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3   Materialer  og  metode

3.3   Laboratoriearbeid

A teoria psicanalítica de Winnicott foi adotada neste estudo, a partir da perspectiva desenvolvida por Vaisberg, Machado e Baptista (2003), segundo a qual é entendida como uma psicanálise concreta, voltada ao acontecer humano. Esta postura teórica, assim compreendida, interessa-se pelo estudo da conduta humana, afirmando que a mesma é portadora de um sentido emocional. Assim, há um reconhecimento de que a conduta humana, entendida como toda manifestação do ser humano, no plano simbólico, corporal ou no da ação sobre o meio ambiente, constitui o fenômeno que verdadeiramente interessa conhecer.

Nesta perspectiva, pode-se considerar que Winnicott (1990) apresenta uma concepção de desenvolvimento humano que enfatiza o papel dos contextos de facilitação, se interessando pelo ambiente onde as pessoas estão e pelas relações que aí se estabelecem. O ambiente social, para ele, é constituinte da subjetividade, e tem um papel ativo no amadurecimento emocional ou no processo de constituição da sensação de ser si mesmo. Dessa forma, a constituição do si mesmo, da subjetividade, é possível a partir do encontro inter-humano que acontece neste ambiente. Tal encontro pode ser entendido como genuíno e fundamental para a transformação essencial quando caracterizado pela disponibilidade devotada do outro àquilo que se apresenta como necessidade pela pessoa em processo de constituição do si mesmo. Esta forma de relação devotada foi relacionada por Winnicott (1956/2000) à capacidade das mães de entrar em sintonia com as

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necessidades fundamentais de seus bebês, promovendo a sua completa satisfação em seus primeiros meses de vida. Para o autor, este fenômeno denominado de preocupação materna primária é um fator relevante na caracterização de um ambiente facilitador. Destaca-se, nesta perspectiva teórica, que a mãe, que oferece o cuidado, conhece, por apropriação pessoal, o trajeto a ser percorrido pelo bebê para a constituição de si, implicando na possibilidade de uma apreensão do bebê pautada tanto pela percepção do mesmo, quanto pelas suas próprias experiências vividas. Dito em outras palavras, este encontro da pessoa com o ambiente social ocorre a partir da compatibilidade potencial existente entre as necessidades da pessoa e a forma como o outro as percebe e se comporta diante delas (MIZRAHI, 2010). Para que um encontro deste tipo seja possível, é necessário que aquele que cuida, a mãe, por exemplo, possa se adaptar às necessidades singulares da pessoa, ou de seu filho, oferecendo pouca resistência à sua força vital criativa, podendo ser percebida como fazendo parte dele. Nesta condição, Winnicott (1945/2000) afirma que a vida, amparada pelo ambiente facilitador, pode fluir em continuidade, favorecendo a constituição de um si mesmo por meio da articulação espontânea daquilo que é vivido. Entretanto, o autor assinala que, nas situações em que o ambiente se apresenta intranquilo ou pouco adaptado às necessidades do bebê, impõe-se a ele a tarefa de lidar com “intrusões”, ou exigências ambientais, que o levam a reagir a este ambiente de modo pouco espontâneo. Esta diferença entre uma vitalidade que encontra espaço para fluir e outra que precisa lidar com condições ambientais adversas, estará presente ao longo de toda a vida da pessoa, e se relacionará com as possibilidades de uma existência pautada pela espontaneidade ou pela reatividade à vida (MIZRAHI, 2010).

A constituição de um sentido de si mesmo decorre, assim, da efetivação de uma integração das experiências vividas. Tal integração pressupõe uma série de conquistas, ou tarefas integrativas, que não são entendidas por Winnicott como definitivas. A conquista da unidade psíquica não é permanente e intacta, mas é parte de um processo dinâmico que, na relação com o meio, pode se perder ou se ganhar (WINNICOTT, 1945/2000). De acordo com Dias (2003), Winnicott afirma que há uma condição própria que impulsiona o bebê para a vida, mas que ele vive e se desenvolve, também, devido ao fato de haver alguém que responde satisfatoriamente a isto. Quando a dedicação do cuidador responde às necessidades singulares do bebê, certas potencialidades, como integração, personalização e realização, podem começar a acontecer na subjetividade que se constitui.

Dessa forma, a integração psíquica só pode existir quando sustentada por um cuidado real externo, ligado a uma experiência de mutualidade na relação humana. Esta mutualidade se refere a uma experiência em que a mãe, ou o cuidador, pode oferecer condições de satisfação para o bebê na medida em que ela mesma puder beneficiar-se criativamente da relação que estabelece

com ele (WINNICOTT, 1969/1994). Assim, na perspectiva de Winnicott, aquele que cuida precisa estar bem, vivo e podendo “alimentar-se” da relação, implicando numa visão do desenvolvimento humano baseado na reciprocidade das trocas subjetivas (MIZRAHI, 2010).

