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Lakebehandling

In document Bløt hyse. Innledende studier (sider 27-31)

3 FORSØK, RESULTAT OG ANALYSER

3.5 Reparering av bløt/spaltet filet

3.5.3 Lakebehandling

Neste ponto, poderíamos argumentar que a criatura conseguiu com sucesso desenvolver sua capacidade moral e que, a partir de então, assumiu o controle de seus impulsos destrutivos. Afinal, ela fechou o circulo benigno, passando do incompadecimento (ruthlessness) à preocupação (concern); através da reparação, elaborou as ansiedades associadas a esse processo, transformando-as em sentimento de culpa. Podemos dizer que a criatura fez sua parte!

O problema é que o desenvolvimento da capacidade moral, como todo desenvolvimento primitivo, depende de uma boa provisão ambiental para se estabelecer. Nessa etapa, é papel do ambiente sobreviver aos impulsos destrutivos da criança (no caso, da criatura) para que ela tenha tempo, não apenas para percebê-lo, mas, também, para encontrar na reparação um meio de transformar as ansiedades decorrentes da ambivalência em culpa. Desse modo, a criança necessita de um cuidado ambiental continuado, que sobreviva à seus ataques, sem retaliar, até que a reparação possa se dar.

Entretanto, assim como no conceito de primeira mamada teórica, o circulo benigno designa um conjunto de experiências em que a criança destrói, se dá conta e busca reparar o dano. E acabamos de descrever apenas uma do que deveria ser um conjunto de experiências.

A relação que a criatura estabeleceu com seus protetores era demasiadamente frágil e, quando ela resolve se apresentar a eles, tudo vai por água abaixo. O gesto de aproximação, devido ao seu aspecto hediondo, é tomado como uma agressão pelos moradores da casa, que imediatamente a retaliam e fogem para não mais voltar. Eles não “sobreviveram” aos seus impulsos e a criatura ficou sem ter como apropriar-se de sua destrutividade, através da reparação:

Meus protetores haviam partido e tinham rompido o único laço que me prendia ao mundo. Pela primeira vez, fui invadido pelos sentimentos de vingança e de ódio. Não procurei dominá-los. Antes, deixei-me levar por sua corrente. Comecei a me inclinar para o mal e para morte (Shelley, 2009, p.146).

Acompanhamos, assim, o rompimento do círculo benigno que começava a se estabelecer na criatura e observamos seus instintos destrutivos desintegrarem-se de sua personalidade. A partir de então ela não tinha mais controle sobre eles, eram como uma onda que a arrastava para a destruição: O vendaval corria como uma avalancha poderosa e

produziu uma espécie de loucura em meu espírito que destruiu todos os laços da razão e da reflexão. Acendi um galho seco de uma árvore e pus-me a dançar furiosamente em torno da casa (Idem, p.147). Logo a casa estava repleta de chamas e com ela queimavam os sonhos

que, outrora, alimentaram sua esperança de um dia poder ser aceita no universo humano. Com a casa, queimou-se o sonho de encontrar na humanidade uma ética capaz de acolher suas necessidades: a criatura benévola começava, assim, a dar lugar ao terrível monstro que todos temiam.

Neste ponto, vale a pena levantar algumas questões: Quantas crianças e adolescentes, atualmente, não seguem pelo mesmo caminho da criatura, pela falta de ambientes bons o suficiente para lhes proporcionar a possibilidade de integrar sua destrutividade? Quantas crianças não se transformam em verdadeiros monstros pela intolerância dos adultos em relação à sua dimensão destrutiva? Quantos adolescentes falham no estabelecimento de uma moral, pela falta de oportunidades de contribuir socialmente de um modo criativo?

