4. Tidsånd og samfunnsutvikling
4.3. Likestillingens backlash
Já analisamos a representação do protagonista como construído com traços que o configuram como “cafajeste”, “atrevido”, “provocador”. Agora, identifico uma seqüência que desqualifica e humilha a personagem central. Jandir aproxima-se de Leda, deitada na areia, e inicia um breve diálogo: - “Por que você escondeu o jogo para mim?” – “Que jogo?” – “Que seu velho tinha ‘chutado’ você?” – “Porque os homens gostam das mulheres comprometidas, é mais excitante”. – “Pra mim tanto faz. Eu não estou a fim de glória”. Após essa rápida troca de palavras, Jandir aproxima-se, abraça Leda, e, embora ambos estejam vestidos, é um momento de muita sensualidade e erotismo.
A câmera efetua um deslocamento e focaliza o outro casal, que tenta, inutilmente, dialogar. Há, aqui, um certo paralelismo entre essas duas seqüências, no sentido de fazer uma representação do desencontro: Vavá e Vilma não conseguem se comunicar; a relação entre Jandir e Leda é frustrada. No momento
em que a câmera volta, já focaliza Leda em primeiro plano, sentada, e a postura de seu corpo e a expressão de seu rosto, são indícios de que nem tudo “correu” bem, assim como a expressão de abatimento de Jandir, que vemos em segundo plano. Ouve-se a voz de Leda, “quebrando” o silêncio:
- Você não tem abusado dos comprimidos? – Ele, humilde: Sei lá, deve ser preocupação. Jandir, de costas para ela, diz: – Troço chato,
esse. Mas Leda mostra-se condescendente: - Isso acontece com todo mundo. – Comigo é a primeira vez.
O filme, aqui, faz um jogo ao usar o primeiro e segundo planos. Ora Leda é focalizada em primeiro plano, ora Jandir. Ela sentada, fala quase para ela mesma: “Ninguém fica assim sem motivo, só diante de uma coisa que assusta a gente; diante de uma coisa grande demais”. A expressão do rosto de Jandir muda, perde a frieza, uma máscara que ele carrega, e passa, assim a ter interesse no que a
mulher diz. Senta-se ao lado dela, e uma atmosfera de entendimento os envolve. No silêncio, parece haver uma aproximação entre os dois. Leda corta esse clima: - Você não fala? Jandir, de cabeça baixa, desconsolado, responde: - O que é que eu posso dizer? – Nada.
Sabemos a preocupação que os homens, na nossa cultura, têm em relação ao desempenho sexual. Para os padrões de masculinidade, construídos no cotidiano, uma boa performance sexual é um atributo do “machão”, e, a esse traço, são acrescidos outros: “força e poder, violência e agressão, virilidade e potência sexual” (Parker, 1991, p. 76). Jandir age de forma violenta em relação a Vilma; conquista Leda, para depois enganá-la friamente e desrespeitá-la; está sempre exercitando sua capacidade de demonstrar força e segurança. Assim, sua identidade masculina é definida em termos de virilidade e poder. Entretanto, não consegue ter relações sexuais com Leda. Se o perfil que o caracteriza é se dar muito bem com as mulheres, o fracasso no ato sexual, contribui para denegrir sua imagem.
Entretanto, as seqüências seguintes instigam outras interpretações, já que se processa um deslocamento do sentido anteriormente atribuído a Jandir. Ou seja, uma imagem contrariando a outra, uma imagem contradizendo a outra. Na seqüência seguinte, Jandir é seduzido por Vilma, e, ao que parece, alcança um bom desempenho sexual.
Aqui, o filme quer transmitir a idéia segundo a qual o problema de Jandir não deve ser valorizado; um problema ao qual não se deve dar tanta importância. É como se o filme quisesse minimizar o que aconteceu. Nesse caso, teríamos uma intenção “sabotando” a outra: Jandir não tem êxito em sua relação com Leda e, nesse sentido, é “humilhado”; logo depois, ao ser seduzido por Vilma, sai “vitorioso”. Parece que aqui, a “grande perdedora” é Leda; sua tristeza expressa no tom de voz, na postura do corpo, na cabeça pendendo para um lado, demonstra abatimento. Seu corpo é pesado, suas costas ficam curvas, como se carregasse um fardo. Essa sensação vai se acirrar mais ainda, quando, posteriormente, presencia a cena de amor vivenciada por Jandir e Vilma. Mais uma vez em seu rosto transparece sofrimento, dor, indignação. Em um momento, enquanto tenta desviar seu olhar daquela cena, vira-se, caminha um pouco, mas logo volta, e depois se inclina para apanhar a camisa de Jandir. Mais uma vez, ocorre a representação da humilhação feminina, de sua subordinação ao poder do homem. Mais uma vez, a imagem de uma personagem violada, agredida.
Vemos, também, que os dramas íntimos da personagem masculina são expostos: mas não são construídas, apenas, imagens de homem “insensível”, “machão”, representadas pela figura de Jandir.7 Sua intimidade é exposta, e não
deixa de ser uma intimidade, muitas vezes, “pequena”, “diminuída”, “sofrida”. Seu desejo se reduz a atender aos apelos de uma sociedade de consumo: “meu sonho é ter um conversível”; entretanto, no que se refere aos sentimentos amorosos, Jandir é “perdido”. Em uma seqüência do início do filme, Vavá, cinicamente, lê o horóscopo de Jandir: “no que diz respeito a vida afetiva: deve procurar estabilidade emocional e estabelecer um clima de concórdia com a pessoa amada. Cuide dos nervos”. Jandir, sem dar atenção a essas previsões, pergunta: -“Você está mesmo disposto?” – “Claro! Os nativos de Leão é que devem se
7A imagem do ator Jece Valadão esteve, usualmente, associada a traços que remetiam à arrogância, insolência, valentia. Em diversos filmes, dentre outros – Amei um bicheiro, Bonitinha,
mas ordinária – sua personagem reforçava essa imagem. Segundo Gomes (2000, p. 115), existe
uma relação entre personagem e ator. No teatro, é mais comum que o ator passe e o personagem fique. “No cinema quem permanece através das diversas personagens que interpreta é o ator”.
cuidar!” –“Leda é de Leão?” pergunta Jandir e seu tom de voz indica um singular cuidado, uma preocupação que denota um interesse. A expressão de seu rosto, sempre impenetrável, perde a dureza, e seu olhar fica distante. Parece ser essa a forma da personagem vivenciar suas experiências íntimas, ou seja, com frieza.