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4.3 Omdiskuterte endringsforslag

4.3.4 Luftforsvarets rekruttutdanning og Madla leir

Série 4ª Sexo Feminino A minha cidade

A minha cidade não tem Cristo Redentor (13) Mas também é abençoada (8)

Por São Paulo, o protetor (7) O povo dessa cidade (7) Vive sempre apressado (7) Demonstrando a sua gana (7) Nas ruas cheias e ônibus lotados (11) Onde quer que a gente vá (7) Tem sempre fila e multidão (8) Quem não conhece fica assustado (10) Com tanta agitação (6)

Mas como nada é perfeito (8) Temos problemas sem solução (9) Como, a fome, a moradia, a violência (11) Também a saúde e a educação (9)

Agora vamos falar (7)

Das coisas boas da minha cidade (10) Em qualquer hora e lugar (8)

Tem diversão pra toda idade. (8) Têm lanchonetes, teatros, cinemas (11) Tem zoológico, parques e praças (10) Quem tem dinheiro faz muita coisa. (9) E quem não tem se diverte de graça. (10) A minha cidade é conhecida (10) Como a terra da garoa (7) Tem gente do mundo todo (7) É São Paulo, gente boa! (7) Essa cidade não pára (7) Está ligada 24 horas (10) Mas já estou indo dormir... (8)

No poema ―A minha cidade‖, os versos iniciais já apontam para o processo predominante: a intertextualidade. O parâmetro colocado pelo enunciador para tratar do lugar é outra cidade, Rio de Janeiro, também influente e importante como São Paulo, mas aclamada como ―cidade maravilhosa‖ que tem como símbolo a estátua do Cristo Redentor. Assim o enunciador começa seu poema anunciando a falta intrínseca de sua cidade e uma forma de compensá-la, marcada por ―também‖, indiciando uma pressuposição: a noção de que o Cristo abençoa o Rio e de que a cidade de São Paulo precisa igualmente dessa benção que obtém de São Paulo.

O uso da intertextualidade aponta a adesão à canção ―Cidade Maravilhosa‖45 como

forma de se tratar o lugar onde se vive, e indica, ao mesmo tempo, forte oposição a esse enunciado, como a afirmar que ele é verdadeiro e potente, não descrevendo, porém, o único lugar digno dessas honrarias. Há aqui um tratamento diferenciado às vozes que são colocadas no poema. A algumas, o enunciador se opõe; outras, acolhe para que a identidade do lugar em que se vive surja fortalecido. A aceitação das outras vozes presentes nos poemas resulta, nesse caso, de uma estratégia argumentativa, em que o aluno, embora reconheça a legitimidade de todas essas vozes, escolhe o que lhe parece mais relevante para ressaltar as qualidades do seu lugar, afastando as outras para espaços argumentativos periféricos no poema como o primeiro verso, para depois refirmar a potência: ―mas também é abençoada / por São Paulo, o protetor.‖ É um modo singular de satisfazer ao critério de avaliação do prêmio se comparado àqueles presentes nos demais poemas analisados anteriormente, em que o apagamento de vozes exteriores ao espaço descrito se constitui como forma de sublinhar o caráter absoluto do lugar num processo textual que se assemelha ao morfológico da adjetivação superlativa sintética.

A posição do enunciador ao longo do poema reflete esse movimento argumentativo de refutação e de adesão às vozes alheias à dele. Na primeira estrofe, o lugar é ―minha cidade‖, como a demonstrar a posição dele. Na segunda estrofe, o foco é ―o povo dessa cidade‖, um afastamento que pode indicar a não adesão ao modo como grande parte das pessoas vive, ou a negar a representação oficial. Na terceira estrofe, surge uma forma de indicar o coletivo ―a gente‖, que é confirmada pela primeira pessoa do plural, ―temos‖ (4ª estrofe) e ―vamos falar‖

45 ―Cidade Maravilhosa/ cheia de encantos mil/ Cidade maravilhosa/ coração do meu Brasil‖ são os versos

iniciais dessa canção do Carnaval de 1935 por André Filho, originalmente gravada, em 1934, por Aurora Miranda e pelo próprio André Filho. Hoje, é considerada o hino da Cidade do Rio de Janeiro. Fonte:

(5ª estrofe). Na 6ª estrofe, porém, ao indicar que, em São Paulo, o que prevalece é o dinheiro, a aluna-poetisa utiliza o pronome ―quem‖ – um afastamento total. Na 7ª estrofe, ela volta à posição inicial ―a minha cidade‖; para em seguida, na 8ª estrofe, revelar pela oposição ao modus operandi da cidade (essa cidade não para/ está ligada 24 horas), um modo de ser dela mesma (mas já estou indo dormir).

