Considerando os apontamentos já apresentados no capítulo anterior em relação à indústria cultural e ao seu impacto na dinâmica cultural dos dias de hoje, levanta-se uma questão: existe uma transformação do significado do patrimônio, no momento em que ele ingressa na lógica da indústria cultural?
Essa pergunta é pertinente, porque remete à reflexão sobre patrimônio não mais como monumento, museu, artefato, saber ou formas de fazer, mas como uma dinâmica econômica, que, além de proporcionar trabalho e geração de renda, representa um enorme mercado consumidor.
Segundo Canclini (2008), para se tratar o uso das tradições como legitimação daqueles que as construíram ou que delas se apropriaram, é necessário colocá-las em cena. “O patrimônio existe como força política na medida em que é teatralizado: em comemorações, monumentos e museus” (CANCLINI, 2008, p.162).
Conceitos antagônicos acabam se aproximando no processo de desenvolvimento da chamada “indústria cultural do patrimônio”, como no caso da memória versus criação e da pesquisa versus produto. Buscam-se aí uma reinvenção e um (re)posicionamento que se aproximam de uma tendência estética da contemporaneidade.
Assim, a mercantilização do passado por meio da patrimonialização, pode se inscrever no debate contemporâneo sobre as culturas de massa, conforme abordagem da Escola de Frankfurt. Essa considera a cultura estandardizada pela indústria do entretenimento e pelos meios tecnológicos modernos, e concebe que os artefatos culturais, dentre os quais o patrimônio, detêm uma unicidade que os faz diferentes dos demais objetos de consumo, acrescentando-lhes valor de mercado.
Fortuna (1995) explica essa “mercantilização” com o exemplo dos monumentos que são representados por meio de postais, guias turísticos,
93 cinema e programas televisivos. Porém, o autor ressalta que, mesmo a mercantilização transformando produtos em objetos de consumo massificado, isso não se traduz necessariamente na perda da sua essência.
Ocorre que o aumento do mercado consumidor provoca uma reação e uma aproximação do Estado, que passa a valorizar o patrimônio, e uma “invenção da cultura”, que atua segundo uma lógica própria, incitadora de diversos efeitos nos atores envolvidos. Como no caso da relação entre patrimônio e turismo: o patrimônio converte os locais em destinos, e o turismo viabiliza-os.
Para Carvalho (2004), uma das estratégias utilizadas para a reinvenção das raízes sociais é a organização de festivais culturais, cujo principal benefício traduz-se na mobilização de capital econômico e simbólico. Esse efeito pode gerar importantes recursos de dinamização cultural, seja pela constituição de percursos culturais alternativos, seja pela requalificação turística, infraestrutural ou educacional dos novos espaços urbanos da cultura e da comunicação entre produtores e promotores culturais dos locais.
Levada aos extremos, a massificação cultural faz dos patrimônios um grande espetáculo, proporcionando que o mesmo perca sua autonomia. Associam-se ao patrimônio histórico, a fim de valorizá-los, exposições, concertos, óperas, representações dramáticas, desfiles de moda, etc. Como afirma Choay (2006) em Alegoria do Patrimônio,
torna-se cada vez mais difícil para o visitante evitar as interferências e poder dialogar, sem intérpretes, com os monumentos. O comentário e a ilustração anedóticos ou, mais exatamente, a tagarelice sobre as obras, alimentam a passividade do público, dissuadindo-o de olhar ou de decifrar com os próprios olhos, deixando escapar o sentido no filtro das palavras ocas. Essas as formas demagógicas, paternalistas e condescendentes de comunicação, contudo, a transmissão de um saber histórico deriva principalmente da valorização do patrimônio. (CHOAY, 2006, p.216)
O cuidado com o significado simbólico e o uso dos patrimônios tem que ser reiterado de forma constante, pois, como a autora diz, a indústria patrimonial e cultural representa hoje, de forma direta ou indireta, uma parte crescente do orçamento e da renda das nações. Para muitos estados, regiões
94 e municípios, essa indústria significa a sobrevivência econômica. Exatamente por isso, a valorização do patrimônio histórico e cultural representa um empreendimento considerável.
O que se deve atentar é que efeitos dessa valorização não são somente positivos, havendo também impactos perversos. A “embalagem” que se dá ao patrimônio histórico urbano, tendo em vista seu consumo cultural e o fato de ser alvo de investimentos do mercado imobiliário de prestígio, tende a excluir dele as populações locais ou não privilegiadas e, com elas, suas atividades tradicionais e modestamente cotidianas.
