No processo de análise das entrevistas, uma dimensão emergente veio à tona nos relatos dos professores: o papel do aluno frente à dificuldade com o aprendizado da Matemática e à defasagem com os conteúdos básicos da disciplina.
Consideramos importante trazer os achados relacionados a essa problemática, pois, esta questão, acaba tornando-se um desafio para o professor iniciante. Considerando a esta problemática, podemos colocar uma questão: Como formar professores que atuarão na educação básica e que não apresentam os conhecimentos fundamentais da Matemática?
Diante desta questão, percebemos que a aprendizagem Matemática ainda se constitui um desafio, tanto para crianças, jovens e, até mesmo, para professores que estão sendo formados nos cursos de Licenciatura em Matemática e Pedagogia.
Em seus estudos, Gomes (2002, p. 965) relata que muitas mudanças, atualmente vêm ocorrendo e exigem de todos os professores constantes adaptações que, por sua vez, consistem em grandes desafios. Para a autora, “a formação de professores tornou-se alvo de inúmeras discussões. Muitas propostas têm emergido, embora com poucos resultados concretos, sobretudo no que diz respeito à formação Matemática dos futuros professores”.
Em relação aos conteúdos de Matemática, a professora Regina revela uma preocupação pedagógica e destaca que os alunos trazem um bloqueio em relação à disciplina. Esse bloqueio pode dificultar a forma como os futuros professores vão ensinar Matemática.
Então eu acho que a maior dificuldade é como os alunos devem levar essa Matemática lá para frente [...] Acho dificuldade é tirar esse bloqueio que eles têm da Matemática, que realmente é impressionante. Alguns, mesmo depois de estudar 20 ou 30 anos ainda trazem esse bloqueio (Regina).
É importante ressaltar que os alunos chegam à faculdade com esse bloqueio matemático que, provavelmente, está relacionado com toda uma construção social que se faz sobre a Matemática. Historicamente, esta disciplina é demarcada como difícil e por isso eles já chegam com esse medo.
Na maioria dos cursos de formação de professores, sobretudo, os de Pedagogia, são evidentes a resistência e a fobia em relação à Matemática. (GOMES, 2002). Para a autora, os alunos apresentam lacunas no domínio dos conceitos matemáticos fundamentais para o dia a dia.
O professor Daniel ao ser questionado sobre o trabalho no curso de Pedagogia referente aos conhecimentos matemáticos relata trabalhar em três eixos: conteúdo, didática e currículos. Para o docente, os alunos não conhecem os conteúdos básicos de Matemática, e isso dificulta o aprendizado, pois considera que esses discentes os já deveriam saber esses conteúdos.
Para ensinar os conteúdos de Matemática aos alunos de Licenciatura em Pedagogia, não levo em consideração apenas os conteúdos conceituais, mas estruturo o ensino em três eixos, que são trabalhados conjuntamente. São os conteúdos, a didática da Matemática e o currículo [...] Não ensino o conteúdo propriamente dito, até porque é baseado nas quatro operações fundamentais, conhecimento que eles já deveriam dominar. Apesar disso, os alunos apresentam muitas dificuldades com o conteúdo matemático das quatro operações fundamentais, o que dificulta bastante a compreensão da didática (Daniel).
A questão trazida pelo professor Daniel é muito importante, pois se trata da formação inicial do aluno, ou seja, ele não aprendeu Matemática como deveria na educação básica. Será que a “falta” de aprendizado está relacionada ao “pânico” apontado anteriormente pela professora Regina? Ou está relacionada à formação do professor formador?
A parte dos problemas referentes ao ensino de Matemática está relacionada ao processo de formação do magistério, tanto em relação à formação inicial como à formação continuada. Decorrentes dos problemas da formação de professores, as práticas na sala de aula tomam por base os livros didáticos, que, infelizmente, são muitas vezes de qualidade insatisfatória. Por sua vez, a
implantação de propostas inovadoras esbarra na falta de uma formação profissional qualificada, na existência de concepções pedagógicas inadequadas e, ainda, nas restrições ligadas às condições de trabalho (BRASIL, 1997).
O relato da professora Regina corrobora o professor Daniel no sentido de que os alunos não sabem os conteúdos básicos de Matemática e, isso, torna-se um agravante para a compreensão do conteúdo matemático.
A professora Regina aponta mais uma vez para a problemática do ensino da Matemática nas séries iniciais. Isso nos leva a uma questão: Como os futuros professores que não sabem conteúdos básicos, ensinarão Matemática nas séries iniciais e/ou afins?
Bom, quando eu penso em trabalhar os conteúdos de Matemática na Pedagogia, penso em ensinar o que os futuros professores vão ensinar aos alunos nos anos iniciais [...] Tenho percebido que, muitas vezes, os alunos não sabem conteúdos básicos de Matemática, e que eles certamente irão ensinar às crianças (Regina).
Um fator importante a ser destacado é que, para os professores que atuam nos dois cursos de licenciaturas em Matemática e Pedagogia, muitas diferenças, em relação aos conteúdos básicos de Matemática são identificadas nos alunos.
A professora Regina enfatiza que, na Pedagogia, existe mais angústia em relação ao conteúdo matemático:
Em relação à diferença dos alunos, eu não percebo muitas diferenças, pois os dois formam professores. Só em relação aos alunos da Pedagogia, eles têm mais angústias em relação à aprendizagem dos conteúdos de Matemática (não é dificuldade, e sim receio por não terem aprendido na escola e acharem que não vão mais aprender) [...] É preciso conhecer seu público, entender as necessidades dele e saber escutar os alunos (Regina).
