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4. Diskusjonene

4.1 Erkjennelse og kunnskapsproduksjon

4.1.4 Kunstneriske verktøy og forskningsmetoder

No que concerne à cultura nacional brasileira, em que pese a multiplicidade de raízes etnológicas formadoras, bem como a combinação desigual, no território brasileiro, das matrizes indígenas sul-americanas, portuguesas e da África negra – sem contar as influências de imigrantes europeus (não portugueses) e orientais (japoneses e árabes), observada em especial a partir de meados do século XIX, diversos autores lançaram-se ao desafio de traçar

os principais traços culturais do Brasil (DAMATTA, 1986; PRADO JÚNIOR, 1994; HOLANDA, 1995; BARROS; PRATES, 1996; FREITAS, 1997 entre outros).

Para Motta e Caldas (1997), é possível identificar a tripartição predominante nas raízes etnológicas formadoras da cultura brasileira:

Híbrida desde o início, a sociedade brasileira logo incorporou o traço português da miscigenação. Sem a existência de restrições de raças e devido à escassez de mulheres brancas, nosso colonizador logo se misturou à índia recém-batizada, transformando-a em mãe e esposa das primeiras famílias brasileiras. Com o início da escravidão, misturou-se ao negro, completando o chamado “triângulo racial”. (MOTTA; CALDAS, 1997, p. 41)

Holanda (1995) ressalta que a matriz portuguesa foi preponderante no triângulo racial, à qual foram incorporados traços culturais dos demais elementos. Segundo esse autor, de Portugal “nos veio a forma atual de nossa cultura, o resto foi matéria que se sujeitou bem ou mal a essa forma” (HOLANDA, 1995, p. 40). Dessa forma, conforme salienta esse autor, é necessário um olhar mais detido sobre os elementos sociais e culturais advindos do período colonial que, apesar de corresponder a três dos cinco séculos desde a chegada dos portugueses ao Brasil, representou um momento histórico ímpar na formação das instituições de base da sociedade brasileira e cuja herança social, cultural e econômica perpetuou-se aos séculos subsequentes.

No período colonial, a adoção do modelo da grande lavoura, em um primeiro momento, suscitou a institucionalização de uma série de atributos nas relações sociais que se incrustaram à cultura brasileira. Em geral, há a dicotomização, inerente ao núcleo da natureza semifeudal dos engenhos de cana-de-açúcar, entre a família patriarcal, centralizadora do poder na figura do senhor de engenho, e o escravo, marginalizado e oprimido socialmente.

As relações sociais no Brasil, avalia Freitas (1997, p. 46) “surgem com base na força de trabalho escravo, ordenado e reprimido, separado e calado, gerando uma estratificação social e rígida hierarquização de seus atores, estabelecendo uma distância quase infinita entre senhores e escravos”. Esse autor identifica cinco traços culturais principais a serem considerados em uma análise organizacional no contexto brasileiro, apresentados no Quadro 6 a seguir.

Quadro 6. Traços culturais brasileiros a serem considerados em uma análise organizacional

Categoria Definição

Hierarquia  Tendência à centralização do poder nos grupos sociais;  Distanciamento nas relações entre diferentes grupos sociais;

 Passividade e aceitação por parte dos grupos inferiores.

Personalismo  Sociedade baseada em relações pessoais;  Busca de proximidade e afeto nas relações sociais;

 Paternalismo: domínio moral e econômico.

Malandragem  Flexibilidade e adaptabilidade como meio de navegação social;

 “Jeitinho”.

Sensualismo  Gosto pelo sensual e pelo exótico nas relações sociais.

Aventureiro  Atores sociais demonstram comportamento mais sonhador do que disciplinado;

 Tendência à aversão ao trabalho manual ou metódico. Fonte: Adaptado de Freitas (1997).

O modelo aristocrático da família patriarcal, que caracteriza a cultura brasileira com uma significativa desigualdade de acesso ao poder, perpetua-se mesmo após o declínio da grande lavoura e a ascensão dos centros urbanos, ao longo do século XIX. A partir dessa época, os senhores de engenho viram-se obrigados a buscarem novas ocupações, passando a tomar parte do Estado, impingindo à vida política brasileira o reflexo das relações patriarcais de outrora.

Dessa forma, a família patriarcal fornece “o grande modelo por onde se hão de calcar, na vida política, as relações entre governantes e governados, entre monarcas e súditos” (HOLANDA, 1995, p. 85), e que impõem à cultura brasileira uma significativa desigualdade de acesso ao poder. O modelo da “casa grande e senzala”, além da distância de poder e da centralização na figura do senhor de engenho, traz a subordinação e a obediência como facetas marcantes, presentes na cultura brasileira como axiomas morais.

