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“Vou dar uma volta Lá na mata do sapé Onde mora o papa-mé O furão e a caipora Que o gato fora de hora Faz visita no poleiro É no pé do lajeiro Aonde a onça mora”

João do Vale (Pé do Lajeiro).

A análise do arranjo espacial camponês é uma análise que deve ser feita de forma a levar em conta a totalidade, porém aqui se prezou pela apropriação do espaço por estes sujeitos, o que Santos (2002) expõe quando escreve que:

Tempo, espaço e mundo são realidades históricas, que devem ser mutuamente conversíveis, se a nossa preocupação epistemológica é totalizadora. Em qualquer momento, o ponto de partida é a sociedade humana em processo, isto é, realizando-se. Essa realização se dá sobre uma base material: o espaço e seu uso; o tempo e seu uso; a materialidade e suas diversas formas; as ações e suas diversas feições. (SANTOS, 2002, p. 54).

Assim, pensamos que da realidade material do camponês em que ele organiza o espaço para a sua produção, há uma forma distintas, por exemplo, de classificar as áreas específicas do espaço que o cerca.

O campesinato do sul do estado elabora uma complexa classificação das regiões em que mantém a sua produção, ligando características físicas de clima, solo, relevo e vegetação, o que justificaria ou não a apropriação e uso dos recursos naturais de determinado terreno. A lógica de classificação dá ordem à apropriação pelas principais atividades desenvolvidas pelo campesinato, a agricultura e a pecuária.

As chapadas, compostas por terrenos planos, tem uma vegetação de porte baixo, tem um clima seco e são propícias para a caça, coleta de frutos, criação de animais. A

barraria aparece como sendo mais úmido, com vegetação de mato seco, como eles

denominam, e é formada por árvores mais altas de madeira nobre; e a vargem composta por árvores mais baixas, escassas, e onde há um capim que é utilizado para a criação de gado. A

barraria pode se desenvolver em terrenos mais altos onde é utilizada no cultivo da mandioca,

milho, algodão e fava; e também em terrenos mais baixos, onde é denominada de baixões, que é utilizada, sobretudo para a agricultura do arroz pelo campesinato da região. As brejarias são

áreas muito úmidas próximas a riachos e rios, nelas o cultivo de arroz é oportuno. As varedas são terrenos planos e úmidos com presença de capim utilizado também para a criação de gado, que se refugia nessas áreas durante o verão.

Essa mesma lógica de produção é explicada por Andrade e Souza Filho (2008, p. 68):

Terras de chapada, brejaria, barraria, são apropriadas e manejadas distintamente, destinando-se prioritariamente à agricultura ou à pecuária. Enquanto a criação do gado bovino é possível tanto em uma como na outra, a lavoura tradicional é impraticável na chapada. Por outro lado, é aí que a caça e o extrativismo assumem importante função para a alimentação camponesa, sendo ainda o lugar dos mortos, dos antepassados, onde estão plantados os inúmeros cemitérios do chamado sertão.

A mesma autora ressalta que na lógica camponesa não há um espaço inútil ou vazio, o que de certa forma vai de encontro com o que os planejadores do Estado alegam para os investimentos em produtividade, em mecanização ou em colonização nas regiões de Cerrado brasileiro, em que a justificativa é não produção nesses espaços e a não ocupação desses espaços por grupos relevantes. Essa pequena descrição da estrutura da relação produção e recursos naturais na região fazem com que seja necessário que esse discurso seja submetido a reflexões o que não será feito aqui por não ser objetivo deste trabalho.

A relação entre produção camponesa e características locais é relevante aqui para evidenciar o saber camponês nessas regiões, e que cada vez mais vem sendo negado. O saber que vem da experiência com o uso da terra, em que a caracterização não segue uma lógica científica, porém tem íntima relação com o concreto, com o vivido e o percebido. Esse saber caracteriza, diferencia, localiza e permite a implantação da atividade mais proveitosa para a cultura camponesa no espaço.

