conhecimentos
Neste item, buscou-se captar além do ponto de vista dos dois técnicos sobre o processo de adoção/construção de conhecimentos no Assentamento Banco da Terra, o modo como se dá o processo de extensão propriamente dito. O primeiro técnico entrevistado é um engenheiro florestal, funcionário da EMPAER (Empresa Matogrossense de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural) há 33 anos e que trabalha no escritório local da empresa em Nova Xavantina. O segundo técnico é um engenheiro agrônomo de uma empresa particular de assistência técnica e que prestou serviços nos primeiros anos de implementação do referido Assentamento.
A primeira questão abordada foi com relação às ações extensionistas desenvolvidas no Assentamento. O técnico responsável pela assistência técnica durante o período de implementação do Assentamento fez questão explanar quais foram suas atribuições na época. Inicialmente, segundo o entrevistado, ele ficou encarregado de fazer a locação individualizada de cada lote, da estrada e da infraestrutura de apoio. Posteriormente, foi elaborado um projeto de exploração mais focado na suinocultura, por esta ser uma atividade rentável e que permitiria o trabalho de forma coletiva. A partir disso, foi desenvolvida toda uma estrutura para dar início às atividades, como a construção de uma pocilga, a compra de alguma matrizes
e o plantio de soja, milho e sorgo para a montagem de uma pequena fábrica de ração e, assim, diminuir os custos. Diante disso, de acordo com o entrevistado, a assistência prestada seguia um modelo de visitas técnicas e participação em algumas assembléias e reuniões convocadas pelas associações de produtores, ocasião em que eram proferidas recomendações dentro da suinocultura e na área produtiva de grãos.
Por outro lado, o técnico da EMPAER afirmou que as atividades de extensão rural, no período atual, restringem-se a ações individuais e expedição de Declarações de Aptidão ao PRONAF (DAP's). Na maioria das vezes, descreve o técnico, os agricultores vão até o escritório e solicitam/apresentam seu problema e, a partir disso, são realizadas visitas aos lotes para resolução de algum aspecto necessário.
Em ambas as descrições, nota-se que a presença de uma extensão rural baseada na formação tradicional e pautada no modelo difusionista-inovador. A atividade extensionista baseada nesses moldes é alvo de críticas de Caporal (2003). Para ele, existem três carências inerentes a formação acadêmica que travam a formação de um "novo profissionalismo". A primeira carência está no ensino das universidades e escolas agrícolas brasileiras que adotaram um modelo que privilegia a especialização e a divisão disciplinar. Essa característica limita a capacidade do profissional em vir a ter uma visão holística e impede a oportunidade de enxergar a agricultura além de sua função de produzir bens (CAPORAL, 2003). O caso aqui apresentado ainda possui um agravante, se levarmos em consideração que os profissionais que fazem parte deste estudo se formaram há mais de trinta anos, numa época em que a difusão de receitas técnicas e pacotes tecnológicos era ainda mais proeminentes. Trabalhos mais recentes, como o de Callou et al. (2008), no entanto, apontam que, a grosso modo, os programas de ensino não refletem o avanço das discussões acadêmicas acerca das questões que hoje circundam o meio rural.
A segunda carência da formação profissional está no distanciamento com que se trata os atores sociais e o papel decisivo que eles têm na agricultura e a importância que se dá as técnicas agrícolas aplicadas. O terceiro e último ponto destacado se refere ao pouco valor dado as disciplinas humanas (Sociologia e Extensão Rural) que, quando estão presentes, destinam-se, frequentemente, a ensinar o profissional a impor seus conhecimentos (CAPORAL, 2003). Dentro do último ponto apresentado, Callou et al. (2008) reiteram esta característica, ao afirmarem que há um certo descaso com as disciplinas das áreas humanas e sociais (Sociologia e Extensão Rural), pois a disciplina de Extensão Rural, por exemplo,
possui uma carga horária insuficiente, dá pouca importância à temas primordiais e é oferecida nos últimos semestres, funcionando mais como ponto de chegada do que de partida.
Cabe observar que todas as carências apresentadas por Caporal (2003) se encaixam perfeitamente no modo de agir dos técnicos. A tentativa de repassar um pacote de tecnologias ou de aguardar a vinda do assentado ao escritório, baseado na premissa de que " o agricultor é quem necessita dos meus conhecimentos" vai contra todos os pressupostos presentes na PNATER. Diesel e Dias (2010) chamam a atenção para este fato ao fazerem o seguinte questionamento: estarão os extensionistas preparados para lidar com este público? Os autores descrevem algumas situações-chave, onde são exigidas um savoir-faire e uma perícia que não estão presentes na maioria dos profissionais de Ater. Geralmente, ao entrar em contato com uma sociedade rural heterogênea, o extensionista irá se aproximar de um grupo que ele imagina ter algum tipo de conhecimento. Porém, a formação universitária destes profissionais ainda preza pela agricultura patronal, fazendo assim com que ajam de maneira tecnicista e reducionista, diante de uma situação em que se faz necessário uma maior sensibilidade aos aspectos sociais e culturais (perspectiva holística).
