5 FELTARBEIDE- CASEPRESENTASJON
5.8 Dialogen starter opp
Ao finalizar este capítulo, retoma-se a análise de como os discursos em torno da imigração contribuem na construção de uma ordem discursiva hegemônica <Mulher Brasileira> em Portugal. Foram analisados discursos de associações de imigrantes (Casa do Brasil, Associação Lusofonia Cultua e Cidadania e Associação Comunidária) e discursos oficiais do Brasil (Conselho de Representantes dos Brasileiros no Exterior) e de Portugal (Serviço de Estrangeiros e Fronteiras e Alto Comissariado para a Imigração e Diálogo Intercultural). Antes de iniciar a análise das práticas discursivas, foi empreendida uma contextualização da imigração brasileira em Portugal, bem como, uma contextualização dos estereótipos em torno da mulher brasileira presentes na mídia e na população portuguesa. Esta retomada no final do capítulo é necessária porque esta Tese constitui-se em uma arque- genealogia, inspirada no modo de operar de Michel Foucault, sendo assim, abarca uma soma de diferentes vestígios discursivos, muitas vezes dispersos.
25 Disponível em: http://www.cicdr.pt/
138
Conforme demonstrado no decorrer do capítulo os discursos sobre imigração (midiáticos, oficiais e de associações de imigrantes) contribuem para a ordem discursiva <Mulher Brasileira> em Portugal, construindo imaginários em torno da “brasileira imigrante” como hipersexualizada, prostituta, disponível sexualmente, bela, alegre, sensual e culpada por qualquer dificuldade enfrentada na sociedade de destino.
A fim de facilitar a percepção dos elementos constitutivos da ordem discursiva <Mulher Brasileira> que emergiram na análise dos discursos de imigração, apresenta-se, a seguir, um quadro síntese, onde são cruzados cada um dos discursos de imigração analisados com cada um dos elementos da ordem discursiva que emergiram no decorrer da investigação. Ressalta-se que esta é a primeira parte do mapa da ordem discursiva <Mulher Brasileira> em Portugal, o qual será completado com a análise dos discursos turísticos e culturais empreendida no próximo capítulo. O quadro foi construído apenas com presença e ausência dos determinados elementos nos determinados discursos e é utilizado apenas para identificar os elementos que mais aparecem nos discursos analisados.
Quadro 3: Síntese do Segundo Capítulo.
Imaginários em torno da “brasileira imigrante” nos discursos sobre imigração. Presença marcada com X e sombreado; ausência em branco.
Discursos Elementos Mídia Portuguesa Oficiais: SEF, CRBE Associações de Imigrantes* Oficiais: ACIDI Hipersexualidade X X X X Prostituição X X X Disponibilidade Sexual Objeto Sexual X X X X
Culpadas pelo preconceito X X X
Não existe preconceito X
Beleza-Corpo X X X
Simpatia – Alegria X X X
Sensualidade X X X
* A Associação Comunidária está excluída deste quadro síntese do discurso hegemônico sobre <Mulher Brasileira> porque representa um contra-discurso, não corroborando estes elementos identificados nos demais discursos.
Neste momento é importante ressaltar a distinção entre os elementos constitutivos da ordem discursiva. Conforme pressupõe a orientação teórica e metodológica foucaultiana, os
139
mínimos detalhes de uma ordem discursiva importam. No decorrer da análise buscou-se perceber em minúcia cada um dos elementos, os quais através de um olhar mais geral podem confundir-se. A beleza, a alegria e a sensualidade remetem a um discurso culturalista que naturaliza estes elementos como constitutivos da cultura brasileira e da mulher brasileira. A prostituição refere-se à ligação direta ao trabalho sexual. A disponibilidade sexual diz respeito a uma suposta facilidade para o sexo com qualquer homem a qualquer momento. A hipersexualidade remete a um desejo sexual bizarro e exacerbado.
Evidencia-se que os elementos “hipersexualidade” e “disponibilidade sexual” são os que mais se fazem presentes, pois são os que emergem em todos os discursos. Isto indica uma forte naturalização destes elementos como constitutivos da <Mulher Brasileira>, reproduzindo imaginários colonais e relações de poder. A brasileira não é apenas bela, alegre e sensual; a brasileira não é apenas identificada com a prostituição. O problema da ordem discursiva sobre a <Mulher Brasileira> é mais profundo, remete a percepção de todas as brasileiras como “corpo colonial” disponível e hipersexualizado. Em seguida, com três ocorrências cada, aparecem os elementos “prostituição” e “culpadas pelo preconceito”, os quais se relacionam inversamente com o elemento “não existe preconceito”. A culpabilização está presente em todos os discursos que evidenciam o preconceito. O único discurso que não culpabiliza as brasileiras é o ACIDI, que é também o único que afirma que não há preconceito. Ou seja, se não há preconceito, não há culpados; se há preconceito, a culpa é das prórpias brasileiras. Assim, percebe-se que o elemento da culpabilização é bastante importante do imaginário de “brasileira imigrante” (analisado neste capítulo através dos discursos de imigração); portanto a culpabilização compõe a ordem discursiva <Mulher Brasileira> (que será percebida na totalidade através da análise de outros discursos no próximo capítulo, os quais complementam os discursos até aqui analisados). Evidencia-se, ainda, que o elemento da prostituição está ausente, também, apenas no ACIDI, o qual ao ressaltar a lusofonia e o luso-tropicalismo, evita abordar os problemas sociais, não mencinando a prostituição e o racismo. Ainda percebe-se que os discursos que culpabilizam as brasileiras também as relacionam com a prostituição.
Os elementos “beleza-corpo”, “simpatia-alegria” e “sensualidade” também aparecem com três ocorrências cada, sendo constitutivos da ordem discursiva <Mulher Brasileira>. Estes elementos apenas estão ausentes nos discursos oficiais mais rígidos que não apresentam um forte enfoque culturalista: o SEF e o CRBE. Ressalta-se que o discurso do CRBE analisado centrou-se na Cartilha de Gênero, a qual reforçou o imaginário de disponibilidade sexual e hipersexualização construindo um discurso moralista sobre as brasileiras. Outros discursos do CRBE possivelmente enfoquem os aspectos culturais que ressaltem a beleza, a
140
alegria e a sensualidade como características do povo brasileiro, mas a Cartilha não apresentou este enfoque.
141