Os tumores de glândula mamária são as neoplasias que mais comumente acometem as fêmeas caninas e representam um grupo altamente heterogêneo em termos de morfologia e comportamento biológico (NERURKAR, 1989; GAMA; ALVES; SCHIMITT, 2008). Cerca da metade dos tumores mamários caninos são considerados malignos e a identificação de fatores prognósticos confiáveis é essencial na quantificação de riscos individuais de desencadeamento clínico desfavorável (DAGLI, 2008; GAMA; ALVES; SCHIMITT, 2008; CASSALI et al., 2011).
O conhecimento de diversos fatores de risco está bem estabelecido na doença neoplásica mamária nos cães, em especial a idade da paciente, dieta, predisposição genética ligada a algumas raças e influência hormonal, particularmente nos animais não castrados. As glândulas mamárias são, na verdade, glândulas sudoríparas modificadas formadas por parênquima (alvéolos) e estroma (tecido conjuntivo), vasos e nervos. Nas fêmeas caninas, as neoplasias mamárias se desenvolvem na chamada “linha do leite”, formada por duas cadeias de glândulas mamárias paralelas à linha abdominal média, em geral em número de cinco pares. (SORENMO, 2003; SLEECKX et al., 2011).
Cadelas com neoplasia mamária são em geral animais mais velhos, com idade media entre 9 e 11 anos, não castradas ou castradas tardiamente por ocasião do diagnóstico. Muitos destes animais apresentam-se clinicamente bem quando levados ao medico veterinário para avaliação de seus tumores e não raro, a doença neoplásica mamária é um achado incidental em exames clínicos de rotina (SORENMO, 2003; CASSALI et al., 2011; SLEECKX et al., 2011).
A duração das manifestações clínicas varia de poucos dias a vários meses e em geral, animais com curtos períodos de manifestações clínicas costumam apresentar tumores mais agressivos e com pior evolução clínica (SORENMO, 2003). Na maioria das vezes, os tumores mamários caninos se apresentam na forma de nódulo único ou múltiplos, circunscritos e de tamanho, consistência e mobilidade variados, podendo ou não estar aderidos à pele e aos tecidos profundos. Os nódulos também podem se apresentar ulcerados e com reação inflamatória local. As glândulas caudais abdominais e inguinais são, em geral, mais comumente afetadas
que as glândulas torácicas (SORENMO, 2003; CASSALI et al., 2011; SLEECKX et al., 2011).
Quando a doença metastática está presente, os animais podem apresentar manifestações clínicas inespecíficas como cansaço, letargia, perda de peso, dispnéia, tosse, linfedema e claudicação. A extensão e a localização das metástases determinam a ocorrência e a severidade das manifestações clínicas. Embora os carcinomas utilizem preferencialmente a via linfática para metastizar aos linfonodos regionais e pulmões, também pode ocorrer disseminação pela via hematógena (SLEECKX et al., 2011).
Durante o exame físico específico, ambas as cadeias devem ser examinadas e um perfil completo da paciente deve ser obtido, incluindo-se exames laboratoriais complementares como hemograma, perfil bioquímico, eletro e ecocardiograma, radiografias torácicas em três posições e exame ultrassonográfico abdominal para pesquisa de metástase à distância. A biópsia excisional deve ser considerada como procedimento de rotina para o diagnóstico histopatológico do tumor, gradação tumoral e avaliação do comprometimento das margens cirúrgicas. Os linfonodos sentinelas são os primeiros linfonodos a receber a drenagem linfática da neoplasia e possuem alto risco de acometimento por metástase regional. Por esta razão, indica- se a biópsia excisional ou aspirativa por agulha fina destes linfonodos, padrão ouro em Medicina no controle da doença neoplásica mamária na mulher. Com base no perfil completo da paciente, é possível estabelecer seu estadiamento clínico, classificação com comprovado valor prognóstico (YAMAGAMI et al., 1996; CASSALI et al., 2011; SLEECKX et al., 2011).
