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5.4 Lear sin aktualisering av Kierkegaards tenkning omkring ironiens betydning for å

5.4.1 Lear sitt perspektiv på den ironiske erfaring

Brasil, seu povo e tudo que existe nesta terra.

Todavia, enfatiza que esse poder não é absoluto. No Brasil, a França já exerceu o papel de mestre; no atual contexto histórico, a mídia e o poder econômico têm instituído os Estados Unidos nessa função. No que tange à produção do conhecimento, o Brasil vem se caracterizando no pós-colonialismo por buscar seu futuro além-mar. Com base em Bhabha (2013), Passos conclui sinalizando que há uma cobrança do intelectual brasileiro em saber o que se produz e em aplicar as teorias produzidas no Primeiro Mundo.

Quanto à relevância da abordagem do complexo de inferioridade do brasileiro disseminado tanto no senso comum quanto no campo da pesquisa, essas três leituras reforçaram a importância de investigar o modo como a mediação cultural se processa no ensino de FLE no Brasil ao longo da história, bem como o questionamento quanto à posição do professor e do pesquisador brasileiro nesse contexto com o intuito de verificar se ambos têm atuado como o intelectual que produz conhecimento ou apenas têm absorvido as orientações externas, atribuindo-lhes ainda o papel de mestre.

1.2 A CULTURA FRANCESA NO BRASIL E A RELAÇÃO FRANCO- BRASILEIRA

O encontro da cultura francesa com a brasileira trouxe, provavelmente, para os brasileiros e franceses um novo olhar sobre o mundo. No Brasil, a cultura francesa está materializada, a saber, em nossa arquitetura, na língua portuguesa, na literatura e nas

ideologias democráticas. No território brasileiro, a presença da cultura francesa representou para muitos a possibilidade de salvar o país do “barbarismo”, tendo em vista as imagens, as representações do colonizador e do colonizado que foram transmitidas e reforçadas ao longo da história.

Todavia, cabe dizer também que um número expressivo de artistas e intelectuais franceses também sofreu influência da cultura brasileira e levou para a França uma visão do Brasil com base em suas experiências, colocando em questão as concepções do civilizado e do bárbaro, entre outras.

Com base nas informações da revista História Viva, em uma edição especial nomeada A herança francesa, de 2005, constata-se que a relação franco-brasileira se iniciou em 1504, com a instalação do capitão Binot Gonneville durante seis meses na atual Santa Catarina. Posteriormente, em 1555, apesar de Nicolas Durand de Villegaignon ter sido expulso por Mem de Sá, sua vinda para fundar a colônia França Antártica no Rio de Janeiro contribuiu para a produção dos relatos História das singularidades da França Antártica (1555), de André Thévet, e História de uma viagem à terra do Brasil, de Jean de Léry (1972).

Sobre a obra de Léry, convém destacar que a nudez indígena não é concebida como pecado, como uma ofensa a Deus. Ao contrário, o índio passa a ser visto como o bom selvagem. Tal concepção vai se fazer presente entre outros pensadores franceses, como Montaigne, Voltaire e Rousseau.

[…] coisa não menos estranha e difícil de crer para os que não os viram é que andam todos, homens, mulheres e crianças, nus como ao saírem do ventre materno. Não só não ocultam nenhuma parte do corpo, mas ainda não dão nenhum sinal de pudor ou vergonha […]. (LÉRY, 1972, p. 14)

No que diz respeito aos atos indígenas canibalistas, Léry os descreve com detalhes, relatando como os índios sacrificavam, matavam e comiam os inimigos. Todavia, como vivenciou as revoltas religiosas entre católicos e protestantes na Europa, o autor relativiza a violência indígena, salientando ao leitor que o barbarismo também era praticado pelos europeus.

Poderia aduzir outros exemplos de crueldade dos selvagens para com seus inimigos, mas creio que o que disse já basta para arrepiar os cabelos de horror. É útil, entretanto, que ao ler semelhantes barbaridades não se esqueçam os leitores do que se pratica entre nós […]. Não abominemos, portanto, demasiado a crueldade dos selvagens antropófagos. Existem entre nós criaturas tão abomináveis, se não mais, e mais detestáveis do que aqueles que só investem contra nações inimigas de que têm vingança a tomar. Não é preciso ir à América, nem mesmo sair de nosso país, para ver coisas tão monstruosas. (LÉRY, 1972, p. 203)

Retomando as tentativas colonizadoras no Brasil, no século XVII, os franceses fracassaram mais uma vez ao tentar implantar uma colônia no atual Maranhão. Porém,

as narrativas escritas pelos padres capuchinhos e o nome da cidade, São Luís (“Saint Louis du Maragnan”), em homenagem ao rei francês, deixaram mais uma vez a marca

da cultura francesa no Brasil.

