen- tos, bastando parteciparlhes a noite em que deve haver a reunião, com dois ou tres dias de antecipação, para que tenhão tempo de dispor as diversas coisas, analogas aos diversos divertimentos e circumstancias.
(Diario do Governo, 3 de Dezembro de 1823) A contradição entre a consciência moderna do próprio papel de profis- sional livre e a dificuldade representada por um contexto como o da Lisboa do início do século XIX, aparece como central na experiência profissional de João Domingos Bomtempo na sua própria pátria, encontrando num momento particular da sua vida uma solução surpreendente e sob muitos aspectos excepcional como é a que representa o estabelecimento da Sociedade Filar- mónica, de extrema importância para o nosso tema uma vez que constitui a primeira tentativa de criação em Portugal de uma instituição de concertos estável e regular, à qual regressaremos em particular mais adiante. A tenaci- dade e o prestígio do seu fundador, a sua capacidade de manter boas relações
não só com a elite liberal e maçónica, mas também com a melhor sociedade lisboeta e com o próprio D. João VI, são alguns dos factores que ajudam a explicar o “milagre” da criação e da sobrevivência desta sua iniciativa durante quase seis anos, apesar das dificuldades e às vezes da hostilidade do contexto.
Sublinhe-se contudo que a Sociedade Filarmónica ia ao encontro de algumas tendências já desde há tempos presentes na sociedade lisboeta, e das quais aparecem numerosas traças nas diversas fontes da época. Encontramos nestas, de facto, a confirmação de uma intensificação da procura de um sempre maior número de ocasiões de mundanidade, entendida como “socia- bilidade de diversão elegante, requintada e aprazível praticada por nobres e burgueses, tendo por objectivo essencial o convívio e a distracção – em torno de um gosto comum pelo teatro e pela música, pela dança e pela literatura, pelo jogo – ou muito simplesmente a comemoração do dia de aniversário e a conversa”, mundanidade praticada primeiramente no ambiente doméstico e depois também nas “assembleias publicas”, espaços sociais mais alargados e institucionalizados.1
1 Maria Alexandre LOUSADA, “Sociabilidades mundanas em Lisboa, partidas e
assembleias, c. 1760 – 1834”, Penélope, n. 19-20, 1998, pp. 129-160: 153. Entre as numerosas referências que nos permitem afirmar que esta era uma prática frequente na Lisboa da época assinalemos, além dos anúncios directamente relacionados com a actividade musical, os que fazem publicidade a lições de dança de salão. Neste caso também, se bem que a verdadeira explosão da moda do baile de sociedade venha a ter lugar no reinado de D. Maria II, estes dados parecem indicar um aumento significativo desta prática já no período posterior à Revolução de 20. Citaremos aqui a título de exemplo, entre muitos anúncios, alguns dos quais relativos ao célebre bailarino Zenoglio, o que foi publicado no Diario do Governo de 8 de Novembro de 1826: “José Zenoglio, professor de dança, previne as pessoas que desejarem aprender contradanças franzesas, e mais danças usadas nas Assembléas, pelo methodo o melhor, breve e facil, poderão dirigir-se a sua casa, rua Aurea nº 48, 1º andar, onde dá licções todas as noites das 6 horas até as 9”. Em 1829, além disso, José Zenoglio “pede licença para estabelecer huma Caza de ensino de dança” (cf. P-Lan, MR, l. 332, fol. 199, 8 de Outubro de 1829), enquanto que ainda em 1833 fará publicar o seguinte anúncio no
Diario do Governo de 15 de Fevereiro: “Partecipa Mr. Zenoglio, mestre de dança, que tendo varias lições a dar no districto de Buenos Aires, se offerece igualmente a algumas pessoas do referido districto para o mesmo fim; para o que se pódem dirigir á sua casa rua do Outeiro a S. Carlos N. 9, 1º andar”. No mesmo ano, em plena crise política portanto, a 2 de Abril aparecia o seguinte anúncio no mesmo periódico: “Mr. Toussaint, professor de dansa da grande Opera de París, e do Real Theatro de S. João no Rio de Janeiro, se offerece a ensinar a sua arte, e nisso se entendem todos os generos de dansa de sala, por hum preço muito commodo: quem se quizer aproveitar das suas lições, dirija-se a sua casa na rua do Ouro N.º119, 2º andar; tambem dá lições particulares de dansa e pantomima para o Theatro”.
