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T- LK Lenvik Forkostens

Meu objetivo aqui é mostrar o forte parentesco que vejo entre a indagação a respeito da linguagem e a investigação a respeito do corpo. Ambos os temas têm sido debatidos por filósofos, neurocientistas e estudiosos de diferentes áreas, sem ainda terem sido suficientemente esclarecidos e muito menos se esgotado. Quando o interesse se volta para os dois temas ao mesmo tempo, como é o caso dos profissionais que trabalham diretamente com o corpo e se colocam o desafio de fazer uma pesquisa sobre sua prática, a questão fica ainda mais complexa, mas não deve ser tangenciada.

Winnicott enfrentou igualmente uma questão com a linguagem, quando precisou alterar o modo de descrever os estágios iniciais do desenvolvimento psíquico. Ao realizar esta tarefa, o psicanalista usou outros dizeres, alterando também com isso as bases ontológicas sobre as quais seu pensamento se apóia, aspecto mostrado e desenvolvido nos trabalhos de Dias, Loparic, Fulgencio, Moraes, Santos, entre outros. Trata-se, em poucas palavras, de uma forma não-naturalista de conceber o indivíduo, que se aproxima bastante da teoria heideggeriana do existir humano, pensado como um acontecer temporal e finito. Igualmente, a leitura winnicottiana que permeia este estudo é feita a partir desta orientação filosófica, o que me aproximou dos textos heideggerianos, entre os quais me deparei com um223, que lembra muito a questão da corporeidade e o falar sobre ela. No que segue, o uso que faço de Heidegger é no sentido meramente indicativo ou um modo de meditar a respeito do assunto, não se tratando, evidentemente, de filosofia. Vamos a ele:224

Supondo-se que alguém nos lance subitamente a pergunta “que relação vocês mantêm com o corpo e com a motricidade que vocês têm?”, não haveríamos de ficar sem resposta. Logo encontraríamos um fio condutor, uma referência capaz de nos orientar por caminhos seguros. Agimos, sentimos, nos portamos, com o corpo, no corpo. Que outra proximidade com o corpo possuímos senão essa? Mesmo assim, nossa relação com o corpo mantém-se indeterminada, obscura, quase indizível. Refletindo sobre essa estranha conjuntura, dificilmente conseguimos evitar a impressão de estranheza e incompreensibilidade que acompanha tal observação. Por isso é indispensável perdermos o hábito de banalizar a corporeidade. Esse conselho não vale apenas para cada indivíduo em particular. Vale sobremaneira para aquele que pretende falar sobre o corpo e isso ainda

223 Heidegger, 1959 p.121-123.

224 Será explicado adiante o motivo de parafrasear o filósofo aqui, na transcrição de um trecho de A essência

mais quando essa fala tem a intenção de mostrar possibilidades que nos permitam atentar para o corpo e para a nossa relação com ele.

Mas fazer uma experiência com o corpo é algo bem distinto de se adquirir conhecimento sobre ele. Esses conhecimentos nos são proporcionados e promovidos infinitamente pela ciência do corpo, pela fisiologia, anatomia, cinesiologia, psicomotricidade, filosofia, neurociências. Dizer isso não significa desvalorizar a pesquisa científica e filosófica do corpo e da corporeidade. Essa pesquisa tem todo seu direito e valor. A seu modo, ela está sempre apresentando aspectos muito úteis. No entanto, existe diferença entre os conhecimentos científicos e filosóficos sobre o corpo, e a experiência que fazemos com o corpo. Nenhum de nós tem em mãos o poder de decidir se a tentativa de nos colocarmos na possibilidade de tal experiência será bem-sucedida, e em que extensão o que talvez seja bem-sucedido consiga alcançar cada um de nós em particular.

O que ainda resta fazer é indicar os caminhos que possam nos colocar na possibilidade de fazer uma experiência com o corpo. Esses caminhos há muito já existem. Só raramente, porém, é que são percorridos de maneira que a possível experiência com o corpo venha, por sua vez, para a fala, ao campo do dizível. Nas experiências que fazemos com o corpo, é o próprio corpo que vem ao corpo. Poder-se-ia acreditar que isso acontece toda vez que se movimenta. Todavia, por mais que nos movimentemos, nunca colocamos o corpo, ele próprio, como algo consciente nesse momento. Muito vem ao corpo quando nos movemos, inclusive aquilo que motiva o movimento. Mas nós só somos capazes de agir, de movimentar o corpo com relação a e para alguma coisa, porque o corpo, ele mesmo, não vem ao corpo, ou seja, não é tematizado, no movimentar-se cotidiano, ficando nele resguardado.

