Até o presente momento, este ainda parece ser o único sitio arqueológico histórico de Porto Alegre, com o caráter de pertencer a uma lixeira hospitalar. Não foi possível encontrar na bibliografia se existem outros exemplos mesmo fora do estado. Contudo, este sítio revelou um potencial enorme interpretativo para as práticas que se desenvolviam no interior da Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre.
Mesmo antes de ter sido analisado este material já denotava possuir atributos que estariam muito mais próximos aos hábitos relacionados às artes de curar do que qualquer outro, pela imensa quantidade de vidros de remédios. Entre a amostra estão tanto os que possuem algum tipo de inscrição de marca, ou alguma característica de fabricação, mas também existe uma quantidade muito grande de recipientes de vidro sem marca alguma. A maioria, de fato, não apresenta marcas. Muitos apresentam somente um número inscrito na base, que na maior parte das vezes indicaria o volume que poderia caber dentro daquela garrafa ou ainda um registro da marca ou produção.
Imagem 69 – Quadrícula E10 – durante as escavações, com mais ou menos um metro de profundidade, com material arqueológico aparecendo. Fonte: OLIVEIRA, 2006.
Imagem 70 – Final das escavações da E10 – Com o arqueólogo responsável pela escavação ainda dentro do buraco da lixeira. A profundidade neste momento atingia em torno de 2 metros de altura, sendo que a
Acredito que estas garrafas sem marca eram utilizadas na botica e, ou eram compradas no Brasil ou fora, ou ainda era produto de doações. Como a quantidade é bastante grande, acredito mais na primeira possibilidade.
Embora o material de vidro tenha se restringido quase que totalmente ao material farmacêutico/hospitalar, a pequena quantidade de fragmentos dentro da categoria louça, apresentou a evidência de pertencer, provavelmente, à cozinha. Foram encontrados muitos pratos na amostra, denotadas a partir da análise, empreendida. Como o montante de fragmentos correspondente a este material não foi totalmente atingido, acredito que ainda possa existir uma possibilidade de serem encontrados mais objetos, em futuras análises.
Uma das estagiárias da Santa Casa, a Isabel, ela havia pensado num projeto de analisar toda a louça do sítio. Já havia começado a retirar todos os fragmentos de dentro das caixas a partir das arrumações feitas entre 2007 e 2009. No entanto, parece que não chegou a atingir um resultado satisfatório de análises.
No momento esse material, ainda se encontra em um armazém, que pertence a Santa Casa e que guarda além do material arqueológico grande parte da documentação histórica do século XX, principalmente prontuários médicos.
Havia no meu projeto a vontade de analisar os ossos que fazem parte desse material do sítio da Santa Casa, mas acabei não conseguindo executar. Sei poucas informações a respeito desses ossos porque foi feita uma oficina de treinamento de análise em ossos, ministrada pelo arqueólogo André Jacobus. Quando ele estava em visita nas dependências deste laboratório improvisado, ele me disse que aquele material basicamente se resumia em ossos de galinha e de gado, sendo que os ossos não apresentavam evidência de ter pedaços específicos, mas isso ele disse numa olhada rápida, o que eu acho se confirmaria ou não também com futuras análises.
Imagens 71 e 72 – Ossos de galinha e gado. Fonte: Autora.
A maior parte do material vítreo era de partes de corpo, sendo que a cor predominante era transparente. Os fragmentos também pareciam se encontrar na camada mais baixa da chamada lixeira mesmo.
Pelo croqui abaixo, é possível observar qual foi o traçado da quadrícula E10 quanto à sua deposição de material. A parte com o número 7 é a parte denominada lixeira propriamente dita. Embora todo o traçado da E10, seja denominado lixeira, entre as camadas escavadas somente a parte mais funda foi chamada assim. E é essa mesma camada “lixeira” que apresenta a concentração de material. Na imagem da página 47, deste trabalho, encontra-se um gráfico feito por mim, mostrando a concentração do material a partir dos números de catálogo 29.73 a 29.77, cuja camada é essa da “lixeira”.
Os medicamentos que possuem marcas são na sua maioria de origem estrangeira onde se sobressaem os franceses e alemães. Alguns também são de origem norte americana, mas possuem já suas versões de fábricas ou representantes na América do Sul e alguns no Brasil.
Existe também um material de metal, cujos vestígios a principio podem ser de latas de cremes ou pomadas utilizadas no hospital. Foi começada a limpeza deste material para futuras análises, mas não foi adiante também.
Imagem 73 – Croqui das quadrículas E10 e E11. A parte a direita é a quadrícula E10, com o respectivo buraco de lixo que foi totalmente escavado. Fonte: OLIVEIRA, 2005.
Na imagem abaixo podem ser vistas muitas rolhas queimadas, resultado da queima de lixo que deve ter acontecido, que eram utilizadas para lacrar os vidros de medicamentos que eram manipulados na farmácia ou botica. A colher apresentada tanto poderia ser para alimentos quanto para ajudar a administrar medicamentos.
