Sabe-se que um determinado montante de dinheiro recebido hoje vale mais do que a mesma quantidade recebida no futuro, isto porque o montante hoje pode ser investido durante um determinado prazo, por exemplo, o tempo de vida de um projecto, recebendo assim ganhos devido aos efeitos do juro. Decorrido este prazo, o valor total real acumulado poderá ser muito superior à quantia inicial. O
montante investido a prazo dará um rendimento real que é avaliado pela quantidade de bens-padrão que este rendimento permitiria adquirir em cada ano. Da mesma forma, o montante recebido no futuro tem menor valor que o mesmo montante recebido no presente, porque perdeu a oportunidade de ganhar juros. Nota-se que o raciocínio anterior é feito para preços constantes, não sofrendo por isso efeitos de inflação. A moeda inflacionada perde poder de compra, logo, os rendimentos obtidos devidos à inflação são enganadores porque o lucro obtido em moeda desvalorizada poderá corresponder a um prejuízo real (Short et al., 1995).
Se investir o valor F0 (€), o qual corresponde ao pagamento realizado no momento actual (t = 0),
durante t anos, o total acumulado ao fim desses anos será Ft, tal como:
tt F a
F 0 1
Onde a (pu) traduz o rendimento real anual do capital. Conclui-se que um pagamento F0 efectuado
hoje equivale a um pagamento (maior) realizado ao fim de t anos. Assim, um pagamento Ft realizado
num prazo de t anos corresponde a um pagamento (menor) F0 efectuado hoje:
t t a F F 1 0No parâmetro F0 é considerado o valor actual (ou actualizado) de um pagamento (ou recebimento)
efectuado num prazo t. A taxa de actualização, parâmetro a, permite transformar para um mesmo instante, pagamentos (ou recebimentos) efectuados em tempos diferentes. Esta actualização é um conceito relacionado com um procedimento aritmético, o qual permite converter um determinado valor, numa dada data, para o valor equivalente noutra data. Possibilita assim a conversão de valores distribuídos, em diversos instantes temporais, em valores actualizados à data presente da análise, sendo expressos na mesma unidade, permitindo aos analistas uma melhor percepção do real valor do dinheiro (Castro, 2011).
A taxa de actualização (ou taxa de desconto) é uma medida que traduz o efeito no valor do dinheiro ao longo do tempo, sendo um parâmetro central no cálculo do Valor Actual Líquido (VAL), discutido noutra secção da presente dissertação. A taxa de desconto traduz a rendibilidade mínima que o investidor exige para investir num determinado projecto, a qual contabiliza o risco inerente ao investimento. A escolha do seu valor é muito importante para qualquer análise económica.
A taxa de actualização é constituída por três componentes (taxas), (IAPMEI, 2001):
1 1 1 2 1
1 T T ti
TA
(3.1)
a) T1: corresponde à remuneração real desejada para os capitais próprios. É normalmente
utilizada a taxa de remuneração de activos sem risco, como por exemplo a taxa de rendibilidade das obrigações do tesouro.
b) T2: Prémio anual de risco. Corresponde à taxa dependente da evolução económica, financeira,
global e sectorial do projecto. Também tem em conta a dimensão do montante total do projecto. Para projectos de centrais eólicas e fotovoltaicas, a taxa de risco é mínima, sendo desprezada nos estudos efectuados na presente dissertação.
c) ti: Taxa de inflação.
As análises económico-financeiras podem ser efectuadas a preços constantes, quando não se contabilizam os efeitos da inflação, ou a preços correntes, quando estes efeitos são contabilizados. É importante utilizar a taxa de actualização correcta quando se efectua análises económicas. Se o fluxo de caixa é a preços constantes, utiliza-se a taxa de actualização real, a qual exclui alterações puramente inflacionárias ou deflacionárias no nível geral dos preços. Caso o fluxo de caixa seja a preços correntes, então utiliza-se a taxa de actualização nominal, a qual tem em conta a inflação e inclui alterações no nível geral dos preços. É possível remover a componente da inflação da taxa de actualização nominal, convertendo-a para taxa de actualização real, através da expressão (Short et al., 1995):
1 ) 1 ( 1 ti tn tr(3.2)
Da mesma forma, é possível incluir a componente da inflação na taxa de actualização real, convertendo-a para taxa de actualização nominal, através da expressão:
1 1
1 tr ti
tn
(3.3)
a) tr: Taxa de actualização real, exclui a taxa de inflação geral dos preços; b) tn: Taxa de actualização nominal, inclui a taxa de inflação geral dos preços; c) ti: taxa de inflação.
Para possibilitar a comparação da avaliação económica de centrais renováveis que iniciaram a sua produção em diferentes momentos, na presente dissertação, todos os valores serão corrigidos pela inflação para um determinado mês/ano. Assim, a taxa de actualização utilizada será real, sem efeitos de inflação. Estes efeitos e a taxa de risco serão também desprezados nos estudos de avaliação económica efectuados, e por isso, a taxa de actualização utilizada para centrais renováveis, que iniciaram a sua produção até à data da presente dissertação, será igual à taxa de rendibilidade das obrigações de tesouro correspondentes à data de início de produção de cada central.
As Obrigações do Tesouro (OT) são das principais ferramentas utilizadas pelo Estado para satisfazer as suas necessidades de financiamento. Estas obrigações são títulos de valores mobiliários de médio e longo prazo, disponíveis para qualquer investidor, a qual pode ter associado uma taxa de juro fixa (IGCP, 2012). Um investidor que aplique o seu dinheiro em títulos de OT, está a emprestá-lo ao estado português em troca de um papel, onde é mencionado o mesmo investimento e os juros que serão pagos
com uma determinada periodicidade, até o momento final do contrato, onde o estado é obrigado a devolver o valor investido. (Produtos Bancários, 2010)
Existem vários tipos de contractos de OT com distintas dimensões. Os que normalmente são usados, como base para o cálculo das taxas de actualização do investimento, são os que têm maior prazo e à taxa fixa. Assim, na presente dissertação, utiliza-se a Taxa de Rendibilidade das OT a taxa fixa, com prazo de 10 anos. Esta taxa é o juro que o estado tem de pagar ao investidor pelo dinheiro emprestado, sendo este fixo até o final do contrato. É possível obter o histórico da taxa de rendibilidade das obrigações de tesouro junto ao portal do Banco de Portugal (Banco de Portugal, 2012).
Fig. 11 – Média mensal da taxa de rendibilidade das obrigações de tesouro a taxa fixa - 10 anos (Banco de Portugal, 2012).
Devido à crise financeira sentida nos últimos anos, a taxa de rendibilidade das OT sofreu um súbito incremento a partir de 2010, como se pode verificar na Fig. 11. Este fenómeno foi fruto da incerteza e instabilidade gerada no mercado da dívida pública, onde se duvidou da segurança das aplicações do Estado Português. A partir de 2012 é notório que a taxa de rendibilidade das OT tem decrescido, o que demonstra uma recomposição da estabilidade do mercado da dívida.
Como a taxa de actualização do investimento está intrinsecamente ligada à taxa de rendibilidade das OT, apenas os investimentos em projectos que aceitassem uma alta taxa de actualização é que obteriam resultados de avaliação económica positivos a partir de 2010. Caso estes projectos não devolvessem este tipo de rendibilidade, seria mais rentável ao investidor aplicar o seu dinheiro em títulos de tesouro. 0 2 4 6 8 10 12 14 16 M é d ia M e n sa l [ % ]