4 DISTRIKTSPOLITIKK OG SYSSELSETTING
6.5 Levekår
Ao narrar o ato cometido, A.L.S.V. informa que tudo começou com um namoro. O namorado morava no bairro Pirambu e frequentava festas de reggae. “Foi no reggae que aprendi a cheirar loló e fumar maconha”, relatou a adolescente.
Antes de se envolver na prática infracional, a adolescente afirma que frequentava a Igreja Assembleia de Deus com a avó. Diz que se afastou da Igreja e passou a “gazear” aula para namorar, sempre acompanhada de colegas que usavam maconha. Incentivada pela turma, logo decidiu frequentar festas de reggae e ouvir músicas de Rock. Assim, aos poucos, foi conhecendo os locais de lazer e festas em Fortaleza. Sobre sua vivência no bairro onde mora, a adolescente afirma: “quando meu pai e meu avô estavam vivos, eu nem frequentava as bodegas do bairro, pois meu avô não deixava. Ele temia que eu me envolvesse com coisas erradas, por causa da fama do bairro Carlito Pamplona, onde mora a minha avó”.
Sobre o uso de drogas, A.L.S.V. relata: “antes nem bebidas alcoólicas eu tomava, só passei a beber depois que comecei a frequentar o reggae, fumar cigarro, daí pra maconha foi um pulo”.
O ato infracional aconteceu em uma festa de reggae, quando a vítima do homicídio, acusou A.L.S.V. de ter roubado seu celular.
Eu num dô valor a pegar nada de ninguém...principalmente de quem não tem, entende? Eu falei prá essa menina, que me acusou. Mas, aí ela disse assim: então, tu vai se garantir comigo. Aí, eu pensei: diabo é isso? O quê que essa doida quer? Se fosse na mão, eu tinha até ido né? Mas, aí passou uma semana e ela foi lá em casa atrás de mim. Ela e a mãe dela, todas duas armadas de faca. Olha, tia, eu não sei qual era a dela, só sei que ela tava lá no reggae. Eu tava em casa e aí as meninas chegaram me avisando que ela tinha dito que ia me matar, que ia cortar a minha cabeça, mas eu não fiquei com medo não. Quando foi na sexta-feira tava ela e as
amigas dela me esperando. Tava uma “arruma”, um monte de amiga dela. Aí, eu
entrei com o meu namorado, eu entrei com ele lá no reggae e ela tava doida prá me pegar, mas ela só não me pegou porque eu tava com ele, e ele é o que manda nas áreas lá. Aí quando foi no sábado, a amiga dela mesmo disso assim: “Ei tu toma cuidado que a fulana disse que vai te matar”. Eu tava de cara limpa, só com cigarro, aí eu pensei assim: quer saber... prá evitar confusão, eu vou embora. Mas, aí, quando eu vou andando lá vem ela com a faca, aí eu disse: “ei mulher, solta essa faca aí, vamos se esbagaçar nós duas aqui na mão mesmo”. Isso o meu namorado tava lá dentro do reggae, aí foi na ora que ela veio prá cima de mim, aí eu segurei na mão dela, tomei a faca dela e saí metendo nela. Uma pegou na testa, duas no pescoço e duas no abdômen. Eu não tinha certeza se queria matar ela não, mas eu não podia parar prá ficar olhando prá faca, o jeito que a faca era, de que cor era e tal... Eu só fiz tomar e meti nela de todo jeito. Eu pensei que só tivesse arranhado ela, mas eu lembro que espirrou sangue na minha mão, mas depois me disseram que ela tava com as tripas todas do lado de fora. Tem até um corte aqui na minha mão, eu não sinto essa parte aqui, essa parte aqui é tudo dormente. Eu puxei a faca e saí furando ela. Se eu não tivesse segurado ela, ela teria me furado, eu tenho certeza. Quando eu decidi fazer isso com ela, eu não fui fazer prá ela sobreviver né? Por que depois ela com certeza vêm atrás de mim e vai fazer pior comigo. E ela também não ia me dá só umas três furadas, prá me deixar viva..., por que depois eu ia atrás dela né? Eu não fiz nada com ela, nada, nada. Ela pegou uma implicância comigo. Foi isso!
Após toda a descrição do homicídio, questionei: por que ela tentou matar você? O que você acha que a levou fazer isso? Na fala da jovem, percebe-se dificuldades para compreender o que aconteceu:
Só sei que, na época eu tava namorando com um cara, ele era o “cabeça” lá da boca
de fumo. Ele era o dono do pedaço e tal. Acho que essa menina queria ele, aí resolveu implicar comigo. De verdade, eu não sei muito bem qual era a dela, até hoje não sei qual foi, acredita? Também, tô tentando entender isso tia.
O receio de ser morta em vingança é constante nas narrativas desta jovem. Daí, talvez, a decisão de se entregar à justiça, incentivada pela avó e as tias, alguns dias após o ato cometido. Nos relatos da jovem, o medo da morte é recorrente:
Eu sabia pelo olhar dela que ela vinha prá me mandar pro inferno, queria me matar mermo. Ela não tava de brincadeira. Por isso, eu não me arrependo... Mas se perguntasse se eu queria riscar isso da minha vida, claro que eu ia preferir não ter feito isso. Sei que lá fora tem muita gente tentando me matar. Pediram cinco mil reais, uma moto e uma pistola pela minha cabeça. Meu ex-namorado avisou à minha mãe que tivesse muito cuidado comigo, porque estavam fazendo acordos prá tentar me matar. Se não me pegassem, pegariam um dos meus irmãos. O que eu acho injusto, por que meus irmãos não têm nada a ver com isso, né?
4.6.3 Decurso de prazo processual: A experiência de 45 dias em internação e o retorno