Antes de definirmos o que significa competência leitora, consideramos oportuno discutir a noção de competência presente nos estudos de Perrenoud.
Perrenoud (2002) define competência:
“como aptidão para enfrentar uma família de situações análogas, mobilizando de uma forma correta, rápida, pertinente e criativa, múltiplos recursos cognitivos: saberes, capacidades,
microcompetências, informações, valores, atitudes, esquemas de percepção, de avaliação e de raciocínio.” (p. 19)
Perrenoud, ao procurar configurar uma definição de competência, alerta para três pistas falsas que precisam ser afastadas ao se empregar esse conceito.
A primeira pista falsa refere-se à associação entre competência e objetivos educacionais. Segundo ele, pensar assim pode levar a uma confusão, porque a formulação de objetivos de aprendizagem não implica necessariamente no desenvolvimento de competências:
“Falar a respeito de competência, porém, não acrescenta muita coisa à idéia de objetivo. Pode-se, aliás, ensinar e avaliar por objetivos sem preocupar-se com a transferência dos conhecimentos e, menos ainda, com sua mobilização diante de situações complexas. A assimilação de uma competência a um simples objetivo de aprendizado confunde as coisas e sugere, erradamente, que cada aquisição escolar verificável é uma competência, quando na verdade a pedagogia por objetivos é perfeitamente compatível com um ensino centrado exclusivamente nos conhecimentos.” (Perrenoud, 1999: p. 19)
A segunda pista falsa seria a oposição entre competência e desempenho, como empregado pela Lingüística e na Psicometria, embora considere que o desempenho em dada situação, ou seja, a forma como o sujeito age ou atua, pode ser uma forma confiável de avaliar uma competência. Segundo Perrenoud (1999), falar de competência significa ir além:
“Precisa-se, então, de um inventário dos recursos mobilizados e de um modelo teórico da mobilização. Para isso, é preciso formar uma idéia do que ocorre na caixa-preta das operações mentais, mesmo com o risco de que não passem de representações metafóricas no estágio das ciências da mente.” (p. 20)
A terceira pista diz respeito ao inatismo, cuja: concepção clássica considera a competência uma faculdade genérica, uma potencialidade de qualquer mente humana (1999: p. 20), tendo, por exemplo, a competência
lingüística, que segundo Chomsky, seria uma característica da espécie humana, uma capacidade de produzir infinitamente frases sem sair de um repertório inato. Saindo um pouco da crítica a Chomsky com respeito à competência lingüística, o que foge dos objetivos desse trabalho, é interessante destacar a visão de Perrenoud (1999), que confere à aprendizagem escolar um papel decisivo na construção das competências:
“Os seres humanos certamente têm a faculdade, ancorada em seu patrimônio genético, de construir competências. Contudo, nenhuma competência é estimulada desde o início. As potencialidades do sujeito só se transformam em competências efetivas por meio de aprendizados que não intervêm espontaneamente, por exemplo, junto com a maturação do sistema nervoso, e que também não se realizam da mesma maneira em cada indivíduo. Cada um deve aprender a falar, mesmo sendo geneticamente capaz disso. As competências, no sentido que será aqui utilizado, são aquisições, aprendizados construídos, e não virtualidades da espécie”. (p. 20-21)
Perrenoud (1999) considera que se aproximar da definição de competência significa pensar em situações de aprendizagem em que conhecimentos sejam efetivamente mobilizados:
“Construir uma competência significa aprender a identificar e a encontrar os conhecimentos pertinentes. Estando já presentes, organizados e designados pelo contexto, fica escamoteada essa parte essencial da transferência e da mobilização.” (p. 22)
Além disso, esse autor entende que um processo de ensino e aprendizagem precisa ser planejado de forma ao aluno ter contato com a multiplicidade de situações que mobilizem competências:
“Se tais atividades multiplicarem-se, contribuirão para implementar verdadeiros esquemas de mobilização dos conhecimentos. Se forem mais ocasionais, permitirão ver um modo possível de mobilização, sem formar realmente competências, talvez induzindo uma outra relação com o saber, ao incitar os alunos a adotarem uma postura ativa, a
considerarem os conhecimentos como chaves para fechaduras desconhecidas, cuja descoberta pode ser esperada um dia ou outro”. (p. 23)
Concluindo, Perrenoud (1999) ressalva que competência não se confunde com a noção “piagetiana” de esquema:
“Um esquema é uma totalidade constituída, que sustenta uma ação ou operação única, enquanto uma competência com uma certa complexidade envolve diversos esquemas de percepção, pensamento, avaliação e ação, que suportam inferências, antecipações, transposições analógicas, generalizações, apreciação de probabilidades, estabelecimento de um diagnóstico a partir de um conjunto de índices, busca da informações pertinentes, formação de uma decisão, etc.” (p. 24)
Muito menos pode ser considerada como um “saber-fazer”, porque no sentido em que Perrenoud (1999) define o termo ter competência significa resolver problemas, o que de antemão pressupõe que o sujeito do conhecimento não tenha uma solução conhecida:
“não existe nenhum "saber-fazer" universal, que operaria em toda situação e que poderia ser aplicado a quaisquer recursos cognitivos, ou, então, ele se confunde com a inteligência do sujeito e sua busca de significado.” (p. 28)
As competências estão relacionadas a recursos mobilizáveis em determinada situação em que se exige ação eficaz do sujeito, porque tem como característica potencializá-los, no entanto, o autor adverte que as competências vão além de simplesmente acessar esses recursos para solução de problemas:
“Uma competência pressupõe a existência de recursos mobilizáveis, mas não se confunde com eles, pois acrescenta-se aos mesmos ao assumir sua postura em sinergia com vistas a uma ação eficaz em determinada situação complexa. Ela acrescenta o valor de uso dos recursos mobilizados, assim como uma receita culinária engrandece
seus ingredientes, pois ordena-os, relaciona-os, funde-os em uma totalidade mais rica do que sua simples união aditiva.” (Perrenoud, 1999: p. 28)
Posto isso, delimitaremos a noção competência leitora que norteia essa dissertação.