Essa estrutura de produção é rompida com a “invenção” de um cerrado improdutivo, já que essas áreas são tidas pelos planejadores estatais como despovoadas. Tal discurso justifica a tomada das chapadas pelas grandes fazendas de soja. Essa desestruturação da produção camponesa é parte de um processo em que a reestruturação dos espaços é base de uma tentativa de saída da crise capitalista de acumulação que vem acontecendo desde as últimas quatro décadas. No Brasil, essa reestruturação dos espaços vem obedecendo a uma imposição de uma internacionalização da economia e de acumulação de divisas através da exportação de produtos primários, principalmente da agropecuária.

4 A SOJA REINVENTA O SERTÃO ou A CULTURA DEVORADORA DE CERRADOS E DE GENTE

“Terras que se encontram literalmente ‘(des)terradas’ por uma prática agrícola de apropriação da terra e dos seus povos e não, por uma (agri)cultura praticada por mãos "laboristas" que lavram a terra e plantam sementes para alimentar os filhos (da terra) e a fome da população brasileira, mas, por máquinas que "arrancam" as raízes da terra e (des)senraízam a sua gente para produzir grãos (soja) para exportação.”

Lúcia Helena Batista Gratão (Agricultura Cerradeira e Agronegócio).

Nesta parte do trabalho, trataremos, especificamente. da cultura de soja, do crescimento de sua produção no Brasil e nas áreas de Cerrado, principalmente no Maranhão, no município de Balsas. Aqui prezaremos por responder o porquê dessa cultura no atual contexto; o porquê do Brasil como grande produtor e exportador para o mercado mundial; o porquê do Maranhão, e o contexto da produção maranhense, bem como situar o campesinato de Balsas nesse processo.

A expansão da produção da soja no Brasil ocorre em parte pelo caráter de abertura da fronteira agrícola brasileira, em que os investimentos do Estado para a ocupação do Centro-Oeste e da Amazônia se somaram aos interesses e capitais de investidores internacionais.

Desde o Programa para o Desenvolvimento do Cerrado (POLOCENTRO) até as várias fases do Programa Cooperativo Nipo-brasileiro para o Desenvolvimento do Cerrado (PRODECER) os vários projetos para o desenvolvimento da região que compreende o bioma do Cerrado brasileiro visaram uma meta geopolítica de ocupação de supostos espaços vazios, além de serem importantes ferramentas para empresários e agricultores na acumulação de terras e capital. Esses programas serviram mais a interesses particulares do que políticas para o desenvolvimento das regiões onde eram implantados.

Para além da necessidade geopolítica do governo militar brasileiro da década de 1970, a constatação de Harvey (2005) de que a sobrevivência do capitalismo é atribuída à capacidade constante de acumulação "pelos meios mais fáceis" é visível nesse contexto. Aqui a “expansão geográfica e a concentração geográfica são ambas consideradas produtos do mesmo esforço de criar novas oportunidades para a acumulação de capital” (HARVEY, 2005, pp. 52-53).

A expansão geográfica da soja para novas regiões, neste caso, para o cerrado brasileiro, incrementando o comércio exterior e exportando capital serve para elaborar um novo nível de demanda efetiva, juntamente com a penetração do capital em novas esferas de atividade; criação de novos desejos e novas necessidades; e a facilitação para o crescimento populacional (HARVEY, 2005).

A nova configuração do capital significou, para as regiões de fronteira agrícola, novas dinâmicas produtivas. Essa configuração nas áreas agrícolas está associada ao uso intenso da tecnologia e da ciência transformando o meio no que Santos (2006) chama de “meio-técnico-informacional”, e é assim expresso nas suas palavras: "É a ciência que, dominada por uma técnica marcadamente informacional, aparece como um complexo de variáveis que comanda o desenvolvimento do período atual. O meio técnico-científico- informacional é a expressão geográfica da globalização.” (2006, p. 21).

Assim, as transformações no sistema resultaram em profundas modificações produtivas, a qual no Brasil é ligado, sobretudo, ao avanço desta fronteira por regiões de Cerrado e da Amazônia brasileira, e tem na produção de soja um dos seus principais componentes.

A produção de soja se situa no contexto internacional como um importante componente da produção e acumulação de capital, e se insere na política estatal brasileira dentro de um discurso modernizador e desenvolvimentista dos lugares.