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Cerca de 40 homens foram capturados e levados à delegacia por um grupo de policiais. Um deles estava trabalhando, como o frentista Ismail Helou, 22 anos de idade. Outro, Rajou Hayek, 33 anos, que levava seu pai, um cadeirante, a uma clínica médica, foi algemado e obrigado por oito homens a entrar num veículo, também da polícia, e levado para a delegacia. A acusação? Eram palestinos com aparência de “homens ocidentais”: corte de cabelo ou

53 Nas palavras de Mustafa Abu Sway, professor de estudos islâmicos na Universidade de Al-Quds: “[...] na criação de Israel, em 1948, sobre 78% da terra da Palestina. Israel ocupou os outros 22% da Palestina, juntamente com regiões de outros países árabes, em 1967. Sempre que há algum discurso sobre a solução de dois Estados, o proposto Estado palestino significa 22% ou menos, da Palestina histórica!” (ABU-RABI, 2011, p. 119).

54 As Resoluções da ONU 242 e 338 determinam que Israel devolva os territórios e retorne às fronteiras de anteriores a guerra de 1967. Além disso, há a Resolução 194 de 1948, “que concedia aos refugiados palestinos o direito de retornarem para suas terras e a compensação pela perda de seus lares e propriedades, e por serem expulsos da Palestina devido à criação do Estado de Israel em 1948” (HROUB, 2009, pp. 144,145).

43 calça com cintura baixa. Por isso foram espancados, tiveram seus cabelos raspados e sofreram humilhações.55

Quando notícias assim são lidas mundo afora, parte das pessoas fica com a respiração suspensa. Essas informações passam uma mensagem de violação dos direitos humanos, para dizer o mínimo. Cidadãos devem contar com o Estado na proteção de suas vidas. Preferências a um estilo ou gosto pessoal incluem-se aí, seja no corte de cabelo, seja no jeans que veste. Mas, e quando a notícia reporta a morte de uma única pessoa, que seja – quando não dezenas delas – vítimas da explosão de um homem-bomba?

O modo como o homem encarou a violência recentemente teve um desenvolvimento. Precisamos entender esse desenvolvimento em diferentes épocas e regiões e procurar delimitar o que estou chamando de “violência” e fazê-lo em conexão com o entendimento que o Islã tem da violência. Reconheço que o mundo do Islã é amplo e complexo, que não se limita a um grupo homogêneo, nem a uma atividade normativa para toda a comunidade. Mas esta pesquisa tem um recorte específico e por isso minha concentração se voltará para as informações que acompanham e corroboram a sua proposta. É neste sentido que o texto será composto, sem deixar-se inflamar por melindres ou paixões que não contribuem com a proposta da pesquisa.

A notícia acima dá conta de uma ação realizada pelo Hamas e ocorrida em Gaza, território palestino onde o grupo atua e tem forte apoio da população local (HROUB, 2009, p. 114).56 Devemos perguntar se tais atos são considerados violentos aos olhos dos habitantes daquela região e daquela cultura num sentido mais amplo. Por que há esse comportamento?

Alguma religião manda matar? Nenhuma religião manda matar, mas o homem mata, porque não entende o espírito da religião; por interpretá-la incorretamente ou porque seus atos públicos são autônomos. Se a ação humana em nome da religião causa espanto, é provável que o praticante não

55 “Gaza police shaving heads of young men in crackdown on western fashion”, The Guardian. Disponível em http://www.guardian.co.uk/world/2013/apr/29/gaza-police-shaving-heads-men-western em 9.07.2013.

44 tenha compreendido o significado e o sentido da religião. Tal indivíduo usa lentes embaçadas para interpretá-la e, assim, não a enxerga bem.

Na verdade, as guerras religiosas são as duas coisas ao mesmo tempo porque as categorias teológicas de pensamento tornam impossível pensar e levar adiante a luta de classes enquanto tal, permitindo não obstante pensá-la e levá-la a cabo enquanto guerra religiosa (BOURDIEU, 2011, p. 47).

Em outras palavras, é possível justificar, por meio da religião, um conflito essencialmente social ou um ato público, podendo até disfarçá-lo.

Sociedades não religiosas também matam. James Kennedy (2003, pp. 299,300) aponta que os Estados ateus totalitários – portanto orientados por política antirreligiosa, somados aos massacres de Stálin, Mao Tsé e Hitler, mataram mais de 130 milhões de vidas em um século apenas, o século XX. Se adicionarmos à religião um conflito de ordem política, teremos um efeito altamente explosivo? Que cultura seria gerada desta combinação: religião e política? A prática comum a esta comunidade, por estranha que parecesse a outros grupos, seria justificada em si, pois não temos como catalogar hábitos culturais como “válidos” ou “não válidos”, “adequados” ou “inadequados”. Não podemos dizer que isso ou aquilo é certo, pois o que uma cultura produz é gerado no acordo das relações internas de um grupo e refletem ou orientam o seu comportamento; se torna “lei” (DURKHEIM, 1989, p. 55).

A definição da antropologia cognitiva diz, ainda, que esses traços que caracterizam uma cultura são formados por estruturas psicológicas (GEERTZ, 1989, p. 21) e que a cultura “é um contexto, algo dentro do qual [os acontecimentos sociais] podem ser descritos de forma inteligível – isto é, descritos com densidade” (Ibidem, p. 24).

É preciso discutir a participação da religião como influência sobre o comportamento humano e social, i. é., qual influência gera qual comportamento e quais efeitos trazem. Também precisamos estabelecer uma relação minimamente aceitável, um acordo ou base comum sobre o que é a violência dentro das diferentes culturas (são semelhantes?) ou o que tem sido considerado violência em nossos dias (são legítimas ou não?). Desse modo,

45 vamos começar definindo os termos que a pesquisa adotará como seus referenciais etimológicos e epistemológicos.