Neste sentido, o anúncio com o título significativo de Noites divertidas com o qual se iniciou este capítulo pode servir de exemplo, não só porque parece confirmar como este tipo de reuniões, as chamadas “assembleias”, eram uma prática absolutamente comum na Lisboa do tempo, mas também porque nele é mencionado Luís Cossoul, que virá a tornar-se um dos músi- cos mais activos em Lisboa durante todo o período que é objecto deste estudo. De facto o anúncio faz publicidade – para além das “habilidades Indias do Malabar Luís Cossoul”, e das “habilidades Hydraulicas” e “novos jogos de fysica divertida” e de “Fantasmagoria” de Eugenio Robertson – também às performances de “Musica de Harpa e Rebeca” executadas pelo próprio Cossoul e por sua mulher Virginia.2
A crescente difusão desta prática social constituída pelas assembleias, cujos antecedentes se podem já entrever em certas formas de sociabilidade nascidas no seio das cortes da Renascença, particularmente nas italianas, mas cuja relevância na capital portuguesa se faz habitualmente remontar ao período posterior ao terramoto,3 terá consequências muito significativas no
campo musical em meados do século, com a vasta dimensão que os fenóme- nos do associativismo musical e da prática amadora irão assumir na capital; todavia, já durante o período aqui examinado, podemos registar numerosos elementos que parecem indicar como, malgrado as inevitáveis repercussões das sucessivas crises políticas, o fenómeno se expande progressivamente pelo menos até à chegada a Lisboa de D. Miguel.
A exigência de um maior número de ocasiões mundanas parece parti- cularmente visível logo a seguir à revolução, a qual, na opinião do redactor da Allgemeine musikalische Zeitung, favoreceu o crescimento do público do
2 Diario do Governo, 3 de Dezembro de 1823, cit. Luís [Jean Louis Olivier] Cossoul, pai
de Guilherme, o qual se irá tornar um dos protagonistas da vida musical lisboeta do século XIX, era conhecido inicialmente sobretudo como “o índio” e só mais tarde renunciou à sua actividade de “malabar” em favor da de violinista, tendo de facto sido aluno no Conservatório de Paris do célebre violinista Kreutzer (VIEIRA, op. cit., vol. I,
p. 311).
3 LOUSADA, art. cit., p. 130. Tratando-se embora de um relato muito posterior, pelo que
talvez não inteiramente fiável, assinalemos a descrição de um serão poético-musical na época de D. Maria I na “residência das Picoas” da família Freire d’Andrade, onde, depois do certame poético, se terão ouvido uma sinfonia de Gluck transcrita para cravo e tocada por Pedro Anselmo [Pierre Anselme] Maréchal, uma peça para harpa tocada por sua mulher e várias árias de ópera interpretadas pelas principais cantoras do Teatro da Rua dos Condes (entre elas a famosa Zamperini), terminando com conhecidas modinhas (cf. Marquês de RESENDE, Pintura de um outeiro nocturno e um sarau
musical às portas de Lisboa no fim do século passado, Lisboa, Typ. da Academia Real das Sciencias, 1868).
