• No results found

9. Tolkning og diskusjon

9.2. Kultur for fremlegg

Biblioteca pública: princípios e diretrizes traz orientações técnicas e práticas sobre a estrutura física da biblioteca. Numa miscelânea de recomendações que vão desde a construção do prédio, com definições avulsas de materiais a serem utilizados no piso, por exemplo, às sugestões para a guarda do acervo, tendo em vista fatores que contribuem positiva ou negativamente para sua conservação, o documento falha ao não enfatizar que o lay out da biblioteca deve ser construído a partir de um conceito que reflita seus serviços e objetivos, e não apenas de questões práticas e materiais. Além disso, mais uma vez, ignora o contexto das bibliotecas públicas brasileiras, conforme considerações apresentadas acima, numa análise estimada a partir dos dados do Censo Nacional de Bibliotecas Públicas Municipais, realizado uma década após a produção do material analisado, mas com dados que permitem um olhar deslocado no tempo.

Ao abordar as áreas ou espaços que devem compor uma biblioteca, o manual apresenta uma “descrição sucinta”, que espelha a importância que esse ponto tem segundo o documento, do que deve ser cada um deles.

O espaço definido como Leitura de periódicos está assim descrito e recomendado: “Normalmente, alguns usuários, especialmente idosos ou desempregados, só vêm à biblioteca para leitura do jornal, assim esta área pode também ficar próxima à entrada” (FUNDAÇÃO BIBLIOTECA NACIONAL, 2000, p.51). Além de pressupor que aos idosos e desempregados interessam apenas jornais e revistas, o Sistema Nacional de Bibliotecas Públicas não entende

que a biblioteca deve se esforçar para que esse interesse restrito, se real, seja ampliado. Ficar próximo à porta de entrada é também ficar próximo da saída, no caso dessa recomendação tal como está colocada. Independente de onde se localize o espaço para a leitura de periódicos, a restrição desse público a determinado serviço, sem a possibilidade de que a ele sejam oferecidos outros, demonstra o entendimento de leitor na gestão da biblioteca. Apesar da constante preocupação com a escolarização da biblioteca pública, situação em que a instituição se restringe ao apoio às escolas, uma orientação como essa deixa definido a quais públicos os serviços são destinados. Por exclusão, o salão de leitura e pesquisa e o empréstimo de livros são destinados aos estudantes, não aos idosos e desempregados.

São as seguintes as recomendações para a área denominada Infantil:

Localizada o mais próximo possível da entrada da biblioteca, esta área deve ficar o mais longe possível das áreas de maior silêncio, como a área de leitura e de referência. Deve ser o local mais agradável da biblioteca (é na infância que se forma o gosto pela leitura, pela biblioteca e se forma o hábito de utilizar informação), prevendo espaços para trabalhos artísticos, jogos, brinquedos, teatro de fantoches, aparelhagem de som e outros.

Alguns autores consideram que esta área deve ocupar até 50% da área total da biblioteca. (FUNDAÇÃO BIBLIOTECA NACIONAL, 2000, p. 52)

O documento não explica por que o espaço para crianças deve ficar próximo à entrada da biblioteca, presumidamente perto da área para leitura de periódicos, conforme a orientação anteriormente discutida. Como esse espaço, o infantil, deve ficar distante de onde o silêncio é necessário, tudo leva a crer que a leitura de jornais e revistas não pressupõe um espaço sem barulho, o que é bastante questionável. O manual recomenda que o espaço Infantil seja bastante agradável, considerando que é na infância “que se forma o gosto pela leitura, pela biblioteca e se forma o hábito de utilizar informação”. Mas apesar de destacar essa preocupação, as orientações para a construção desse espaço são conflitantes com o que poderia ser um ambiente adequado e acolhedor para a leitura com as crianças que, destacamos, também exige silêncio e tranquilidade. Como ler e convidar as crianças a lerem num espaço que prevê a utilização de aparelhagem de som, realização de jogos e brincadeiras, teatro de fantoches, além de trabalhos artísticos? Não discutimos a pertinência de atividades dessa natureza na biblioteca, o que será feito mais adiante. Porém, é importante que nos perguntemos por que as atividades de leitura com crianças pressuporiam tantos aparatos. Não basta um livro, um leitor generoso, considerando as crianças ainda não alfabetizadas, e as crianças? Se o objetivo é formar leitores, não é a aproximação com o livro que deve ser privilegiada? O jogo e a brincadeira, nesse contexto, não devem vir pela própria leitura, pela

linguagem, pelo ritmo e melodia das palavras, pelas ilustrações? Ao abordar os espaços destinados às crianças nas bibliotecas, a bibliotecária francesa Geneviève Patte, preservando a necessidade dos pequenos de exteriorizar pensamentos e emitir opiniões, ressalta que “uma leitura, uma discussão e uma história demandam concentração e supõem a existência de um espaço reservado e ao abrigo do burburinho do mundo exterior, do vaivém habitual e dos perturbadores eventuais” (PATTE, 2012, p. 321). Destaca, ainda, que “certos arranjos nas bibliotecas podem também, infelizmente, transformá-la numa justaposição de oficinas e clubes que se desenvolvem sem ter nada a ver com a própria vida da biblioteca e da leitura” (PATTE, 2012, p. 321). Assim, é importante que problematizemos a convivência e a utilização de aparelhagem de som e a realização de atividades artísticas num espaço que deve acolher o desejo pela leitura e proporcionar o ambiente calmo e tranquilo para que ela aconteça.

A área Circulante é onde devem ficar os “livros de lazer. Livros de ficção e livros de auto-instrução” (FUNDAÇÃO BIBLIOTECA NACIONAL, 2000, p. 52). Os livros de literatura e de auto-instrução, gênero textual indefinido, são considerados livros de lazer. Nada mais é dito sobre o espaço que abrigará esse acervo que, segundo o Censo Nacional de Bibliotecas Públicas, constitui a maior parte dos acervos das bibliotecas brasileiras e em torno do qual se realiza o serviço mais demandado, isto é, o empréstimo domiciliar. O documento não chama a atenção para o destaque que essa coleção deve receber, tendo em vista o serviço que gera e sua importância na promoção e na valorização da leitura como prática social e cultural, para além de pesquisas e tarefas escolares. Assim, a área da biblioteca que abrigará os livros e revistas de ficção e de auto-instrução (?), recebe do manual, em tamanho e conceituação, a mesma atenção dispensada ao espaço Circulação e Áreas verdes: Plantas e vasos de plantas: uma linha.