Ao trabalhar com outros enunciados, a aluna-poetisa escolhe travar diálogos com outros textos-símbolo de São Paulo, também da esfera do poético. Esses textos se desdobram em formas não-marcadas como a alusão à canção de Alvarenga e Ranchinho, ―Êh, São Paulo46‖ que trazem o passado de uma cidade ainda governável e com mais atributos positivos. No poema, a imagem da cidade do passado é fundida, pela metonímia, a uma nova caracterização de São Paulo - o aspecto positivo da cidade são os seus moradores: ―É São Paulo, gente boa!‖. A transposição é feita por meio da rima ―garoa‖ e ―boa‖47, que consistiria

na projeção do eixo paradigmático no sintagmático, como formulou Jakobson (1969), ou ainda no acoplamento como descreve Levin (1975). O acoplamento se constitui em equivalências do tipo I de posição e do tipo II de caráter extralinguístico. Embora Levin não tivesse formulado o acoplamento para questões discursivas; os de tipo II projetam equivalências entre palavras ou sintagmas, que carregam para dentro do texto enunciados. Seria equivalente às formas não marcadas para os poemas, em que as alusões, a ironia, o pastiche, trariam pela estrutura ou pelo arranjo do léxico a outra voz, garantindo o diálogo entre elas por essa equivalência.

A aluna-poetisa trabalha nessa estrofe com elementos dos gêneros poéticos que abrem espaço para a legitimação do poema por meio da memória do gênero naquele que lê – semelhanças que podem confundir os ouvidos do leitor e indicam não o domínio dos elementos composicionais formais dessa aluna, mas a consciência em desenvolvimento de como se articulam esses elementos. Esse vir a ser das convenções poéticas, nesse caso, faz parte da representação do gênero para esse enunciador, percepções inexatas, que, no entanto, ajudam-nos a questionar representações baseadas em convenções, que, como afirma Levin, são insuficientes: ―O uso dessas convenções estritamente literárias serve para infundir, a um

46 Êh, São Paulo / Êh São Paulo / São Paulo da garoa / São Paulo que terra boa. Esses são os versos iniciais da

canção de Alvarenga e Ranchinho conhecidos sempre que o tema é São Paulo. Canção disponível em

http://cifrantiga3.blogspot.com/2006/08/h-so-paulo.html acesso em 06-06-2008.

47 Os demais elementos da poesia não são significativos para a construção do diálogo entre os textos que a aluna

trecho de linguagem, uma marca característica; esses traços, porém, não conferem, por si sós, a um poema, o sentido de unidade que ele suscita.‖ (1975, p. 102)

O que poderia conferir essa unidade? O trabalho com a linguagem e com as vozes parece ser o caminho para alcançar o poético, visto que os elementos convencionais não são suficientes. ―Para Bakhtin‖, segundo a leitura de Tezza (2006, p. 215), ―o poético é a expressão completa de um olhar sobre o mundo que chama a si a responsabilidade total de suas palavras‖. Trata-se então de desenvolver essa tomada de posição. Seria possível nessa idade? Quais critérios poderiam ser usados? A originalidade permaneceria, nesse caso?

O enunciador ainda vai adiante ao trazer mais uma alusão ao poema, pois sua última estrofe dialoga com a Sinfonia Paulistana, cujos versos são: ―São Paulo que amanhece trabalhando / São Paulo que não pode adormecer / Porque durante a noite o paulista vai pensando / nas coisas que de dia vai fazer.‖48 Mesclados os tempos e as vontades, a aluna-

poetisa vai dormir sabendo que a cidade ficará alerta; contando talvez com o fato de que sua voz de menina pode, no espaço do poema, parar a cidade com o poder de seu sono. Essa potência ensaia, assim, a assunção de uma responsabilidade marcada pelo questionamento resultante da ironia que se instaurou pelo caráter inesperado da sua ação: o enunciador parece declarar sua potência ao negar aquilo que estava pressuposto.

O questionamento, nesse caso, por meio da ação contrária, permite que as outras vozes fiquem circunscritas ao espaço público, pois, ao tomar a decisão de dormir, o enunciador indica que, no espaço privado, quem decide é ele. Se essa ação vai mudar algo, não é possível saber, porém o uso da brincadeira de caráter antitético (a cidade não dorme, mas eu vou dormir) indica que o lúdico pode ser uma saída para a refração autoral. Encontrar uma posição de onde enunciar; antropofagizar as vozes alheias ou questioná-las se configura até esse momento como forma eficaz para a aluna embuir-se do papel de poeta. Qual o espaço para esses movimentos nas oficinas?

48 A letra de Sinfonia Paulistana, cuja autoria é de Billy Blanco, apresenta vários metros e ritmos como seria

esperado numa Sinfonia e pode ser lida em