Imagens 74 e 75 – Rolhas de cortiça queimadas e restos de uma colher. Fonte: Autora.
Além desse metal associado às latas de pomada, existem crucifixos, outros tipos de latas, maiores, que podem ter sido de alimento. E muitos outros materiais que não daria para falar tudo num único trabalho. O material é bastante rico e se expande muito além somente das atividades relacionadas a tratamentos de enfermos, cotidiano da botica, etc.
Imagem 76 – Potes de faiança fina. O do meio pode ser de cosmético ou outro tipo de creme, mas os outros devem estar associados à farmácia do hospital. Fonte: Autora.
O pote de cerâmica vidrada abaixo está junto à amostra denominada “para exposição”. Eu não tive oportunidade de analisar a cerâmica vidrada, mas acredito que se esse pote não servisse para a cozinha para armazenar alimentos, poderia ter sido usado na botica para guardar qualquer outra coisa, ervas, por exemplo. O fato de estar junto com o material relacionado aos remédios deve dizer alguma coisa, mas somente uma análise aprofundada confirmaria ou não
Imagem 77 – Restos de pote de cerâmica vidrada. Fonte: Autora.
Os potes de opalina, de diversas cores, geralmente eram usados para colocar cremes ou ungüentos. Sendo a opalina um material um tanto caro, acredito que esses potes também fariam parte das “tralhas” da botica. Geralmente possuem esse tamanho, dentro da amostra. Quase todos os fragmentos de opalina encontrados na análise, eram na sua maioria azuis. Sendo que somente um era branco e três eram bege.
Imagem 78 e 79 – Potes em opalina azul, bege e azul claro. Fonte: Autora
A grande quantidade de garrafas transparentes e sem rotulo, que como já havia afirmado deveriam fazer parte da botica para a manipulação de medicamentos, serve de contraste para interpretações a respeito do porquê foi colocado esse lixo fora. Como muitos estão inteiros, deve ter sido um descarte proposital, e não por estarem inutilizados. Na amostra que compõe o material guardado no museu, a grande maioria são vidros de um tamanho padrão, e de coloração âmbar, com espaço especial para colocar rótulos.
Imagem 80 e 81 – Diferentes tamanhos de vidros cilíndricos. E também vidros em formas octogonais. Fonte: Autora.
Imagem 82 – Vidros âmbar e transparente retorcidos por causa da queima. Fonte: Autora
Imagem 84 – Vários tamanhos e cores de garrafas pequenas, de doses únicas. Fonte: Autora.
Uma das grandes surpresas desse material foi um prato com técnica decorativa transfer printing, quebrado, que depois de colado, ou aproximado (como na foto), parecia revelar uma quebra proposital num de seus cantos. Esse tipo de utensílio poderia ser o que aparece em alguns sites de compras de antiguidades como “barber‟s and bloodletting plate”, que seria um prato desenvolvido para encaixar no pescoço para ajudar a fazer a barba, muito provavelmente dos enfermos acamados. Achei interessante, pois havia visto num filme de um romance de Jane Austen, Sense and Sensibility91, uma das personagens, acometida com uma pneumonia, sofrer uma sangria e qual não foi minha surpresa quando o médico tira um prato muito parecido com este.
Talvez seja muito provável que a Santa Casa não tenha tido como comprar um especialmente desenvolvido e tenha improvisado este.
91
Filme “Razão e Sensibilidade” ou “Sense and Sensibility”, adaptado de um romance da escritora inglesa Jane Austen. Direção de Ang Lee, de 1995.
Imagem 85 e 86 – Prato raso transfer printing, padrão willow, o décima com o corte proposital é o encontrado na amostra da Santa Casa. O prato debaixo é um exemplar de um site de antiguidades. Fonte:
Este tipo de prato começou a ser usado por volta de 1700 e podia ser usado tanto para fazer a barba quanto para realização de sangrias. No entanto, conforme apontam os sites pesquisados, essa forma já aparecia em utensílios da Idade Média, no tempo dos barbeiros-cirurgiões92.
Assim, pode-se perceber que o material dessa amostra arqueológica tinha muitas referências às práticas de cura, que deveriam ocorrer no interior do hospital da Santa Casa. Acho que há ainda muito potencial para serem feitas muitas pesquisas ainda. Ainda existem muitas caixas que não foram abertas, bem como seu material arqueológico ainda espera pela busca de seus significados.
92 Para mais alguns exemplos, ver: http://www.yourhome.ca/homes/article/687004--handy-bowl-used-for-
bloodletting;http://www.worthpoint.com/worthopedia/nice-blue-and-white-barbers-or-
bloodletting;http://antiquescientifica.com/archive13.htm;http://55tools.blogspot.com/2010/05/set-337.html;
http://www.oldsouthbooks.com/BookList.html; http://www.ioffer.com/c/Medical-