– Não pensava e fui embora por causa disso mesmo... Porque eu não... Fiquei
nervoso, e aí eu fui-me embora. Eu saí. Eu digo: “eu não vou mais trabalhar aqui, não. Eu
vou embora”.
– Ficou com medo, foi, seo Dércio?
– Fiquei, eu fiquei com medo. Quando a pessoa, acontece uma coisa assim uma vez, duas vezes, aí é bom antes de acontecer as três, a pessoa sair de baixo. Porque às vezes, quando vai acontecer as três vezes... Uma vez acontece uma coisa assim, o cabra... Duas vezes... Agora nas três vezes... Antes de acontecer as três, é bom o cara sair, porque se chegar – que Deus o livre – e chegar aquele dia... Às vezes o cabra não escapa, não. Né? Aí eu pensei isso e fui-me embora. Fui mais não.
Fala sobre o momento em que precisou sair, deixar o trabalho, sair de baixo, ir embora. Não teve assim um motivo, uma causa. Como também não foi da ordem do querer. Mas ele explica.
Uma pessoa sofre algo que lhe acontece. Está lá a pessoa e sucede a ela alguma coisa. Para isso seria preciso dizer: algo acontece à pessoa. A expressão pede uma crase, senão quem teria acontecido seria a própria pessoa. ‘Quando a pessoa acontece uma coisa assim’, no entanto, saiu sem crase. Ao ser transcrita, essa frase mereceria uma crase se fosse dita sem uma quebra, uma pausa quase imperceptível. Ele disse: ‘quando a pessoa’... A pessoa ia se tornando sujeito de uma oração, quando subitamente foi emendada outra estrutura para a frase e ‘acontece uma coisa assim’. De tal modo falou, que tanto a pessoa como a coisa acontecem. E é sobre isso mesmo que fala e prossegue, sem correções, numa sintaxe que ‘acontece’.
‘Uma vez acontece uma coisa assim, o cabra’... E a frase não continua. As reticências colocam o ‘cabra’ de sobreaviso. Quando é assim, o narrador para, como que abre o olho. E ainda ergue os ombros, pende a cabeça para o lado. ‘Duas vezes’... E já é outro. Com duas, o narrador como que recebe uma pontada nas costas e sai. Ele pode não escapar, com três.
Não há uma ordem necessária entre as três. Não é preciso dizer ‘primeira’, ‘segunda’, ‘terceira’ coisa. A série não está nas coisas, nem na cronologia. Está na experiência. O ‘cabra’ passa de uma para duas e pode estar lá ‘nas três vezes’, mas é bom ele sair antes de somar mais uma. Três é uma certa quantidade limite registrada uma a uma no ‘cabra’. Três pode ser a última coisa.
A matemática considera o três como o maior número perceptível, a rigor se percebe até dois. A visão de três já seria igual a muitos. Uma quantidade maior resultaria da contagem ou da soma, ou seja, de uma operação mental, complexa, que exige a série numérica, a classificação dos objetos e a correspondência de cada elemento da série a um objeto. A matemática, pois, opera sobre unidades distintas, mesmo quando transcende o limite perceptível.
‘Uma coisa’, no caso, é algo que de algum modo distingue-se na realidade, pois destoa das demais, mas vem misturada a todo o resto. O que dá a perceber, embora claramente, é apenas a sensação de que aí tem coisa, uma coisa103. Trata-se de outra percepção, clara e confusa, que ainda assim é percebida como uma. Uma coisa é um acidente, uma quase morte, algo que – está se vendo – poderia ter acontecido, ou está para acontecer. E é também algo já acontecido à pessoa, transformando-a. Vem o medo, fica nervoso... Coisa
103 Uma outra combinação ou composição do espaço, das cores e do tempo, escreveu José Gil a propósito da percepção artística. Ele espreita essa semiótica do infinitamente pequeno. De onde vem essa dupla característica da força artística? Uma obra possui, ao mesmo tempo, modulações infinitas da força que dela se emana, e uma singularidade que faz com que seja um (...) O que é uma linguagem das forças? (GIL: 2001, p.20-21).
que se sucede, uma a uma, e ao se somar, indica uma direção, vai compondo um vetor. Três é o fim, o total já não é mais a realidade inicial.
Aconteceu mais de uma coisa e ele ‘pensou isso’. O esperado não seria dizer ‘pensou nisso’? Quem pensa, pensa em alguma coisa. ‘Pensar alguma coisa’ é diferente, é algo no pensamento e não o pensamento sobre algo. Do modo como ele acabou dizendo, o pensamento não se debruçou sobre ‘isso’, mas, ao contrário, ‘isso’ alojou-se no seu pensamento. Pensou isso e não se separou o sujeito do objeto da ação que se constituiu. No seu dizer, estava sendo acometido do pensamento que ali tinha uma coisa, duas...
– Daí o senhor foi lá e pediu as contas?
– Pedi, eu pedi as contas, eu dei baixa lá, eu mandei dar baixa lá e ficou um dinheiro lá para mim receber, e eu fui-me embora e eu não fui mais nem receber o dinheiro. (risos)
– Não voltou nem pra receber, seo Dércio?!
– Rapaz, eu não voltei, não. E eu ia voltar, mas aí... Eu não voltei, não. E também era pouco, o dinheiro que ficou lá era pouco. Quase que não compensava eu pagar transporte para ir pegar esse dinheiro, porque eu acho que ficava quase uma coisa pela outra, né? Aí eu imaginei assim, eu digo: “deixar isso pra lá, né? Não vou mais, não”.
‘Eu pedi as contas, eu dei baixa lá, eu mandei dar baixa lá’, disse ele, se corrigindo, com precisão gramatical. Mas não foi a gramática quem exigiu dele a correção de ‘eu pedi as contas’ para ‘eu dei baixa lá’ e, por fim ‘eu mandei dar baixa lá’. Quem dera baixa não havia sido ele. Ele mandou. E mandou, não porque mandasse em quem quer que seja, mas porque era irrevogável a baixa. Aconteceu uma, duas coisas e não poderia mais ficar. ‘Pensou isso’. Nem esperou pelo pagamento, foi embora...
Voltou ao dinheiro que ficou, já que se queria saber, mas só para reafirmar com detalhes que deixou ‘isso pra lá’. Rapidamente já estava em outro lugar. Era da urgência de ir embora que falava. No dinheiro, razão do seu trabalho, pensou depois e viu que não compensava.