Teatro de S. Carlos,4 que constituía tradicionalmente o centro desta nova
sociabilidade, seguido, pelo que se refere aos espaços públicos e semi-públi- cos, pelos outros teatros, assim como pelos dois clubes existentes na época na cidade, a Assembleia Estrangeira e a Assembleia Portuguesa. O sincero entusiasmo revolucionário e as homenagens tanto à nova classe dirigente como ao rei estão por outro lado na origem da proliferação de toda uma série de celebrações patriótico-religiosas durante o primeiro liberalismo nas quais, geralmente a título gratuito, músicos profissionais e diletantes da elite libe- ral, frequentemente com o jovem barão de Quintela à cabeça, se ocupavam da parte musical.5 O marquês de Fronteira confirma em vários momentos das
suas memórias esta reencontrada vontade de sociabilidade durante o período de 1818-24,6 sociabilidade essa que se reflecte também nas formas de
relação que dizem respeito à esfera do privado, passando a incluir cada vez com mais frequência a prática da execução musical doméstica, à qual já aludia de resto o autor da crónica de 1816 da Allgemeine musikalische Zeitung quando afirmava que “nas cidades principais, mas sobretudo em Lisboa, é de bom tom, quando se tem convidados, começar o serão com um pequeno concerto”.7
A difusão de práticas sociais mundanas centradas na música está evi- dentemente associada ao crescimento do fenómeno do amadorismo musical,
4 Cf. BRITO-CRANMER, op. cit., p. 52, assim como a p. 26 da introdução, na qual se
estabelece uma relação entre o fervor da actividade musical e “a exaltação do liberalismo nascente” enquanto que, ao contrário, a p. 59, uma crónica de 1824 assinala a quase ausência de público no teatro italiano no dia seguinte à Vilafrancada.
5 Cf. ESPOSITO, “Lisbona 1822...” cit., pp. 39-40, onde, além de se sublinhar como a
execução por amadores em semelhantes ocasiões patrióticas era um hábito difundido em Portugal, se aponta – na esteira do que já tinha sido assinalado por Vieira (VIEIRA,
op. cit., vol. I, p. 134) – a coincidência entre os participantes nas exibições patrióticas do período revolucionário e os principais animadores das reuniões de concertos privadas da época assim como da Sociedade Filarmónica de Bomtempo.
6 Memórias do Marquês de Fronteira... cit., II parte, onde se pode ler por exemplo, a
p. 296, em referência a 1822, que “Lisboa estava muito animada: bailes, theatros, muitas partidas”, enquanto que a pp. 179-80, em relação ao período de 1818-24, se recorda que havia reuniões “todas as noites, ou em casa do marquez, ou no Grillo, ou nos differentes theatros, porque o theatro portuguez era então muito frequentado pela sociedade”.
7 BRITO -CRANMER, op. cit., p. 38. Ainda em 1826 um viajante inglês notava que “nos
saraus da alta fidalguia os divertimentos usuais são unicamente a musica e a dança” (Cf. A.P.D.G., Sketches of Portuguese life, manners, costume and character, Londres, Whittaker, 1826, p. 221). Os salões da marquesa de Alorna e de Francisca Possolo, embora propusessem principalmente encontros literários, também previam frequentemente intervenções musicais (v. SANTOS, op. cit., pp. 279 e segs.).
no interior do qual me parece ser possível identificar duas tendências, uma maioritariamente elitista, e uma outra que indica pelo contrário o alarga- mento desta prática a faixas sempre mais amplas da população.
Fig. 6: Domingos António de Sequeira, Retrato de Mariana
Benedita Vitória Sequeira (Museu Nacional de Arte Antiga)
A primeira destas tendências, cultivada principalmente por um grupo restrito constituído por alguns membros da burguesia de origem estrangeira ou por membros da aristocracia, de acordo com uma prática amadora de tipo setecentista, caracteriza-se ainda pela menor incidência que nela têm os factores mundanos, pela maior “severidade” do repertório e sobretudo pela exclusão da presença feminina.8 Penso que se podem relacionar com ela, ao
8 Vieira, referindo-se justamente ao período por alturas do regresso de D. João VI do
Brasil, recorda que “havia n’aquella época uma pleiade de familias da mais nobre linhagem, que cultivavam a musica com um grande amor; entre essas familias, quase todas ligadas entre si por laços de parentesco, contavam-se as do marquez de Borba e conde de Redondo, marquez de Tancos e conde de Atalaya, marquez de Bellas, marquez de Castello Melhor, condes de Lumiares, Belmonte, Anadia, etc.” (cf. VIEIRA,
