Não existe unanimidade entre os autores quanto aos perfis de empreendedores. Existem várias abordagens sobre o assunto. Na visão de Davidsson (2005), a definição de empreendedor está ligada à disposição para assumir riscos. Segundo o autor, o empreendedor é aquele que recorre à decisão para agir em uma oportunidade percebida e empreende esforços para alcançar sua realização.
Filion (1999) afirma que as características variam de acordo com as atividades que o empreendedor executa em um determinado período ou em função do estágio da empresa.
Ainda segundo Dolabela (2008), um dos campos centrais da pesquisa desse tema consiste no estudo do ser humano e dos comportamentos que podem conduzir ao sucesso. Em contrapartida, o domínio de ferramentas gerenciais é visto como uma consequência do processo de aprendizado. No empreendedorismo, é mais importante o ser do que o saber (Dolabela, 2008).
Dos empreendedores, se espera a iniciativa de promover mudanças, de não aceitar a estagnação, com consciência dos impactos gerados pelas suas decisões e ações, e conforme as atividades desenvolvidas. Dolabela (2003) argumenta que todos podem se quiserem agir de forma empreendedora. É empreendedor alguém que sonha e busca transformar o seu sonho em realidade, impulsionando o desenvolvimento humano e sustentável.
O autor afirma ainda:
Se o tema do empreendedorismo é o desenvolvimento, sabemos também que não se trata de qualquer desenvolvimento – menos ainda de mero crescimento econômico (...) Porque desenvolvimento mesmo só ocorrerá quando mais capital humano gerar mais capital social, que irá gerar mais capital empresarial, que produzirá mais renda, que resultará em mais capital humano, etc. Um processo de novos e múltiplos laços de realimentação e reforço de cada fator e de todos em conjunto. Quando isso ocorrer, o sistema adquirirá vida própria e, por assim, dizer, “rodará” sozinho, percorrendo os círculos virtuosos daquilo que chamamos de desenvolvimento humano e sustentável (DOLABELA, 2003, p. 122).
Filion (1991) define o empreendedor com uma pessoa que imagina, desenvolve e realiza visões. O autor apresenta o conceito de si, que consiste na principal fonte de criação, ou seja, as pessoas só conseguem realizar quando se julgam capazes de fazê-lo. Dolabela (2008) corrobora essa visão e afirma que a imagem que o indivíduo tem de si mesmo influencia diretamente seu desempenho.
Dolabela (2008) afirma a importância do empreendedor guiado por valores éticos, corroborando com a visão de Migueles e Zanini (2009), que afirmam: Líderes que agem baseados em valores são fundamentais para a produção de valor e para a ação coordenada em cenários complexos e imprevisíveis.
Baseado em valores, o líder reduz os custos de transação internos e aumenta sua eficiência ao promover a redução da entropia organizacional, ou seja, reduz as incertezas comportamentais e motiva as pessoas a aportarem suas melhores ideias, contribuições e esforços para o atingimento das metas coletivas (MIGUELES; ZANINI., 2009)
Leite e Oliveira (2016) distinguem os empreendedores por necessidade, que criam o negócio por não haver outra alternativa e o empreendedorismo por oportunidade, que é orientado pela descoberta de uma oportunidade de negócio lucrativa.
Pessoa (2005) define em três os principais tipos de empreendedores: o empreendedor corporativo (intraempreendedor ou empreendedor interno), o empreendedor start-up (que cria novos negócios / empresas) e o empreendedor social (que cria empreendimentos com missão social). Estes três tipos são pessoas que se destacam onde quer que trabalhem.
O corporativo pode ser definido como o executor de um processo de identificação, desenvolvimento, captura e implementação de novas oportunidades de negócios dentro de uma empresa existente (PESSOA, 2005).
O empreendedor start-up tem como objetivo dar origem a um novo negócio. Ele analisa o cenário e, diante de uma oportunidade, apresenta um novo empreendimento. Os seus desafios são: suprir uma demanda existente que não vem sendo dada a devida atenção; buscar e apresentar diferenciais competitivos em um mercado já existente; vencer a concorrência; conquistar clientes; e alcançar a lucratividade e a produtividade necessárias à manutenção do negócio (PESSOA, 2005).
Ainda segundo Pessoa (2005) o empreendedorismo social exige principalmente o redesenho de relações entre comunidade, governo e iniciativa privada com base em parcerias. O resultado final desejado é a melhora da qualidade de vida social, cultural, econômica e ambiente sob a ótica da sustentabilidade.
Segundo Dornelas (2016), os empreendedores de sucesso: são visionários; sabem tomar decisões; são pessoas que fazem a diferença; sabem explorar ao máximo as oportunidades; são determinados e dinâmicos. Eles são ainda dedicados; otimistas e apaixonados pelo que fazem; independentes e constroem o próprio destino; ficam ricos; são líderes e formadores de equipe; são bem relacionados; organizados; planejam; possuem conhecimento; assumem riscos calculados; criam valor para a sociedade.
