A questão do trabalho como categoria-chave deve ser problematizada pela constatação de que em um país com alto índice de desemprego e uma grande massa de pessoas desqualificadas ou subqualificadas para o trabalho, um dos critérios de corte usualmente utilizado em seleções pelas empresas que se dispõem a oferecer vagas para postos de trabalho formalmente registrados é “ter passagem”, ou seja, a avaliação dos antecedentes criminais (CARVALHO FILHO, 2006, p.236). Assim, o trabalho formal passa a ser quase inacessível ao homem que sai da prisão.
A reflexão que se segue não discorre se o egresso prisional tem ou não tem aptidões que são exigidas pelo mercado de trabalho competitivo, mas sim sobre as burocracias e preconceitos existentes no mercado de trabalho. Dentre elas, destacam-se a exigência de atestados de antecedentes criminais. Partindo dessa premissa as reflexões de SERON (2012) são pertinentes em relatar que:
A marca da passagem pela prisão significa um indesejável pertencimento ao mundo do crime, argumento suficiente para que o empregador escolha outra pessoa (…) para ocupar o cargo disponível na disputada e enxuta organização do século XXI. Neste aspecto, reforça-se a postura preconceituosa e excludente da sociedade, que estigmatiza e marginaliza os egressos (SERON, 2012, p.8).
Outro fator que já mencionamos é que no tempo que o recém egresso estava preso não teve chances de fazer faculdade, curso profissionalizante, curso de idiomas. Vale a pena ressaltar que muitas vezes no emprego fiz diversos currículos de muitos moradores de rua e na confecção de alguns currículos denotava que alguns tinham uma lacuna de tempo sem trabalho. Muitos já mencionavam no momento que eu confeccionava o currículo que ficaram tanto tempo presos que se percebia só pela carteira de trabalho.
Também o fato de tentar se candidatar a um emprego já encontra imensa dificuldade. Muitos colocavam o telefone da ONG para recado. Entretanto, quando
atendemos ao telefone já nos identificamos como "Chá do Padre" e o trabalho com população de rua sentimos que quase todos os empregadores têm preconceito, que não desejam ter em sua equipe alguém que está em situação de rua ou que já foi preso. Em nome do preconceito acabamos ofuscando a verdadeira situação financeira desse egresso disponibilizando ao mesmo o endereço da ONG, telefone da ONG para contato, a criação de um e-mail próprio. Mesmo assim ainda falta um item fundamental: a documentação - R.G, CPF, título de eleitor, carteira de trabalho, comprovante de endereço em seu nome (conta de luz e água), conta no banco78; para pleitear um emprego. Outra dificuldade é se locomover até o local da entrevista, dinheiro para ida e volta do local da entrevista, dinheiro para tirar as foto 3x4, tirar cópia de todos os documentos necessários para entrevista, entregar o comprovante de antecedentes criminais. Se conseguir trabalho há ainda obstáculos para enfrentar como esperar um mês inteiro para receber o seu primeiro salário, ter roupas limpas todos os dias, alimentação, condução e ainda procurar um albergue para pleitear uma vaga.
Perguntamos ao Defensor Público e ao profissional da Afroreggae se eles consideram que a passagem pela prisão é argumento suficiente para que o empregador contrate uma pessoa que não seja um egresso prisional:
Defensor Público: É um argumento ilegítimo diante do
ordenamento. É uma discriminação odiosa e não se justifica no ordenamento. O sujeito na medida em que tem o término da pena e tem autorização pelo livramento, no regime aberto, para conviver em liberdade, não tem explicação jurídica para que ele não venha a ser aceito em um trabalho. Agora a experiência prática demonstra que é sempre exigido atestado de antecedentes, e quando o atestado não é exigido o empregador consegue muitas vezes por vias escusas. Por registro criminal costuma ser eliminatório.