op. cit., vol. I, p. 62). A crónica da Allgemeine musikalische Zeitung de 1821 refere-se- -lhe também deste modo: “Entre a aristocracia reina em geral muito mais o gosto pela música do que entre a burguesia; contudo conheço muito poucos homens que se
longo do período aqui examinado, para além das já referidas execuções patrióticas, as execuções dominicais e nos dias festivos de quartetos e sinfo- nias, provavelmente em arranjos para conjuntos de câmara, por parte dos membros masculinos da família do marquês de Fronteira, assim como, entre as diversas reuniões musicais mencionadas pela Allgemeine musikalische Zeitung, os “concertos de inverno” que pelo menos a partir de 1816 se reali- zavam em casa do comerciante alemão Klingelhöfer, nos quais se executa- vam sinfonias do repertório clássico, os que eram organizados pelo comer- ciante sueco Deron, onde “somente se tocam quartetos e quintetos” “bem escolhidos e bem executados”, ou ainda a série de “21 saraus musicais na hospedaria de Lahmeyer sénior” realizados em 1819 pelo austríaco Franz Anton Driesel, os quais, pelo menos inicialmente, parecem ter-se destinado principalmente à execução de musica orquestral.9
Por sua vez, a presença de amadores do “belo sexo” (presença que continuará durante todo o século a ser interpretada pelas crónicas jornalísti- cas, em Lisboa como no estrangeiro, como um dos principais indicadores do sucesso dos eventos musicais mundanos) e o sempre maior espaço ocupado por um repertório mais acessível principalmente de derivação operática (e portanto pelo canto e por instrumentos como a flauta e sobretudo o piano) caracterizam a segunda tendência, que parece tornar-se cada vez mais preponderante justamente nos anos 20 do século. Seguindo sempre os relatos da Allgemeine musikalische Zeitung, notamos que o autor da crónica de 1822, provavelmente o próprio Driesel, afirmava que continuavam as reu- niões musicais em sua casa, mesmo se
a intenção original de tocar somente quartetos e quintetos é muitas vezes ultrapassada, dado que, sobretudo nos últimos tempos, elas têm sido fre-
distingam por uma execução cultivada e de bom gosto” (BRITO-CRANMER, op. cit., p. 50). Sobre a ascendência setecentista desta prática difundida entre a aristocracia e a colónia estrangeira de Lisboa v. Manuel Carlos de BRITO, Estudos de história da
música em Portugal, Lisboa, Estampa, 1989, em particular o capítulo “Concertos em Lisboa e no Porto nos finais do século XVIII”.
9 Cf. Memórias do Marquês de Fronteira... cit., I parte, p. 190, assim como BRITO-
-CRANMER, op. cit., pp. 39, 48, 49 e 53, onde o cronista da Allgemeine musikalische
Zeitung refere ainda, para 1821, o caso bastante excepcional do mecenas José Dias Pereira Chaves (em cuja casa “ouvem-se igualmente com frequência quartetos bem executados, assim como na casa de João Marques da Silva, João Pedro da Mata, Francisco de Assis, etc.”) e deixa também entender que as reuniões inicialmente organizadas por Driesel na estalagem de Lahmeyer continuaram depois na sua própria casa “na rua do Thesouro Velho, no 1º andar”, em paralelo com o que relata Benevides, que as menciona como uma das raras ocasiões para ouvir em Lisboa “as sublimes obras de Haydn, Haendel, Mozart, Bach e Beethoven” (BENEVIDES, op. cit., p. 157).
quentemente animadas por muitos dos melhores artistas que o fazem uni- camente por gosto.10
Do mesmo modo, penso que as afirmações deste mesmo autor acerca do facto de que em Lisboa “cada vez se divulga mais o gosto pela música” ou também, na crónica seguinte, que “o gosto pela música parece mais aumen- tar do que diminuir, embora no conjunto não se produza muito de excepcio- nal”, antepostas aos relatos sobre os círculos musicais privados, parecem poder ser interpretadas ainda como indicativas de um alargamento generali- zado da prática amadora.11 É evidente que por vezes as duas tendências
podiam conviver e sobrepor-se, como se deduz da descrição dos serões no Palácio do Grilo, residência dos sogros do marquês de Fronteira, nos quais, num ambiente exclusivamente aristocrático, um exemplo da primeira ten- dência parece ser o da orquestra formada por “muitos individuos da velha aristocracia do tempo [que] eram bons tocadores de diferentes instrumentos” e da segunda o da mulher do marquês, do seu cunhado, do marquês de Angeja e de outros amadores a quem eram confiadas as partes vocais.12
A hipótese de uma crescente difusão da prática musical é confirmada também pelo aumento e pela tipologia dos anúncios nos jornais destinados a publicitar lições privadas de música; de facto estes dirigem-se principal-