Existem aspectos comuns aos empreendedores e empreendedoras. Porém, há diferenças claras entre os dois perfis. As principais podem ser observadas no quadro abaixo:
Características Empreendedores (Homens) Empreendedoras (Mulheres)
Motivação Realização – lutam para fazer as coisas
acontecerem; Independência pessoal – autoimagem relacionada ao status obtido por seu desempenho na corporação não é importante;
Realização – conquista de uma meta; Independência – fazer as coisas sozinhas.
Satisfação no trabalho advinda do desejo de estar no comando
Ponto de Partida
Insatisfação com atual emprego; atividades extras na faculdade, no emprego atual ou progresso no emprego atual; Dispensa ou demissão; Oportunidade de aquisição. Frustração no emprego; Interesse e reconhecimento de oportunidade na área;
Mudança na situação pessoal.
Características de
Personalidade
Dá opiniões e é persuasivo; Orientado para metas; Inovador e idealista; Alto nível de confiança; Entusiasmado e enérgico; Tem que ser seu próprio patrão.
Flexível e tolerante; Orientada para metas; Criativa e realista;
Nível médio de autoconfiança; Entusiasmada e enérgica;
Habilidade para lidar com o ambiente social e econômico.
Quadro 8: Comparativo Empreendedores x Empreendedoras Fonte: Adaptado pelo autor a partir Hisrich, Peters e Sheperd, 2014
Segundo Hisrich, Peters e Sheperd (2014), o empreendedor, para ser bem-sucedido, necessita de diversas habilidades, que podem ser dividas em habilidades técnicas, administrativas e empreendedoras das pessoas. Abaixo, apresenta-se um quadro com essas habilidades:
Habilidades Técnicas Habilidades Administrativas Habilidades Empreendedoras
Redação Planejamento e estabelecimento
de metas
Controle interno e de disciplina
Expressão Oral Capacidade de tomar decisões Capacidade de correr riscos
Monitoramento do ambiente Relações humanas Inovação
Administração comercial técnica
Marketing Orientação para mudanças
Tecnologia Finanças Persistência
Capacidade de ouvir Contabilidade Liderança Visionária
Interpessoal Administração Habilidade para administrar
mudanças
Capacidade de organizar Controle
Construção de rede de relacionamento
Negociação
Estilo administrativo Lançamento de empreendimentos
Treinamento Administração do crescimento
Capacidade de trabalho em equipe
Quadro 9: Habilidades necessárias dos empreendedores
Fonte: Adaptado pelo autor a partir Hisrich, Peters e Sheperd, 2014
Ainda segundo Hisrich e Peters e Sheperd (2014), para o empreendedor, não basta ter as habilidades técnicas e administrativas. É fundamental ter também habilidades empreendedoras, conforme evidenciado no quadro acima. Geralmente, essas habilidades estão relacionadas com gestão da mudança, liderança, inovação, controle pessoal, capacidade de
correr riscos e visão de futuro. Fica evidente que esse conjunto é fundamental para o empreendedor do século XXI.
Segundo Dornelas (2016) os aspectos identificados em qualquer definição referente à figura do empreendedor abordam os seguintes aspectos:
Tem iniciativa para criar algo novo;
Utiliza os recursos disponíveis de forma criativa transformando o ambiente social e econômico em que vive;
Aceita assumir os riscos e a possibilidade de fracassar.
Com base nesses aspectos, o autor traz a seguinte definição “o empreendedor é aquele que faz acontecer, se antecipa aos fatos e tem uma visão futura da organização” (DORNELAS, 2016).
No relatório GEM, o foco principal é no indivíduo mais do que no empreendimento em si. O conceito utilizado pelo GEM é amplo e visa captar diferentes tipos (formais e informais), sejam empreendedores da base da pirâmide social, envolvidos com empreendimentos simples ou aqueles envolvidos em empreendimentos mais complexos e sofisticados, com maior valor agregado.
No relatório GEM (2015), os empreendedores são classificados como iniciais (nascentes e novos) e estabelecidos:
Empreendedores Nascentes: estão envolvidos na estruturação de um negócio do qual são proprietários, mas que ainda não pagou salários, pró-labores ou qualquer outra forma de remuneração aos proprietários por mais de três (3) meses.
Empreendedores Novos: administram e são proprietários de um novo negócio que pagou salários, gerou pró-labores ou qualquer outra forma de remuneração aos proprietários por mais de três (3) meses e menos de quarenta e dois (42) meses.
Empreendedores Estabelecidos: administram e são proprietários de um negócio tido como consolidado, que pagou salários, gerou pró-labores ou qualquer outra forma de remuneração aos proprietários por mais de quarenta de dois (42) meses, ou seja, três anos e meio (3,5 anos).
Nessa classificação do GEM, fica evidente a diferença entre o empreendedor nascente e o estabelecido, enquanto o nascente não obteve nenhum recurso do seu empreendimento, o empreendedor estabelecido já ultrapassou a barreira de maior risco empresarial, os primeiros anos, e já obteve recursos para sua vida pessoal advinda de seu empreendimento por mais de 42 meses, o que demonstra habilidade para obter sucesso como empreendedor.