Canclini (2008), reiterando a preocupação com a teatralização do patrimônio, acredita que há uma origem em relação à qual se deve atuar hoje. O autor considera que o mundo é um palco, mas que aquilo que deve ser representado já está prescrito em práticas e na valorização de objetos que se encontram catalogados em um repertório fixo. “Ser culto implica conhecer esse repertório de bens simbólicos e intervir corretamente nos rituais que o reproduzem” (CANCLINI, 2008, p. 162).
Nesse sentido, novamente, emerge o debate da cultura legítima e reconhecida como hegemônica pelo Estado e pelo mercado. Essa questão nasce do senso comum da história com reconhecimento dos heróis e dos fatos que são selecionados previamente, como parte da tradição de uma localidade ou de um país.
Ao analisar o papel que o Estado representa na dinâmica da indústria cultural do patrimônio, Lavenda (1992) aponta para o cuidado que se deve ter, já que a cultura pública deve ser sempre uma cultura contestada e contestável. É relevante que se verifique se é uma cultura baseada no privilégio, na forma de legitimação e de manutenção da estrutura estatal, que faz com que os eventos públicos sejam isentos de significados políticos.
Deve-se ainda ter cautela porque a tradição e o patrimônio, pode atestar o sucesso da política pública local e contribuir para a captação de investimentos exteriores e de visitantes, tornam-se uma forma de apresentação
95 de indicadores e de medidas para a possível publicização da eficácia do exercício do poder político local.
Com isso, devido às implicações econômicas da mercantilização do passado, tende-se a cenografar os patrimônios para fomentar a indústria turística, sob a finalidade de desenvolvimento local, sustentável ou endógeno. Os interesses imobiliários e políticos acenam a bandeira dos benefícios gerados pela captação de fluxos turísticos, trazidos pelos bens patrimoniais, na medida em que estes fornecem os elementos necessários para o desenvolvimento de uma indústria turística “diferenciada” (PERALTA, 2008, p.100).
Muitas vezes se observa um elevado investimento em espaços, com a construção de memoriais ou centros culturais de referência; contudo, há pouca atuação junto à comunidade. Isso se dá porque o mercado é instável, ele pode abrir as portas para um grupo e fechar para outros, não permitindo a presença de todos e quaisquer atores locais. No caso do patrimônio imaterial, ao contrário, o mercado capitalista, muitas vezes, aproveita-se das duras condições de vida de quem o produz, como acontece em alguns casos de ofícios para a produção artesanal.
No âmbito do patrimônio imaterial, a relação entre o bem cultural e o mercado aparece em dois sentidos. O primeiro refere-se à autenticidade dos produtos culturais disponibilizados no mercado, uma vez que, ao serem produzidos em massa, perdem seu valor simbólico durante o processo de produção, que nesse caso é o que conta para o patrimônio imaterial – o modo de se fazer.
Segundo texto do Iphan (2006, p.19), a não aplicabilidade ao patrimônio imaterial do conceito de autenticidade deve ser substituída pela ideia de continuidade histórica, identificada, por meio de estudos históricos e etnográficos. Esses estudos devem mostrar as características essenciais da manifestação e da sua manutenção em relação ao tempo, ao espaço e à tradição aos quais se vinculam, ampliando a noção de continuidade histórica e reconhecimento da dinâmica de transformação do bem imaterial.
96 O segundo ponto refere-se à espetacularização das manifestações culturais para atender àqueles que foram assistir à manifestação, e não àqueles que atribuem a ela sua referência identitária. Essa questão pode ser atrelada, por exemplo, ao caso do Samba, que movimenta milhões de reais para promover entretenimento a turistas brasileiros e estrangeiros. Será que o Samba mantém sua raiz? Será que a indústria cultural ocupa um papel decisório maior do que as velhas guardas das escolas de Samba? Assim, tanto no Samba como em outras manifestações culturais (Frevo, Jongo, Samba de Roda, Tambor de Crioula etc.), muito se critica, quando a manifestação cultural passa a ser espetáculo.
Não se trata aqui apenas de perceber se a tradição é preservada de forma autêntica ou, como muitos pesquisadores dizem, “pura”, mas perceber e analisar de que forma essa tradição mantém um papel importante no repertório da identidade, permitindo a afirmação do local como espaço simbólico, re- imaginado no contexto social.
Diante do debate desse capítulo, alguns pontos a serem trabalhados nos próximos capítulos referem-se ao entendimento sobre a patrimonialização de determinadas identidades culturais, como necessidade de legitimação de uma “nostalgia do passado” ou como promoção e difusão de símbolos culturais, para fortalecer a chamada cidadania cultural. Tem o Estado defendido o tradicional ou colocado a seu serviço? Essa questão é norteadora para que se compreendam o papel e a trajetória das políticas públicas brasileiras, no âmbito da cultura e, em especial, dos patrimônios culturais.
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