Da análise dos dados qualitativos, assim como de conversas com os responsáveis pela plataforma carsharing surgiram dois novos construtos relevantes no contexto do dstgroup que ainda não tinham emergido na revisão da literatura. O primeiro foi a utilidade percebida da plataforma/partilha de carro e o segundo foi o estatuto social dos colaboradores. Os participantes do grupo de foco referiram que quanto maior a utilidade percebida maior será a intenção de participar no carsharing. O desenvolvimento da aplicação móvel e o registo das viagens por outra pessoa tornaram o processo mais fácil e consequentemente a partilha útil. Quanto ao estatuto social, uma vez que o dstgroup é uma empresa predominantemente do setor da engenharia e construção existe uma hierarquia rígida em algumas empresas que dificultam a partilha entre pessoas de cargos diferentes.
Importa, portanto, perceber um pouco melhor estes conceitos e incluir no modelo conceptual de forma a medir se impactam ou não a intenção dos colaboradores em partilhar carro. A utilidade percebida é definida por Davis (1989) como o grau até ao qual uma pessoa acredita que o uso de um sistema específico melhora o seu desempenho. Este conceito advém da
Página | 60
definição da palavra útil que significa capaz de ser utilizado vantajosamente. Arteaga-Sánchez et al. (2018) encontraram evidências de que a utilidade percebida influencia a satisfação e intenção de continuar a utilizar os serviços da Blablacar. Também Möhlmann (2015) descobriu que a utilidade tem um efeito positivo na probabilidade de escolher uma opção de partilha novamente. Hamari (2015) não apresenta no seu modelo um construto de utilidade percebida, contudo incorpora um item no construto benefícios económicos relativo à poupança de tempo que também influencia a intenção de aderir ao consumo colaborativo. No seu estudo, Lamberton & Rose (2012), evidenciaram que a utilidade da partilha, nomeadamente no contexto de serviços de partilha de carro, influencia a probabilidade dos consumidores escolherem um programa de partilha.
Amirkiaee & Evangelopoulos (2018) incluíram a variável “benefícios de tempo” (time benefits) como antecedente da atitude em relação ao rideshare e demonstraram que existe uma relação positiva significante entre os dois construtos. Neste estudo a utilidade percebida refere-se ao grau até ao qual os indivíduos pensam que ao partilhar carro a viagem poderá ser mais fácil e eficiente. Apesar do reduzido número de estudos que utilizem a Teoria do Comportamento Planeado em que a utilidade percebida seja um determinante da atitude, nesta investigação será assumido como mencionado na secção 1.4.4. que as razões são distintas dos antecedentes da intenção (atitude, norma subjetiva e controlo percebido). Assumiu-se este pressuposto, uma vez que a utilidade percebida é um construto que surgiu do contexto específico, não sendo um motivo global amplo que possa impactar a intenção como a atitude, norma subjetiva e controlo percebido. Desta forma, com base na teoria e na pesquisa qualitativa, desenvolvemos a seguinte hipótese: H4b: A utilidade percebida influencia positivamente a atitude em relação a serviços de partilha carsharing.
O estatuto social é a posição ou classificação numa sociedade concedida a um indivíduo por outros, sendo que as pessoas dentro do mesmo grupo compartilham o mesmo prestígio e evidenciam esse prestígio no seu meio social (Acker, Goodwin, Witlox, & Van Acker, 2015; Eastman, Goldsmith, & Flynn, 2015). Para diversos produtos a propriedade é associada a um prestígio social mais elevado, nomeadamente os automóveis (Bardhi & Eckhardt, 2012). A utilização de carro não é apenas popular pelas suas funcionalidades de mobilidade, outros motivos como sentimentos de poder, superioridade e excitação influenciam o uso de automóveis. Para
Página | 61
muitas pessoas o carro serve como símbolo de estatuto através do qual se podem expressar, isto é também estimulado e demonstrado pelos anúncios publicitários das marcas (Steg, 2005).
Stradling, Meadows, & Beatty (1999) descobriram que os entrevistados que valorizam os benefícios afetivos de conduzir estão menos inclinados a reduzir o uso do carro. Para além das evidências na literatura, foi também referido pelos gestores da plataforma carsharing e participantes do grupo de foco organizado, como supramencionado, que o estatuto social poderia impactar a intenção de adesão à partilha de carro. Moeller & Wittkowski (2010) evidenciaram no seu estudo que a perceção de importância da posse afeta negativamente a preferência dos consumidores pelos serviços de partilha. Também Akbar, Mai, & Hoffmann (2016) consideraram que a posse de um produto é uma variável importante para determinar a intenção dos consumidores para participar em sistemas de partilha.
Phau & Teah (2009) analisaram os antecedentes da atitude em relação à falsificação de marcas de luxo, considerando o estatuto como um determinante. Foi demonstrado pelos autores que o estatuto influencia negativamente a atitude em relação a produtos falsificados de marcas de luxo. Já Hawlitschek et al. (2018) consideraram na sua extensão à Teoria do Comportamento Planeado, a variável prestígio da posse como antecedente da atitude em relação a serviços de partilha, não tendo, contudo, comprovado uma influência significante. Apesar de existir pouca literatura que fundamente a relação do estatuto social com a atitude, considera-se importante dado o contexto do dstgroup introduzir a variável, seguindo o estudo de Claudy et al. (2013) e Westaby (2005) de que as razões específicas identificadas são fortes antecedentes da atitude. Nesse sentido, formula-se a seguinte hipótese:
H7: O estatuto social influencia negativamente a atitude em relação a serviços de partilha carsharing.
Após a revisão da literatura em que foi aprofundado o conhecimento relativamente à economia da partilha e o estudo qualitativo onde se percebeu o contexto do programa carsharing no dstgroup, os benefícios económicos e sociais evidenciaram-se relevantes como motivações para partilhar veículo. Como referido, surgiram dois novos conceitos no grupo de foco e entrevistas: a utilidade percebida e o estatuto social. Estes novos construtos apesar de não muito explorados na literatura mostraram-se relevantes no estudo qualitativo pelo que importa incluir no modelo conceptual de forma a serem testadas no estudo quantitativo.
Página | 62
Figura 14 - Extensão final do modelo conceptual da intenção de adesão a serviços de partilha carsharing
Assim, após a apresentação de uma síntese acerca da contextualização do tema da dissertação, bem como a apresentação do modelo conceptual e as hipóteses por ele suportadas, no próximo capítulo apresenta-se a metodologia quantitativa.