AFROREGGAE: Sim, temos muita dificuldade porque infelizmente o
caminho está disponível, porém a outras pessoas que estão fazendo outros caminhos e largando para que não tenham essa dificuldade. Porém as pessoas, no caso a sociedade, não está preparada para receber os egressos. Está começando a ficar preparada a receber
78 Outra dificuldade que muitas pessoas em situação de rua encontravam. Pois para abrir uma conta do banco, mesmo que seja uma conta poupança ou conta salário necessita do comprovante de endereço e um pequeno depósito. Entretanto, deparávamos com muitos gerentes/ atendentes não queriam atender eles, seja pelo mal cheiro e expondo isso na cara deles ou colocando desculpas sem cabimentos para o mesmo não abrir a conta. Mesmo enviando oficio como defensoria pública da união, indo algumas vezes pessoalmente com o mesmo abrir conta, tínhamos essa dificuldade dependendo de qual atendente de qual banco atendesse ele.
pessoas de outra opção sexual e afins, é muito complicado. Temos tantos grupos de pessoas, tantas vivências em nosso estado e alguns outros que pensam de uma forma certa, e acham que essas pessoas não são dignas de conviver no mesmo espaço e no mesmo trabalho, então isso ainda é nítido e não tem como negar. Ainda existe certo Apartheid com egresso prisional. (...) Ás vezes temos complicação no próprio ambiente de trabalho, com o gestor que não abre as vagas para nós, nesse meio tempo procurei mais de 200 empresas e divulgamos nosso trabalho através de vídeos, sites, entrevistas que saem nos jornais, e não obtemos retorno.
Perguntamos ao profissional da Afroreggae se na seleção de emprego, a ONG encaminha egresso prisional em situação de rua, fizemos essa pergunta por ter recebido denúncia de outros profissionais e também dos acolhidos da ONG "chá do padre", alegando que a ONG Afroreggae tem preconceito com esse público em situação de rua. Pelo fato que alguns casos de egresso prisional em situação de rua ter mais problemas do que um egresso prisional que não está na rua ou albergado. Alguns profissionais me relataram que a ONG (Afroreggae) mencionava que se eles encaminhassem esse público (egresso prisional em situação de rua) eles "queimariam o nome da ONG" e por isso não os encaminham. Na entrevista deparamos que essas acusações não são levianas, mas também imaginamos que para cada vaga de emprego, existem muitos egressos concorrendo à mesma vaga e o empregador vai escolher o mais apto e com melhor condição financeira e profissional.
AFROREGGAE: Posso te dizer que sim porque situação de rua não
consiste apenas na pessoa que mora na rua, mas a pessoa que está no albergue também. Recebemos muitas pessoas de albergue e do CREAS POP da Barra Funda, alguns outros que entram em contato e pedem para que recebamos os egressos. Aceitamos sem distinção alguma. Se o cara tem um perfil legal encaminhamos para o trabalho, por mais que seja complicado. Eu participo das entrevistas junto com o gestor de RH, que são feitas aqui mesmo. Participando é muito relevante de uma pessoa em situação de rua porque, quando contratamos uma pessoa desse perfil perguntamos sobre a família, pois a questão do laço familiar pesa muito na hora de contratar uma pessoa. Além disso, perguntamos o que levou a chegar à condição atual e suas perspectivas na vaga.
Quando respondem, geralmente não tem uma resposta ou opinião formada sobre o que querem sobre o que quer. A partir daí a vaga é negada, pois sabemos que a pessoa não fará um bom proveito. E o gestor de RH tem que escolher a melhor pessoa para a vaga, infelizmente é assim, o gestor de RH é um carrasco mesmo dentro
do projeto, sabendo do egresso, mas ele não pode colocar uma pessoa que vai fazer mal uso da vaga, pois aqui fora tem muitos esperando (independente da situação) que vão fazer um bom uso da vaga. Então é muito complicado, porém atendemos sim. Tem algumas pessoas que são de albergue, trabalharam e saíram e agora tem sua casa alugada, estão constituindo família, etc.