Os tumores mamários são comumente classificados histologicamente com base na sua histogênese, recebendo nomes de acordo com os tecidos que os originam, sendo defendido por diversos autores o valor prognóstico destas classificações. Ao exame histopatológico, os nódulos mamários caninos podem se apresentar desde lesões epiteliais não neoplásicas, como hiperplasias e ectasias, a lesões de diferentes graus de malignidade, numa gama que abrange dos tumores benignos aos tumores malignos mais agressivos e anaplásicos. As neoplasias de origem epitelial são as mais comumente vistas na glândula mamária canina, porém, não são raras as apresentações mistas, em que o componente mioepitelial também está envolvido, podendo haver a presença de áreas de osso e cartilagem ou mesmo
formações neoplásicas de origem puramente mesenquimais (MISDORP et al. 1999; SORENMO, 2003; CASSALI et al., 2011, SLEECKX et al., 2011).
Os tumores epiteliais são comumente classificados de acordo com seu padrão histológico e grau de diferenciação, com maior freqüência diagnóstica na cadela para os carcinomas simples tubulares ou adenocarcinomas (BENJAMIN; LEE; SAUNDERS, 1999; SORENMO, 2003).
A cirurgia mantém-se ainda como a melhor opção terapêutica para a maioria dos tumores mamários caninos, à exceção das neoplasias inoperáveis altamente metastáticas e para a maioria dos carcinomas inflamatórios, entidade clínica caracterizada por evolução fulminante de aparecimento súbito nas glândulas mamárias, que apresentam edema, eritema, calor e rigidez, com ou sem a presença de um nódulo detectável. Histologicamente pode ter origem em vários tipos de carcinomas de alto grau de malignidade, tendo como característica histológica marcante a invasão dos vasos linfáticos da derme por êmbolos neoplásicos. Além da cirurgia, vários protocolos de tratamento quimioterápico e a utilização de antagonistas da progesterona (antiprogestinas) são sugeridos pelos autores (CASSALI et al., 2011; GOLDSCHMIDT; PEÑA; RASOTO, 2011; SLEECKX et al., 2011).
Vários estudos apontam para fatores que teriam valor prognóstico nos tumores de mama, tais como tamanho do tumor, tipo histológico, gradação histopatológica e acometimento dos linfonodos (PEREZ ALENZA et al., 2000; KARAYANNOPOULOU et al., 2005; YAMAGAMI et al., 1996; GAMA; ALVES; SCHIMITT, 2008). Por outro lado, com o seqüenciamento genético de quase a totalidade do genoma canino (99%) e a clara evidência de sua estreita relação com o genoma humano (KHANNA et al., 2006; DAGLI, 2008; UVA et al., 2009), os tumores mamários caninos de ocorrência espontânea têm sido considerados modelos para o estudo do câncer de mama na espécie humana, por suas características histomorfológicas, similaridade anatômica e fisiológica com a espécie humana e pelo fato dos cânceres se desenvolverem naturalmente em cães dentro do ambiente que eles dividem com seus proprietários, sofrendo influência dos mesmos fatores que afetam a iniciação e progressão tumoral em humanos como idade, sexo, fatores nutricionais, estado reprodutivo e exposição ao ambiente. (KHANNA et al., 2006; PORRELLO; CARDELLI; SPUGNINI, 2006; PAOLONI; KHANNA, 2007).
O desenvolvimento dos tumores na cadela tem caráter hormônio-dependente, como apontam os estudos que sugerem o efeito protetor da castração precoce, antes do primeiro cio (SORENMO et al., 2000; PORRELLO; CARDELLI; SPUGNINI, 2008). O padrão de decréscimo dos receptores de estrógenos movendo-se do tecido normal ao carcinoma agressivo aponta para a perda progressiva da dependência hormonal durante a tumorigênse. Por estas razões, as neoplasias mamárias na cadela representam modelo apropriado para o estudo do câncer de mama não- hormônio dependente na mulher, devido ao seu comportamento previsível de malignidade e padrão metastático (PORRELLO; CARDELLI; SPUGNINI, 2006).
Por outro lado, o câncer de mama, que por séculos é apontado pelos clínicos como o tumor clássico das mulheres é ainda hoje um problema que afetas mulheres do mundo todo, causando preocupação por sua característica epidêmica que as afeta, mas também pelo seu potencial de marcador patológico de exposição hormonal aos desreguladores endócrinos, partículas presentes no ambiente e que têm impacto sobre a espécie humana e aos animais (SASCO, 2001).