Iniciamos essa primeira instância de representação enquanto devir, observando as SDs abaixo, quando as alunas foram convidadas a descreverem o „bom falante‟ de inglês/espanhol26, e a discorrerem sobre o que sentiam ao assistir filmes em inglês/espanhol27:
(SD26) Laura: “Ah, é a pessoa que fala fluentemente, a pessoa que já domina o idioma há muito tempo, uma pessoa que pratica o idioma no dia-a-dia, MESMO não estando lá nos Estados Unidos, entendeu?” (SD27) Laura: AMO! AMO assistir! Mas assim, por enquanto tem que ser legendado, porque quando eu tiver praticando o inglês fluentemente,
fluentemente lá em cima aí eu posso assistir sem. Porque eu acho que o filme em inglês ele leva a gente pra outros lugares, porque a gente vê a cena, do filme, e assim, nossa, a gente está aprendendo pronomes
demonstrativos, um exemplo, aí vem uma cena que se relaciona com pronomes demonstrativos, a gente vê, relaciona a imagem com o conteúdo, entendeu? A gente aprende novas,...,. Eu sinto inveja, porque
sei lá, não é inveja, é admiração, porque assim, eu me sinto feliz de poder tá aprendendo o idioma tão lindo que é o inglês, eu acho lindo o inglês e poder assistir, presenciar a conversação de um americano, por exemplo, entendeu? É gratificante a gente poder falar “Nossa, esse aí fala bem, esse aí domina bem o inglês”, entendeu?
(SD28) Julia: Que falasse, né? tudo certo e chegasse a ser igual as
pessoas que falam mesmo, tipo as pessoas dos Estados Unidos.
(SD29) Carolina: Que mora na Espanha {risos}
Na SD26, Laura, ao descrever o „bom falante‟, faz uso dos verbos “dominar” e “praticar”. O devir aqui é marcado pelo verbo dominar. Em seu imaginário, para falar fluentemente a LE é preciso dominar o idioma, e esse domínio se dará por meio de práticas diárias e muito treinamento. Vemos que neste momento ressoa, nos enunciados de Laura, a voz do discurso do método audiolingual, fundamentados na psicologia do comportamento (behaviorismo). Segundo Mascia (2003), no método audiolingual a língua é concebida como um conjunto de hábitos e, por meio de automatismos linguísticos, procura-se
26Como você descreveria um „bom falante‟ de inglês/espanhol?
27 Você gosta de assistir filmes em inglês/espanhol? O que você sente quando ouve os atores/as atrizes
desenvolver as habilidades de falar e ouvir. Neste método, a premissa era de que se aprendia uma língua pela prática, as estruturas básicas da língua deveriam ser praticadas até a automatização, o que era conseguido por meio de exercícios de repetição. Assim, agenciada pela memória discursiva, Laura se inscreve nesse discurso, construindo um imaginário de que a “prática” e o “treinamento” permitirão que ela, um dia, “domine” a língua estrangeira que aprende; permitirão que ela, um dia, fale como os nativos, ou seja, “igual as pessoas que falam mesmo, tipo as pessoas dos Estados Unidos.”
Além da prática diária como condição para a fluência, Laura também menciona, na SD27, a gramática, pois ao assistir aos filmes em inglês consegue relacionar as cenas com os conteúdos que está aprendendo. Neste momento Laura sente a necessidade de nomear o conteúdo gramatical (pronomes demonstrativos) para asseverar que tem tanto conhecimento gramatical que sabe até nomear esse conteúdo. Assim, percebemos, que a prática e a gramática aparecem como sentido de uma condição fundamental para que se possa falar fluentemente a língua inglesa. O que se percebe, pois, é a inscrição de Laura no discurso da gramaticalidade, um discurso que historicamente perpassa o processo de ensino-aprendizagem de LEs e cujos efeitos são os de que a aprendizagem da gramática permite ao sujeito “dominar” a língua-alvo.
Na SD27, Laura, por meio da locução adverbial de tempo “por enquanto” e da locução adverbial de lugar “lá em cima” (que é empregada nesse enunciado com a função de locução adverbial de tempo, indicando futuro), revela intra e interdiscursivamente o devir, manifestando, assim, seu desejo de ocupar o lugar do outro (lugar do falante nativo). Por enquanto ela ainda assiste aos filmes com legenda, mas quando chegar à fluência desejada/idealizada (fluência do nativo), ela não precisará mais das legendas. Esse desejo também é manifestado por Laura quando enuncia que “o filme em inglês leva a gente pra
outros lugares”. O lugar desejado por Laura é certamente os Estados Unidos, pois ao dizer
o que sente ao assistir um filme, declara intradiscursivamente seu desejo, usando as palavras “inveja” e “admiração”: “Eu sinto inveja, porque sei lá, não é inveja, é
admiração, porque assim, eu me sinto feliz de poder tá aprendendo o idioma tão lindo que é o inglês, eu acho lindo o inglês e poder assistir, presenciar a conversação de um americano”. Percebemos que no imaginário de Laura há a ilusão de que esse outro (falante
nativo americano) tem o domínio de sua língua, ou seja, ele tem uma competência oral nessa língua que não é perpassada por interdições, conflitos e estranhamentos.
Outro aspecto que merece ser apontado, na SD27, é a presença da heterogeneidade mostrada (AUTHIER-REVUZ, 2004), nos dizeres de Laura (Nossa, esse aí fala bem, esse
aí domina bem o inglês). Essa heterogeneidade mostrada irrompe, no intradiscurso, como um mecanismo que produz sentidos de reafirmação de seu desejo de “falar bem” e “dominar” o inglês como o nativo.
Assim como Laura, Julia e Carolina (SD28 e SD29), quando responderam sobre o bom falante em inglês/espanhol, também revelam seu desejo de se aproximar da fluência do nativo, já que, para Julia os bons falantes são as “pessoas que falam mesmo, tipo as pessoas dos Estados Unidos”, e para Carolina quem “mora na Espanha”. Assim,
percebemos, a partir dos dizeres enunciados pelos sujeitos de pesquisa, que mais uma vez, no seu imaginário, há a ilusão de que esse outro (falante nativo) tem o domínio de sua língua materna. Acreditamos, então, que há uma memória discursiva, na qual o nativo é visto como referencial. Segundo Guilherme (2008), essa referencialidade do falante nativo se configura como parte de um discurso hegemônico, que foi historicamente construído e até hoje influencia e baliza algumas práticas educacionais no Brasil.
Notamos, assim, nos dizeres enunciados por Laura, Julia e Carolina, ( SDs 26, 27, 28 e 29), a presença do desejo de se aproximar da fluência do falante nativo da LE. Podemos dizer, pois, que elas se identificam com a FD do falante nativo e dão uma posição de destaque à fluência do falante nativo das línguas inglêsa/espanhola. Isso aponta para o processo de identificação com a língua do outro, que passa a ser constitutivo da identidade do sujeito aprendiz de uma LE. Nesse momento, as alunas marcam a superposição do outro (falante nativo) em relação a si mesmas, deixando revelar o devir de uma fluência idealizada que ainda não conseguiram alcançar, sendo o referencial dessa fluência o falante nativo americano e espanhol.
Passamos, a seguir, a discorrer sobre a segunda instância da representação discursiva enquanto devir, a inscrição na falta de pronúncia.
4.2.2. A inscrição na falta de pronúncia: “eu gosto de ouvir, porque fixo a pronúncia