10 BRITO-CRANMER, op. cit., p. 58. 11 Ibidem.
12 Cf. Memórias do Marquês de Fronteira...cit., II parte, p. 180 e segs., que refere ainda
que na mesma residência se realizavam “partidas musicais” nas quais participavam também João Domingos Bomtempo, José Pinto Palma e “os Jordanis” (Caetano e João Jordani). Do mesmo modo, tem-se a impressão de que as representações teatrais promovidas pelo barão de Quintela na sua Quinta das Laranjeiras eram marcadas maioritariamente por factores de mundanidade, enquanto que as reuniões que se realizavam, primeiramente ao Sábado e depois ao Domingo, durante o Inverno na sua habitação da cidade, onde se tocavam “sinfonias e concertos”, se podem provavelmente inscrever na primeira tendência (BRITO-CRANMER, op. cit., pp. 55, 49 e 62-63). Como se
sabe, em 1814 o próprio Bomtempo tinha dirigido algumas jovens amadoras, sobrinhas e filhas do cônsul de Espanha, na execução de O annuncio da Paz, uma cantata alegórica à restauração no trono de Espanha de Fernando VII (cf. VIEIRA, op. cit., vol. I, pp. 120- -121). Assinalemos além disso, entre as várias representações análogas, a que em 1821 realizou uma “sociedade aristocrática” toda ela composta de amadores, neste caso exclusivamente “da burguesia”, da ópera Il fanatico per la musica de Mayr (BRITO-
CRANMER, op. cit., p. 50), a de L’amor coniugale, sempre de Mayr, interpretada unicamente pelas filhas e o pessoal doméstico feminino da condessa de Anadia (Marianne BAILLIE, Lisbon in the years 1821, 1822 and 1823, 2 vols., Londres, John Murray, 1824, vol. II, p. 87), ou aquela a que assistiu um viajante estrangeiro em 1834 realizada pelas duas filhas do senhor O’Neil (James Edward ALEXANDER, Sketches in
mente a “meninas”, apontam para um ensino generalista mais do que espe- cializado, associando com muita frequência o ensino da música ao de outras “prendas” necessárias à educação feminina, prometem um “methodo facil e agradavel”, de tal modo “que em bem poucos tempos se observe o adianta- mento” das alunas, anunciam-se por vezes genericamente como “aulas de música” ou, quando indicam a especialização, esta recai principalmente sobre o piano e o canto.13 A música e a dança são também quase sempre
referidas como matéria de ensino nos anúncios dos diversos estabelecimen- tos de educação femininos, como por exemplo o da inglesa “Maria Luiza Smith”, onde se ensina a “escrever, ler, e contar; cozer, bordar, e fazer flores no ultimo primor; musica pelo insigne professora [sic] – Gama, – e dança pelo professor – Zenoglio”; um anúncio de 1830 dirige-se a “todo o chefe de familia, que quizer suas filhas adornadas com o dote de sabedoria” propondo o colégio sito “na travessa da Assumpção Nº 44, onde se ensina a boa educa- ção, e as prendas que são proprias de huma Senhora, como ler, escrever, contar, Grammatica Portugueza, marcar em setim, e com migança, fazer renda e bordar de toda a qualidade, Francez, tocar Piano forte e cantar”.14
Os anúncios de lições de piano propostas por professores portugueses aparecem em menor número dos que os de professores estrangeiros, os quais, quando são franceses, não deixam de sublinhar a sua proveniência do prestigioso Conservatório de Paris, o que parece constituir por vezes um ulterior elemento à la page mais que a garantia de uma formação altamente especializada.15 É evidente que este tipo de anúncios em jornais eram o
13 Entre os numerosos anúncios, transcrevo aqui um típico exemplo deste ensino
generalista, em que a música aparece associada a outras disciplinas, publicado no
Diario do Governo de 12 de Agosto de 1829: “Mademoiselle Nina tem a honra de informar á Nobreza, e principaes casas desta Corte, que desde hoje principia a dar suas