No final do século XVIII, o luxo da corte de Luís XIV, bem como o prestígio da literatura e da filosofia, motivou a difusão da cultura francesa no mundo ocidental. No que diz respeito à língua francesa, é oportuno ressaltar que o idioma era falado em algumas cortes europeias, além de na cidade parisiense.

A supervalorização da cultura francesa floresceu, de fato, após a Revolução

Francesa, ancorada na ideologia da “liberdade, igualdade e fraternidade”. Todavia, a

leitura de filósofos franceses e os ideais revolucionários do país assustavam as autoridades coloniais. Na revista História Viva, o historiador João Paulo Pimenta (2005, p. 27) afirma o seguinte: “Na crise vivida pelo Império Português no fim do século

XVIII, o exemplo histórico da Revolução Francesa estimulou tanto movimentos separatistas brasileiros, como a Conjuração Baiana, quanto a férrea repressão do poder colonial a toda ameaça à ordem estabelecida.”

Outro momento histórico importante aconteceu em 1816, com a vinda da Missão Francesa, composta por artistas como Jean-Baptiste Debret, Grandjean de Montigny e Nicolas-Antoine Taunay, que trouxeram para o Brasil o estilo neoclássico e formaram novos discípulos de suas artes. Vale salientar que d. Pedro I, objetivando construir a identidade brasileira, criou uma bandeira para o país baseada na da França napoleônica.

Além disso, a frase “Ordem e Progresso” remete à ideologia positivista do filósofo

francês Auguste Compte.

No século XX, a presença da cultura francesa era ainda muito forte no Brasil, a saber: a Semana de Arte Moderna, um movimento de renovação da arte brasileira, inspirou-se nas ideias de artistas franceses. Posteriormente, a fundação da Universidade de São Paulo (USP) teve como principais colaboradores os intelectuais Claude Lévi- Strauss, Roger Bastide e Pierre Monbeig.

No mundo, a cultura e a língua francesas começaram a perder prestígio para o inglês após a Segunda Guerra Mundial. No Brasil, acentuaram-se, entretanto, as ações francesas para preservar a imagem da França. O artigo “Intelectuais e artistas nas estratégias francesas de ‘propaganda cultural’ no Brasil”, publicado na Revista de História número 133, de 1995, expõe que eventos culturais franceses foram acordados entre o governo brasileiro e o francês. Além dessa ação, nos anos 1930 professores franceses foram enviados ao Brasil para a organização de programas culturais.

O Comitê Francês de Liberação Nacional (CFLN), após três anos de relação com o Brasil, fez, em 1943, esta declaração:

[…] as elites sul-americanas, tão ligadas tradicionalmente à nossa cultura, têm continuado a procurar nossos educadores, nossos professores, nossos artistas e a esperar as diretrizes do pensamento francês. Na maioria desses países, o domínio norte-americano aumentou, nos aspectos militar, comercial, financeiro, industrial e, em certos casos, cultural. Procurando limitar a extensão desta ação que, em muitos casos, lhes é vantajosa ou mesmo indispensável, muitos dentre eles desejam, contudo, reservar à ação desinteressada da França o domínio do espírito. Nós temos podido promover, graças às subvenções de Londres ou de Vichy, a maioria de nossas obras e de nossos educadores. Nossas posições são ainda bem sólidas e podem servir de ponto de partida a novas influências.

Ainda no século XX, é relevante explanar que as manifestações estudantis e operárias de 1968 em Paris influenciaram as organizações de esquerda no Brasil contra a ditadura militar. Todavia, na década de 1970, a derrota dos movimentos de resistência ao governo militar e o contexto econômico-social fizeram surgir uma geração que passou a adotar como referência a cultura americana.

Embora as relações franco-brasileiras não sejam as mesmas do passado, é importante salientar que a França e o Brasil ainda mantêm seus laços. Em 1998, o Brasil foi homenageado no Salão do Livro de Paris e, em 2005, aconteceu o Ano do Brasil na França, apresentando uma extensa programação cultural. Como retribuição, em 2009, o Brasil fez uma homenagem à França, com o evento intitulado Ano da França no Brasil.

Não podemos deixar de dizer que a presença das Alianças Francesas no Brasil se torna cada vez mais forte. Como foi mencionado em minha pesquisa de mestrado (AZEVEDO, 2010), somente no município do Rio de Janeiro existem oito filiais, sediadas nos bairros de Copacabana, Ipanema, Méier, Barra, Recreio, Centro, Botafogo e Tijuca, além de cursos ministrados em empresas.

No que tange ao espaço do ensino-aprendizado da língua francesa, esta pesquisa versará, em particular na próxima seção, sobre as ações educativas referentes às línguas estrangeiras. O objetivo será demonstrar sobretudo a presença e o papel da língua francesa no contexto escolar e social brasileiro, visando a depreender as imagens desse

idioma no atual contexto, tendo em vista que os vestígios da memória histórica construídos no meio social (ORLANDI, 2003) têm papel relevante no momento do processo de ensino-aprendizado, de mediação de conhecimentos, de interação aluno- professor.