Em seguida, solicitou-se aos entrevistados que avaliassem suas ações junto aos agricultores do Banco da Terra, bem como da empresa pela qual trabalham (no caso a EMPAER), no intuito de observar quais são os pontos fortes e os principais entraves relacionados à execução plena de suas atividades. O técnico da empresa particular avaliou sua ação como boa, tendo em vista que assessoria técnica prestada estava "de acordo com a contratada e até um pouco mais, aliás, bastante mais, porque a gente tinha interesse em ver aquilo crescer" (Entrevistado 4). Afirmou ainda que ocorreram algumas discordâncias e conflitos mínimos, pois existiam alguns agricultores que não concordavam com as atividades que estavam sendo executadas, apesar das mesmas já estarem contratadas e terem sido aceitas pela maioria em assembléia.
Já o técnico da EMPAER iniciou sua resposta destacando as dificuldades de atuação, levando em consideração o fato de ele ser apenas um técnico e tem que prestar assistência a mais de mil famílias. Contou, inclusive, o caso de um companheiro que trabalhava com ele, mas que "devido às dificuldades impostas e à ambição pessoal do sujeito, saiu da EMPAER e abriu um escritório de assistência particular" (Entrevistado 3). Por fim, afirmou que as ações executadas por ele e pela EMPAER como um todo estão aquém do satisfatório e poderiam ser avaliadas como regulares.
Com base nas duas avaliações, destaca-se as dificuldades que o técnico da EMPAER afirmou possuir. Realmente, prestar serviços de ATER a um número tão alto de famílias é algo praticamente impossível, isso sem contar a situação precária da EMPAER. Embora haja um veículo novo na unidade local, muitas vezes falta combustível para ir até os assentamentos. Diante disso, questiona-se: como cobrar uma ação mais eficiente e contínua se a empresa pública não fornece as condições necessárias para que o profissional realize seu trabalho a contento?
Aliás, o problema questionado acima não é uma carência apenas do estado de Mato Grosso. Ao contrário, é algo que se expande por todas as unidades da federação. De modo geral, a maioria das agências estaduais de ATER, até os dias atuais, age de modo precário e insuficiente, frente às demandas da "nova" política. As dificuldades e deficiências oriundas desde o desmantelamento da EMBRATER, no início da década de 1990, ainda causam reflexos. São vários os problemas observados que vão desde a falta de profissionais até a insuficiência de recursos e veículos para ao menos deslocarem-se até o assentamento.
Finalmente, buscou-se observar o ponto de vista dos técnicos sobre as principais dificuldades que impedem/dificultam os agricultores do Assentamento Banco da Terra a adotarem os conhecimentos propostos. Ambas respostas englobam aspectos relacionados a não ligação com a terra por parte dos agricultores e à acomodação com a situação em que se encontram, como se observa no trecho abaixo:
Eu acredito que foi falta de aptidão, ainda que tivesse sido discutido em assembléia, tivesse sido discutido com os próprios interessados inicialmente na implantação do projeto. Posteriormente, verificou-se que as pessoas tinham pouco interesse ou falta de aptidão para conduzir aquilo. Aí, começa aquela situação: uns queriam trabalhar, outros não se disponibilizavam. [...] Alguns desinteresses e alguns oportunismos. Da parte da assessoria, a gente tentou, com os conhecimentos que temos de muitos longos anos, fazer o melhor possível, mas não adianta você ter tecnologia, você ter recursos, você ter condições para implantar isso, se não houver a vontade de implantar isso (Entrevistado 3).
Ainda nesse âmbito, quando questionados sobre o lado oposto da questão levantada acima, isto é, quais os fatores que levaram alguns agricultores a adotarem determinados conhecimentos, observou-se que a ligação com a terra retornou como umas das respostas, porém agora ressaltando a maior presença deste fator. Além deste, fatores como zelo, necessidade e interesse também fizeram parte do escopo das respostas.
Ao analisar as respostas para as duas questões abordadas acima, nota-se que a seleção de agricultores com maior ou menor ligação com a terra foi apontada pelos técnicos como o principal fator influenciador do processo de adoção/construção de conhecimentos. Na
concepção de Neder et al. (2002), a questão do processo de seleção é bastante evidente e sua importância pode ser justificada com base na escassez de recursos para atender com os benefícios das políticas públicas (especialmente o crédito fundiário) toda a população que está apta a ter acesso a determinada política. Neste caso, sustentam os autores, percebe-se que o problema não corresponde apenas ao fato que os benefícios estejam sendo capturado por famílias que não se enquadram nos critérios da política, mas também que os resultados efetivos do programa, bem como sua sustentabilidade, em muitos casos, dependem das características dos agricultores selecionados.
Dentro dessa lógica, é razoável supor que uma família de agricultores, com maior tradição e experiência em trabalhos agrícolas, possa adotar mais facilmente os conhecimentos que lhes estão sendo propostos. Contudo, ressalta-se que essa não pode ser vista como uma condição primordial ao processo de adoção/construção de conhecimento.
4.2.3 A visão dos agricultores do Assentamento Banco da Terra sobre o processo de