Mas onde (ou quando) o corpo como corporeidade vem ao corpo? Raramente, lá onde não encontramos o gesto certo para agir, ou a atitude adequada frente ao que nos concerne, nos provoca, oprime ou entusiasma. Nesse momento, ficamos sem agir como queríamos agir e assim, sem nos darmos conta, o próprio corpo nos toca, muito de longe, por instantes e fugidiamente. Quando se trata de trazer ao corpo algo que nunca foi feito antes, tudo fica na dependência de o corpo conceder ou recusar o gesto apropriado. Um desses casos é o do artista. O artista pode até mesmo chegar ao ponto de, a seu modo, isto é, artisticamente, trazer ao corpo a experiência que ele faz com o corpo.

Até este ponto, o texto transcreveu as palavras iniciais do filósofo em A essência da linguagem 225 quase que literalmente (mot-a-mot). Em síntese, as mudanças foram substituir

225 Heidegger, 1959 p.121-123.

a palavra linguagem pela palavra corpo ou corporeidade e o verbo falar pelo verbo agir, mover. Longe de ser um capricho estilístico ou uma heresia acadêmica, o recurso usado pretendeu ser uma provocação, no sentido de pro-vocare, isto é, chamar para uma “discussão amorosa entre pensadores originários”, como diz Heidegger na Superação da Metafísica, tratando-se no presente texto, de um diálogo amoroso entre temas afins, com o intuito de torná-lo verdadeiramente produtivo, em direção às fontes, ao que nos faz pensar. Segue a referência original:

Supondo-se que alguém nos lance subitamente a pergunta “que relação vocês mantêm com a língua e a linguagem que vocês falam?” Não haveríamos de ficar sem resposta. Logo encontraríamos um fio condutor, uma referência capaz de nos orientar por caminhos seguros. Falamos a linguagem. Que outra proximidade da linguagem possuímos senão a fala? Mesmo assim, nossa relação com a linguagem mantém-se indeterminada, obscura, quase indizível. Refletindo sobre essa estranha conjuntura, dificilmente conseguimos evitar a impressão de estranheza e incompreensibilidade que acompanha tal observação. Por isso é indispensável perdermos o hábito de só ouvir o que compreendemos. Esse conselho não vale apenas para cada ouvinte em particular. Vale sobremaneira para aquele que pretende falar sobre a linguagem e isso ainda mais quando essa fala tem a intenção de mostrar possibilidades que nos permitam atentar para a linguagem e para a nossa relação com a linguagem. Mas fazer uma experiência com a linguagem é algo bem distinto de se adquirir conhecimento sobre a linguagem. Esses conhecimentos nos são proporcionados e promovidos infinitamente pela ciência da linguagem, pela lingüística, e pela filologia das diferentes línguas e linguagens, pela psicologia e pela filosofia da linguagem. Dizer isso não significa desvalorizar a pesquisa científica e filosófica das línguas e da linguagem. Essa pesquisa tem todo seu direito e valor. A seu modo, ela está sempre ensinando coisas muito úteis. No entanto, uma coisa são os conhecimentos científicos e filosóficos sobre a linguagem e outra é a experiência que fazemos com a linguagem. Nenhum de nós tem em mãos o poder de decidir se a tentativa de nos colocarmos na possibilidade de tal experiência será bem-sucedida, e em que extensão o que talvez seja bem-sucedido consiga alcançar cada um de nós em particular.

O que ainda resta fazer é indicar os caminhos que possam nos colocar na possibilidade de fazer uma experiência com a linguagem. Esses caminhos de há muito já existem. Só raramente, porém, é que são percorridos de maneira que a possível experiência com a linguagem venha por sua vez à linguagem. Nas experiências que fazemos com a linguagem, é a própria linguagem que vem à linguagem. Poder-se-ia acreditar que isso acontece toda vez que se fala. Todavia, por mais que falemos uma língua, a linguagem propriamente nunca vem à palavra. Muito vem à linguagem quando se fala, sobretudo

aquilo sobre o que falamos: um fato, uma ocorrência, uma questão, uma preocupação. Mas nós só somos capazes de falar uma língua, de agir na fala com relação e para alguma coisa porque a linguagem ela mesma não vem à linguagem na fala cotidiana, ficando nela resguardada. Mas aonde a linguagem como linguagem vem à palavra? Raramente, lá onde não encontramos a palavra certa para dizer o que nos concerne, o que nos provoca, oprime ou entusiasma. Nesse momento, ficamos sem dizer o que queríamos dizer e assim, sem nos darmos conta, a própria linguagem nos toca, muito de longe, por instantes e fugidiamente, com o seu vigor. Quando se trata de trazer à linguagem algo que nunca foi dito antes, tudo fica na dependência de a linguagem conceder ou recusar a palavra apropriada. Um desses casos é o do poeta. Um poeta pode até mesmo chegar ao ponto de, a seu modo, isto é, poeticamente, trazer à linguagem a experiência que ele faz com a linguagem.”226

A linguagem à altura da experiência pessoal com o corpo vivido, assim como expressar o que acontece na peculiar comunicação não-verbal do relacionamento professor/aluno e terapeuta/paciente, é uma das questões de pano de fundo desta pesquisa.