Picture 8: traditional fences marking boundaries on jomfruland
2.10 Literature on protected areas in Norway: Actors, worldviews, rules and discourses
O feminino, na obra de Jorge Andrade, é tratado com complexidade, sem caricatura. Muitas de suas peças têm protagonistas mulheres. Tais protagonistas são seres nos quais ele se projeta, veiculando seu desejo de expressão e conhecimento do mundo. A sexualidade seria mais um signo da sua vontade de ―abraçar a humanidade‖ em sua materialidade e emotividade.
Em algumas peças teatrais de Jorge Andrade, e também em seu romance autobiográfico, aparecem várias situações que mostram conflitos da masculinidade na juventude. A homossexualidade aparece como suspeita, acusação injusta, na voz do pai que não compreende o filho. O problema desses personagens, duplos do autor, é se descobrirem como homens não masculinos, filhos sensíveis, que gostam de arte e leitura em vez de prostíbulos, que passam o dia na fazenda entre mulheres — mãe, avós e tias.
111 São jovens que se recusam a matar um animal caçado, e são acusados de pouca hombridade pelo pai, macho orgulhoso. Nas peças e no romance, esse confronto com o mundo patriarcal é tenso e sóbrio.
O romance Labirinto descreve a primeira experiência sexual do rapaz humilhado pelo pai, com uma ―prima samaritana‖ que reconhece sua fragilidade e o conduz carinhosamente para o contato com o corpo e o prazer sexual.52 A prima entra no quarto
do rapaz quando a família viaja, e afasta seu medo de não ser homem.53 O movimento de tal personagem é semelhante ao de Kátia, a ―samaritana sexual‖, que surgiu na telenovela em 1975. O tema foi tratado na obra televisiva em primeiro lugar, e depois retrabalhado no romance.54
Na telenovela, a androginia de Agenor aglutina ao menos dois sentidos possíveis. Trata-se, por um lado, de um recurso atraente e polêmico, que poderia despertar a atração do público por explorar tabus e sensualidade.
Mas a androginia é também relacionada à figura do artista, que deve incorporar em si o masculino e o feminino, como premissa da capacidade de criar. Tal androginia artística é explicitamente comentada em diálogos, nas cenas realizadas no estúdio de Wesley Duke Lee.
WESLEY — (olha o quadro) Representa, para mim, o casamento de duas forças num único ser: a masculina e a feminina. Examine a figura: os ombros são masculinos, mas têm seios. As cadeiras são estreitas, mas têm sexo feminino. O chapéu é de mulher, mas esconde rosto de homem.
KÁTIA — Mas por que esta mistura?
WESLEY — Porque o artista harmoniza esses opostos nele mesmo.
KÁTIA — (passada) E você... pode se sentir homem e mulher ao mesmo tempo?!
(ANDRADE, 1976b, cap. 43, p. 12)
52 No romance, o narrador chama-se Jorge, e tem muita proximidade biográfica com Jorge Andrade. Mas
a obra não é uma autobiografia, e não deve ser compreendida como um depoimento preciso, mas sim como uma criação literária inspirada pela experiência do autor.
53 A cena acontece entre as páginas 170 e 172 do romance.
54Agradeço à professora Catarina Sant‘Anna, que ressaltou a semelhança entre a novela e o romance em
112 Nas peças de Jorge Andrade em que os protagonistas são homens, eles estão constantemente em crise, emaranhados em questões complexas que não conseguem resolver (Vicente em Rasto atrás e Sumidouro, Joaquim em Vereda da salvação). Já nas peças com protagonistas mulheres, elas são figuras que veem claramente e têm coragem para agir (Marta em As confrarias, Mariana em Pedreira das almas, Joana em Milagre
na cela).
Quando sente o impulso de elevar o tom e construir figuras fortes, o autor as concebe como mulheres. É preciso observar que nem todas as mulheres em sua obra são fortes e valorosas. Mas ele constrói muitas protagonistas assim. Mais que uma questão de gênero, ressaltam-se nessa escolha os valores que ele atribui ao feminino: visão clara, compreensão, decisão.
Um dos motivos essenciais em O grito é a busca por sentido: uma orientação, uma resposta. Os personagens procuram Marta, e Agenor procura Wesley Duke Lee. Gilberto observa a cidade de sua janela, buscando entendê-la, e mostra seus textos à esposa Lúcia, que opina com sabedoria e tranquilidade. O delegado Sérgio espiona os moradores do edifício Paraíso, procurando um criminoso. Aos poucos, o clima de espionagem (estabelecido no início da novela como traço de gênero) revela-se como busca de sentido.
A relação entre os personagens indica que alguns têm as respostas que os outros procuram. Há os personagens que ajudam, e há os que precisam de ajuda. Algumas respostas (sentido) são encontradas por enfrentamento: Edgard enfrenta Mafalda, Laís enfrenta Carmen, Dorotéia enfrenta Otávio. Em outros casos, a resposta é oferecida num ato de generosidade. É o caso de Lúcia, Marta, Kátia e Orlando.
O caso de Orlando é curioso, pois se trata de um raro personagem masculino com sabedoria e generosidade. Orlando e Kátia são quase duplos: dois indivíduos vitais
113 e sensuais que decidem seduzir, por bondade, alguém medroso/traumatizado. Assim como Kátia se esforça, com paciência, para seduzir Agenor, Orlando faz o mesmo com Débora, atriz erudita que perdeu o sucesso. A caracterização de Débora remete a uma grande atriz do TBC — mulher culta, refinada e algo esnobe. Ela cita, em várias cenas, autores que eram referência de Jorge Andrade: Tchékov, Ibsen. É essa mulher, com medo de sexo por um trauma infantil, que encanta Otávio. O movimento da prima samaritana que introduz o jovem sensível ao mundo do contato carnal é recriado, e no lugar do jovem tímido há alguém de meia idade, frustrado e saudoso do sucesso teatral passado.
No primeiro capítulo, o paralelismo entre Débora e Agenor é acentuado. O roteiro previa a passagem: Agenor está angustiado em seu quarto, diante do espelho, depois de falar com a mãe.55 Corta-se para ―Débora, muito bem vestida e olhando-se no espelho‖. Nas imagens do capítulo gravado, o paralelismo se destaca, pois Débora é mostrada com vestido avermelhado, cheio de babados, em plano geral (sem detalhar o rosto). Por um instante, o espectador pode se perguntar se é Agenor.
O grau de androginia é forte: o autor alterna, em vários personagens, os traços masculinos e femininos, ativos e passivos, variando as posturas de vigor e medo, ataque e defesa.