Quando a realidade torna-se intrusiva e pouco sintônica com as condições vividas pelo bebê, a integração até então alcançada fica em risco, podendo acontecer um processo chamado de desintegração. Esta última manifesta-se pela perda potencial da organização psíquica anteriormente conquistada e do sentido do si mesmo, com a fragmentação das experiências (WINNICOTT, 1990). O autor afirma que uma desintegração pode ocorrer em situações de extrema sobrecarga emocional e nas que existem falhas no cuidado adequado, o que determina uma impossibilidade da pessoa contar com o apoio do outro para realizar suas tarefas integrativas e para sustentar o funcionamento psíquico anterior. Neste sentido, falhas ocorridas no encontro inter-humano ou a vivência de acontecimentos catastróficos podem impedir ou determinar a perda da noção de continuidade do si mesmo, o que implica numa sensação de um profundo vazio existencial e na vivência de agonias impensáveis (VAISBERG; MACHADO; BAPTISTA, 2003). Nestas situações, a possibilidade de estar presente diante da própria experiência é barrada, ocorrendo uma retirada defensiva de si mesmo. Dessa forma, o que se observa é uma ausência de si mesmo do mundo das experiências, uma exclusão da convivência autêntica com os outros seres humanos.

De acordo com Mizhari (2010) e Ambrosio e Vaisberg (2009), a tarefa de integrar as experiências vividas em uma unidade ancorada em experiências de mutualidade nunca é completada, implicando na necessidade do encontro com um outro facilitador em todas as situações de vida. Neste sentido, pode-se afirmar que a chamada preocupação materna primária, referida por Winnicott (1956/2000) como a condição de devoção materna que permite a adaptação às necessidades do bebê, pode aparecer em outras situações em que aquele que cuida está naturalmente envolvido com aquele que é cuidado.

Neste sentido, a saúde é compreendida, por Winnicott (1990), como a condição que possibilita à pessoa a manutenção da noção de continuidade da existência, por meio da identificação e integração de experiências que se entrelaçam no tempo e que se localizam dentro ou fora do próprio corpo. Para que esta condição seja alcançada é necessária a presença de um ambiente facilitador, entendido como aquele que é capaz de responder e se adaptar ativamente às necessidades do bebê ou da pessoa adulta, especialmente em situações de vulnerabilidade (BATISTELLI, 1996).

O modo como Winnicott (1949/2000) entende a relação fundamental entre o ambiente e o atendimento das necessidades humanas primordiais remete às suas concepções sobre o corpo e

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sobre as perspectivas subjetivas a partir do que é vivido corporalmente. O autor compreende que uma pessoa se constitui como ser diferenciado a partir de uma elaboração imaginativa dos sentimentos, das partes e funções somáticas, experienciados desde o início da vida. O corpo é esquematizado psiquicamente, por meio de uma elaboração direta do real. A valorização da experiência, considerada também em sua dimensão concreta na constituição do si mesmo, pressupõe uma subjetividade em contínuo processo de formação e transformação a partir das relações que estabelece com o mundo. Assim, a partir do contato do bebê com o mundo, ocorre uma apropriação pessoal do sentido da anatomia, das sensações, dos movimentos e do funcionamento corpóreo em geral, que favorece o alojamento da psique no corpo e dá sentido às experiências físicas (WINNICOTT, 1949/2000; DIAS, 2003). O psiquismo humano, assim, ancora-se na elaboração imaginativa da experiência corporal, relacionada tanto às possibilidades orgânicas quanto àquilo vivido na história singular da pessoa. O sentido de si mesmo pode ser entendido como sendo composto por um estado de integração espaço-temporal, em que existe um eu unificado que contém tudo, ao invés de elementos dissociados que não podem se articular nas vivências pessoais. (WINNICOTT, 1949/2000; DIAS, 2003).

Dessa forma, o contato com o ambiente pode favorecer o crescimento e a conquista de novas capacidades ou não, seja por meio da integração das experiências vividas e da constituição de uma identidade diferenciada, ou por meio da manutenção de uma desintegração e indiferenciação psíquica (WINNICOTT, 1965). É no encontro específico com um outro, nessa relação que transcende os indivíduos isolados, que é possível pensar em constituição do ser e em desenvolvimento. Neste sentido, Winnicott (1969/1994) assinala que a subjetividade é, até certo ponto, aberta para o mundo e para as experiências, constituindo-se na relação viva que estabelece com o ambiente. Por outro lado, a materialidade do corpo e a necessidade de um ambiente facilitador apontam para um limite desta abertura potencial, na medida em que certas experiências podem conter demasiadas exigências, favorecendo que a organização psíquica se processe na forma de reações a estas condições adversas (MIZRAHI, 2010).