• No results found

mai Nr. 577 2011

In document N ORSK L OVTIDEND (sider 115-122)

Este sub-capítulo dedica-se, genericamente, aos mecanismos de defesa do hospedeiro humano quando este interage com o S. pneumoniae.

Primeira colonização da nasofaringe

Um artigo de revisão de Kilian et al. (1988) tenta explicar como se dá pela primeira vez a colonização temporária da nasofaringe nas crianças. Os autores abordam as bactérias comensais da nasofaringe e potencialmente patogénicas que produzem a protease da imunoglobina A1 como Haemophilus influenzae serótipo b, Neisseria meningitidis e Streptococcus pneumoniae. A colonização temporária da nasofaringe resulta da indução concorrente dos anticorpos contra os antigénios da superfície bacteriana e dos anticorpos com acção neutralizante da actividade da protease. Como a imunoglobina não é degradada pela protease não se produzem fragmentos Fab que por sua vez não cobrem a superfície da bactéria de modo a protege-la contra a acção do sistema imunitário. Num hospedeiro pela primeira vez exposto a estes agentes microbianos, a resposta imunitária confere protecção contra a infecção invasiva e contra as posteriores investidas pelas mesmas bactérias.

O aparecimento da infecção invasiva

Em alguns indivíduos a colonização da nasofaringe é seguida de uma infecção invasiva provocada pela mesma bactéria A susceptibilidade de alguns indivíduos à ocorrência da infecção invasiva resulta da pré-existência de imunoglobina A1 nas secreções contra os antigénios da superfície bacteriana. A produção destes anticorpos é induzida por um prévio contacto na mucosa com outros microrganismos não produtores da protease da imunoglobina A1. É de notar

dá-se a proteólise da imunoglobina A1 e a bactéria liga-se aos fragmentos Fab o que lhe permite evitar a opsonofagocitose e posteriormente ultrapassar a barreira mucosa e causar infecção sistémica (Kilian et al., 1988).

O papel da imunoglobina G na eliminação pneumocócica

Os pneumococos produzem uma protease que os defende contra o sistema imunitário mas expressam outros factores como a fosforilcolina que é uma estrutura reconhecida por ele. Segundo Goldenberg et al. (2004) a imunoglobina G do subtipo G2 do soro humano tem um papel activo contra os pneumococos e outros microrganismos que expressam a fosforilcolina e que colonizam o tracto respiratório. Neste estudo verificou-se que os pneumococos que expressam os serótipos 14, 19F, 23F, 6A e 6B são mais susceptíveis à opsonofagocitose induzida pelo anticorpo G2 contra a fosforilcolina. Estes serótipos são precisamente os que causam grande parte de infecção invasiva em crianças, o que supõe que apesar de serem mais susceptíveis ao anticorpo G2 do que outros tipos capsulares possuem outros factores de virulência que lhes conferiram um maior sucesso adaptativo.

Nos variantes fenotípicos da mesma estirpe observou-se que os transparentes exibem uma maior susceptibilidade à opsonofagocitose do que os opacos (Goldenberg et al., 2004), o que se pode dever à maior expressão de fosforilcolina e à menor de polissacárido capsular (Kim et al., 1999). Esta susceptibilidade varia de estirpe para estirpe devido, possivelmente, à variação na expressão de fosforilcolina (Goldenberg et al., 2004).

Pode-se concluir que a susceptibilidade do Homem ao S. pneumoniae deve-se não só à variação da expressão da fosforilcolina, mas também à variação individual na resposta da imunoglobina G2 e a deficiências neste anticorpo, que podem estar associadas a uma maior frequência de infecção pneumocócica.

Sistema do complemento

O complemento faz parte do nosso sistema imunitário inato e tem três actividades fisiológicas principais: a defesa do hospedeiro contra a infecção, a interface entre a imunidade inata e adaptativa, aumentando as respostas dos anticorpos e a memória imunológica e a eliminação de desperdícios incluindo a eliminação das células apoptóticas e dos complexos imunológicos dos tecidos (Walport, 2001).

Há três vias de activação do complemento, a via clássica, alternativa e a via das lectinas. Os iniciadores da via clássica são os complexos imunológicos, as células apoptóticas, alguns vírus e bactérias Gram– e a proteína C reactiva ligada a um ligando através da fosforilcolina. Os iniciadores da via alternativa são bactérias, fungos, vírus e células tumorais. A via das lectinas é

iniciada por microrganismos com grupos de manose terminal (Walport, 2001). Ou seja o pneumococo inicia as três vias, sendo a via clássica e a alternativa as principais. Estas cascatas enzimáticas levam à clivagem do complemento C3. A pneumolisina liga-se à porção Fc da imunoglobina e activa a via clássica (Alcântara et al., 1999) enquanto que os componentes da parede celular, libertados após a lise ou durante o “cell-wall turnover”, activam a via alternativa do complemento (Tuomanen, 2000).

A via clássica interage com a via alternativa ao nível do factor do complemento C3b formando uma única via composta pelos restantes componentes do sistema do complemento. A via clássica ocorre primariamente durante o reconhecimento imunológico do antigénio por um anticorpo específico (IgM, igG) que expõe na porção Fc do anticorpo um local de ligação ao C1 (consiste no C1q, 2 moléculas de C1r e duas moléculas de C1s). Seguem-se uma série de activações e dissociações de factores do complemento até se formar o C3b. O anticorpo serve para despoletar a cascata enzimática e para guiar a deposição do complemento em locais específicos na membrana (Figueroa e Densen, 1991).

A via alternativa é despoletada pela ligação entre pequenas quantidades de C3b aos grupos hidroxilo de moléculas com estruturas químicas repetitivas como os polissacáridos, os lipopolissacáridos e o ácido teicóico e é activada pela baixa clivagem do C3 no plasma (Walport, 2001). É possível que os anticorpos possam facilitar a activação da via alternativa através de grupos funcionais ou porções de carbohidratos da porção Fab de algumas subclasses de IgG. A C3 convertase formada pela via clássica ou alternativa converte o C3 em C3b. O C3b é um componente de ambas as vias e a sua geração promove a produção de mais C3b pela via alternativa. Este passo é importante uma vez que a opsonização bacteriana e a neutralização viral ocorrem através da deposição da opsonina C3b na superfície da bactéria. Durante o processo de opsonização as células fagocitárias expressam receptores que se ligam às opsoninas e acabam por promover a fagocitose. Entretanto dá-se a continuação da via do complemento com a formação de um complexo de ataque à membrana com actividade microbicida (Figueroa e Densen, 1991). A pCr encontra-se no soro e faz parte do sistema imunitário inato, a sua expressão pode aumentar cerca de mil vezes em resposta à inflamação (Szalai et al., 1996). A pCr tem a capacidade de actuar como opsonina e quando interage com a superfície bacteriana tem a capacidade de activar o complemento pela via clássica através da interacção com o C1q (Gould e Weiser, 2002).

Os indivíduos com deficiências em qualquer das três vias do complemento exibem maior sensibilidade à infecção pneumocócica (Figueroa e Densen, 1991).

In document N ORSK L OVTIDEND (sider 115-122)