Em complemento à distância do poder, há o personalismo nas relações sociais, decorrente da expansão do modelo do quadro familiar patriarcal. O grupo, em uma visão personalista, torna-se uma extensão da família, sendo que o comportamento interpessoal, segundo Holanda (1995, p. 147), passa a se constituir de “expressões legítimas de um fundo emotivo extremamente rico e transbordante”.

Ao se associarem o personalismo e a concentração de poder, surge o que se nomina paternalismo (BARROS; PRATES, 1996), da seguinte maneira sintetizado por DaMatta (1986, p. 22):

[...] No nosso sistema tão fortemente marcado pelo trabalho escravo, as relações entre patrões e empregados ficaram definitivamente confundidas. [...] O patrão, num sistema escravocrata, é mais que um explorador do trabalho, sendo dono e até mesmo responsável moral pelo escravo. [...] isso embebeu de tal modo as nossas concepções de trabalho e suas relações que até hoje misturamos uma relação puramente econômica com laços pessoais de simpatia e amizade [...]

As relações pessoais, de acordo com Freitas (1997), são ainda marcadas pela afetividade e pela sensualidade, implicando valorização à proximidade e pelo gosto do exótico nas interações sociais. Tal se deve a um passado de miscigenação intensa, do qual fazem parte a poligamia indígena, a libertinagem sexual dos colonizadores, a experiência erótica multirracial, além de manifestações culturais, tais como festas, com forte apelo sexual. Eis que um sensualismo afetivo, muitas vezes não relacionado ao apelo sexual direto, constitui-se em meio de navegação social, expressado pela proximidade física em conversas, por toques e falas carinhosas. Nas palavras de Freitas (1997, p. 52):

Não raro, o brasileiro coloca uma dose de sensualismo em suas relações como modo de navegação social, como maneira de obter o que deseja mais facilmente. Gostamos do contato próximo, de pele, das falas carinhosas e dos olhares atravessados. Nossos bate-papos e conversas cotidianas conservam em suas entrelinhas certo teor de malícia, de sensualismo.

A flexibilidade, a adaptabilidade e a criatividade como modos de navegação social é característica de abordagem recorrente na literatura cultural brasileira. Trata-se de vertente da inadequação da prática social às regras universais, um artifício suavizador das normas impessoais que regem as relações entre atores, um conciliador entre o legalismo e o personalismo, que constitui o traço cultural da malandragem. O “jeitinho”, assim referido por DaMatta (1986), atua como mecanismo de controle social, por suscitar o não questionamento da ordem estrita estabelecida, visto que encontra modos de não a observar.

O profissional do “jeitinho”, na ótica de DaMatta (1986), é o chamado malandro, hábil na navegação social marcada pela adaptabilidade, sem implicar, no entanto, à alteração do status quo. O indivíduo, para Freitas (1997), é frequentemente reconhecido e valorizado em função de sua rede de relações interpessoais. Para Ramos (1983), o “jeitinho” é uma estratégia derivada do formalismo, ou seja, da discrepância entre o comportamento real dos indivíduos em relação às normas que existem para regulá-lo. Barros e Prates (1996, p. 68 – 69) corroboram essa visão, asseverando que a restrição imposta pelas normas, e o seu reconhecimento pelos atores, “resulta em um ajustamento de elementos operativos, criando apenas novos hábitos condizentes com nossa maneira de ser”.

Para DaMatta (1986), é a malandragem que provê uma saída intermediária entre o impessoal e o pessoal, um caminho que se apela quando o indivíduo se depara com leis ou situações universais e homogêneas que ignora sua personalidade. O malandro, segundo Freitas (1997), possui sensibilidade para se relacionar, captando com relativa precisão o perfil psicológico das pessoas e a conjuntura das diversas situações.

A atração pelos ganhos de curto prazo, aliada à falta de planejamento e de esforços metódicos, diz respeito ao traço cultural aventureiro, também com raízes coloniais. Holanda (1995) avalia que os ibéricos apresentam, de modo geral, características do ideal de vida aventureiro, em detrimento do semeador, ou seja, valoriza-se o resultado ao invés do processo de sua consecução, os grandes projetos, a audácia.

O traço aventureiro, ao impingir a busca pela extração do máximo de benefícios com o mínimo de contrapartidas, regeu as atividades econômicas do período colonial, com impactos na exploração impiedosa da terra (HOLANDA, 1995), no esgotamento de garimpos e no saque e captura típicos dos bandeirantes paulistas (PRADO JÚNIOR, 1994). Há, concomitantemente, a desvalorização do trabalho manual e metódico, que passa a ser relegado à classe escrava, formando-se uma classe dominante que empreende com pouco esforço físico. Essa tendência de divisão do trabalho vem a ser consolidada no capitalismo industrial, com a cisão entre quem empreende de modo aventureiro e quem executa as tarefas operacionais.