Durante algum tempo, trabalhei num abrigo municipal para crianças e adolescentes e pude testemunhar os inúmeros obstáculos que eles enfrentam para conseguir integrar seus impulsos destrutivos, sofrendo com a intolerância e o abando, tanto por parte de seus familiares, quanto dos órgãos de proteção e assistência. Mas esse é um tema complexo demais para ser tratado aqui. Gostaria apenas de assinalar, o quanto esta ficção de Shelley, produzida há quase duzentos anos, guarda semelhanças com nossa realidade atual. De um modo tal, que

não consigo lê-la, sem me recordar daquelas crianças que se perderam no caminho; crianças saudáveis, ávidas para dar sua contribuição ao mundo, transformadas em monstros pela intolerância, preconceito e falta de oportunidades de participar desse mundo de forma construtiva.

Após colocar fogo na casa que abrigou seus sonhos, a criatura se lembra de ter encontrado o diário de Frankenstein, no qual estão registrados, para seu horror, todos os detalhes de sua fabricação. No diário a criatura encontra também a localização de sua casa e, diante do abandono, decide procurá-lo, para exigir dele o que, em vão, pensou poder exigir de seus protetores: Eu aprendera pelos seus papéis que você era meu pai, meu criador, a que

outra pessoa poderia recorrer senão a você que me dera a vida? (Idem, p.147).

No caminho da casa de Frankenstein, em Genebra, a criatura encontra uma garotinha em apuros que, brincando, acabou caindo num rio de forte correnteza. Diante dessa situação a criatura decide ajudá-la, tirando-a da água e esforçando-se para reanimá-la. É então que o pai da criança, vendo-a nos braços de um monstro, a golpeia e foge com a menina nos braços. A criatura ainda tenta aproximar-se, provavelmente tentando desfazer o mal entendido. Assustado, o pai da criança aponta-lhe, então, uma arma e dá-lhe um tiro:

Foi essa, então, a recompensa da minha bondade! Eu salvara um ser humano da morte e, como recompensa, contorcia-me agora com a dor miserável de uma ferida que me rasgara a carne e estraçalhara os ossos. Rilhando os dentes, deixei que a mais infernal das raivas substituísse os sentimentos de bondade e meiguice que me haviam dominado por alguns momentos. Espicaçado pela dor, votei ódio e vingança eternos a toda humanidade (Idem, p.149).

Essa foi a última tentativa da criatura de conquistar o acolhimento humano, seu último gesto de reparação. Ferido, o monstro continuou sua jornada em direção à casa do seu criador. Ao chegar bem próximo ao local indicado no diário, encontrou uma outra criança, desta vez, um menino. Por impulso, segurou-lhe e o viu começar a gritar. Tentou dizer-lhe que não lhe faria mal. Ele queria a criança para si, talvez pensasse que assim diminuiria sua solidão. Mas o menino continuava a gritar, dizendo-lhe que ele era filho de alguém muito importante e que seu pai iria castigá-lo por isso. Ele era filho do senhor... Frankenstein. Ao ouvir o sobrenome daquele que considerava ser responsável por sua desgraça, o monstro resolveu que o menino seria sua primeira vítima. Apertando-lhe o pescoço até que parasse de gritar e se debater:

Contemplei a minha vítima e meu coração exultou com uma sensação de triunfo infernal. Batendo palmas exclamei:

lo de desespero. Milhares de outros tormentos hão de torturá-lo e destruí-lo (Idem, p.151).

Para completar esse quadro, o monstro mostrou ter requintes de crueldade e, ao ver que o menino trazia uma corrente em volta do pescoço com a foto de uma mulher, ele resolve levar a joia consigo. Em seguida, encontrando uma jovem dormindo sobre um monte de palha, o monstro tem uma ideia: Ela é que deveria expiar o meu crime, já que eu estava para

sempre despojado de tudo que ela me poderia conceder (…) Ela que pague por ele (Idem,

p.152). Incapaz de sentir culpa pelos seus crimes, a criatura decide fugir para não ser pega. E assim, termina esta parte da história, onde o monstro prevaleceu sobre a criatura.

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