Usualmente a palavra aprendizado diz respeito à cognição.Existe nela uma questão de acerto e erro. No Budismo, embora haja uma abordagem geral em relação a isso, quando o
Buda dizia “Testem o que eu digo”; ele referia-se à fé, mas também às coisas práticas, sejam
cognitiva, é muito raro se chegar a um nível emocional. Logo, acaba tratando-se apenas de uma questão de mudança de opinião. Muito mais raro ainda seria ir além dos padrões habituais da percepção sensorial em si.
Na visão budista, quando o homem supera certos tipos de automatismos, como o cognitivo e o emocional, por exemplo, o mundo se transforma completamente e a forma de reconhecer sua situação também se transforma. Uma vez que isto se altera, surge o ideal de liberação daquilo que produz uma experiência limitada. Assim, ao invés de tentar adaptar-se a este mundo, o homem tenta liberar-se dos automatismos que produzem as experiências limitadas. Esta é a perspectiva mais profunda de educação no budismo. De fato, este é também o sentido de liberação. Segundo Samten31:
Toda a educação no budismo está baseada em recuperar a liberdade. O objetivo da educação budista não é adaptar o ser à experiência convencional de um mundo circundante, pré-existente e independente. Nossa experiência convencional é de que, se desaparecemos, o mundo continua. Convencionalmente vemos um mundo que nos acolhe, mas que é separado de nós. Esta é a experiência de samsara. No sentido budista, quando olhamos esta situação, não seguimos esta perspectiva. Os Budas olham esta situação de outra maneira, eles foram além dos diversos processos ilusórios da mente (Lama Padma Santen BUDISMO e Educação. Vídeo).
A educação no Budismo, a princípio, é uma remoção de obstáculos. Os grandes mestres que ensinam sobre isto dizem que a natureza humana parece estreita, devido a uma construção, e chamam o processo de aprendizagem a desconstrução e a remoção de obstáculos. Esta é uma abordagem geral. No treinamento budista, quando este aspecto é compreendido, quando é vivenciado, mesmo que parcialmente, há uma decorrência, um resultado. Este resultado é confiança, não propriamente cognitiva. Uma confiança nessa natureza que então se percebe está além de todas as histórias particulares que podem surgir para a identidade estreita construída. Mas isto não é teoria, é um aspecto vivenciado, sensorial, cognitiva e emocionalmente.
Num sistema de educação budista é muito importante a figura do guia, do professor, do mestre, porque se acredita que é muito difícil que alguém possa avançar sozinho. Por isso
31
Padma Santen é um Lama brasileiro pertencente à tradição do budismo tibetano que atua no Centro de Estudos Budistas Bodisatva (CEBB), no Rio Grande do Sul. Seu nome, antes da iniciação budista, era Alfredo Aveline e ele foi professor de física quântica da Universidade Federal do Rio Grande do Sul por 25 anos. O CEBB ao qual ele pertence apoia três escolas que são mantidas por seu braço social, o Instituto Caminho do Meio, que tem como missão traduzir o legado vivo da filosofia budista, de forma não religiosa, para projetos da área social, educacional e ambiental. Lama Padma atua principalmente na área da educação, onde, além da Escola Caminho do Meio, profere palestras e conferências por todo o Brasil e no exterior.
que, no ensinamento budista, começa-se “ouvindo como ouvir” e aprende-se que é necessário
“sabedoria para saber ouvir.” Em seguida os alunos recebem ensinamentos que explicitam a
amplidão da sua natureza e o aspecto de inseparatividade. Ainda de acordo com Samten:
Não se trata de fugir da roda da vida, o que buscamos de fato é um interesse muito maior pelos seres. Esta experiência é completamente diferente da experiência-raiz da roda da vida. A experiência da roda da vida está ligada a prazer e dor, desejo e aversão. Esta segunda experiência está baseada na capacidade de compreender e atuar de forma muito mais ampla que a própria identidade. A comprovação desta amplidão é a capacidade de se alegrar com experiências cada vez mais altruístas (Lama Padma Santen BUDISMO e Educação. Vídeo).
Quando os Budas observam esta natureza, a percepção que têm é de algo ilimitado, o que dá sentido ao que chamamos Buda, que significa liberto das limitações. Todo processo de treinamento ou educação, segundo os valores budistas, está centrado no treinamento dessa natureza, de modo que, em vez do homem focar em sua identidade estreita, reconhece o seu ser dentro dessa experiência de amplidão.
O professor tem um importante papel. Ele representa o ensinamento do Buda. Curiosamente, esses ensinamentos não são budistas, apenas proporcionam a liberação dos já mencionados condicionamentos automáticos, e são importantes para todos os seres, independentemente de sua confissão de fé. No sistema budista, não há qualquer ênfase em converter as pessoas, o que importa é ajudá-las a perceber mais profundamente as realidades e liberdades em cada situação que vivam e em cada papel com que se identificam. O ensinamento busca produzir a experiência de transcendência, ou seja, a liberdade de criar e estabelecer universos mentais, e também liberdade frente ao criado.
Para ser professor, o indivíduo deve ter ouvido os ensinamentos correspondentes e ter desenvolvido uma certa clareza vivencial sobre os temas. Sem isto, não pode ensinar. Por outro lado, quando a experiência estiver clara, e ele puder falar sobre a liberdade e a visão de que já usufrui, reconhecerá que não é uma sabedoria dele, mas uma característica do próprio Buda. Neste sentido, a pessoa sentir-se-á completamente inseparável do próprio Buda. Surge- lhe a compreensão profunda de que a mente do Buda é igual à mente de todos os seres, e há seres que usufruem disto de forma consciente, outros não.
Assim, surge uma imagem cósmica do Buda como um impulso universal em direção à liberdade e à felicidade, e todos que usufruem disso, dedicando-se a facilitar o acesso dos outros a esta liberdade e felicidade, são completamente inseparáveis do próprio Buda. Não é uma característica ou posse, mas uma condição de liberdade e felicidade. Desta experiência surge a noção de bodisatva — sua visão é ampla, e ele utiliza suas características particulares
como meio de espelhar a natureza de liberdade que é inerente a todos. É como um lago que, justamente por ser um lago particular no espaço e tempo, reflete a natureza ilimitada da lua em sua superfície.