De acordo com o comentário de Regina, vale lembrar que a educação é um processo de aprendizagem que envolve professor-aluno, como parceiros de uma caminhada que leva em conta a formação pessoal e profissional, visando a
uma educação que, de fato, seja inclusiva, que respeite a diversidade dos alunos e tenha como princípio que o acesso à educação é direito de todos.
Vale ressaltar que a presente pesquisa analisa o professor de instituições privadas, e é importante lembrar as características desse público. Dados do INEP/MEC apresentam que o aluno das instituições privadas pertence ao grupo beneficiado por uma política de maior acesso da classe C aos bens materiais e sociais, dentre eles, o acesso ao ensino superior, a chamada nova classe média. Nos últimos 10 anos, o número de universitários no País cresceu 77,1% e, hoje, 67,7% desses estudantes são oriundos das classe C e E. Muitas vezes, esse aluno chega à universidade com déficit de aprendizagem específico no que se refere aos conteúdos de Matemática.
Na visão do professor Daniel, o que existe é a diferença de conteúdo. No caso do curso de licenciatura em Matemática, existem alguns conteúdos específicos que não são desenvolvidos nos cursos de licenciatura em Pedagogia.
Nesse curso, há o oferecimento da disciplina de metodologia para o ensino da Matemática; no curso de Licenciatura em Matemática, existem conteúdos específicos, como Álgebra e Geometria.
O professor também tem clareza que independente dos conteúdos, ambos os cursos formam professores que irão lecionar Matemática.
Tanto na Licenciatura em Pedagogia como na Licenciatura em Matemática têm a disciplina de Metodologia para o Ensino de Matemática, que acredito que a diferença se refere apenas aos conteúdos pertinentes a cada modalidade de ensino (Educação Infantil, Ensino Fundamental e EJA, no caso da Licenciatura em Pedagogia e Ensino Fundamental II e Ensino Médio no caso da Licenciatura em Matemática [...] Fora isso, não vejo diferenças, pois ambos os cursos formarão professores que ensinarão Matemática [...] Enquanto no curso de Licenciatura em Matemática existem disciplinas que vão ensinar conteúdos, como Álgebra, Geometria e outros; no curso de Licenciatura em Pedagogia não existem disciplinas para ensinar conteúdos Matemáticos. Talvez aí resida a diferença, mas na minha concepção de educação e no processo de ensino e aprendizagem, não existem diferenças (Daniel).
Ao considerarmos o aluno que se recebe nos cursos de Licenciatura e Pedagogia devemos levar em conta a preocupação com a atuação didática. O professor Wander relata não ter muitos problemas, pois mantém-se sempre atualizado.
Eu não sei se é muito conteúdo, porque a gente procura sempre estar se atualizando. Como estou fazendo o doutorado estou em constante atualização em relação ao conteúdo. Até mesmo o conteúdo matemático, a gente acaba indo atrás dessas questões (Wander).
A docência é uma atividade complexa que exige uma preparação para sua atuação. No depoimento do professor Wander, o papel da atualização e da continuidade dos estudos que, nessa profissão, marcada pela complexidade de situações e de sujeitos presentes na sala de aula necessita ser cada vez mais constante.
O professor Wander considera que as diferentes características dos alunos são fatores importantes a serem avaliados e trabalhados em sala de aula. O professor demonstra ter clareza sobre os novos alunos que têm adentrado às salas de aula do ensino superior e a importância de sanar as dificuldades trazidas por esse grupo.
Porque a cada ano os alunos chegam diferentes. É lógico, isso é obvio, eles vão chegar diferentes, e a gente espera que eles cheguem diferentes. É até bom e as dificuldades estão aí. Aqui nós temos alunos que têm bastante dificuldade no conteúdo matemático. Então, a gente tenta sanar as dificuldades do conteúdo, porque eles não poderão tê-las, quando forem atuar em sala de aula (Wander).
Esta questão trazida pelo professor Wander, sobre os novos alunos e a relação com os conteúdos, mostra-se importante, uma vez que “saber o conteúdo não implica ser bom professor, pois, se não houver conhecimentos sobre como o aluno aprende, de que maneira agir para facilitar tal aprendizagem, o domínio do conteúdo torna-se insuficiente”. (GOMES, 2002, p. 371)
Este apontamento da autora supracitada é muito pertinente, pois, o mais “problemático é o como ensinar para promover aprendizagem profunda entre os alunos com diferentes backgrounds” (VALENZUELA; BARNETT, 2013, p. 893).
É importante constatar que a trajetória escolar dos alunos que cursam a licenciatura nas duas instituições foi feita em escolas públicas e apresentam também diferenças culturais e ausência de conhecimentos científicos. Referente ao aluno que ingressa na licenciatura, Gonçalves relata:
São alunos de rede pública, quando não pagaram seus estudos ao terminar o ensino médio, acabam de modo geral, por concorrer aos cursos de menor procura e considerados de menor “status”. Entre estes, estão, na sua grande maioria, os cursos de licenciaturas [...] a grande maioria dos estudantes da licenciatura é oriunda das escolas públicas, com formação científica e cultural deficitária. (GONÇALVES, 2000, p. 19)
O perfil desse aluno que chega à licenciatura, acaba por se tornar um grande desafio para o professor iniciante no desenvolvimento de sua atividade docente, pois precisará lidar com essas dificuldades e encontrar formas para que o aprendizado ocorra de modo significativo para o aluno.
Podemos inferir que, enquanto a formação básica não for de qualidade, futuramente as dificuldades ficarão ainda mais evidentes na vida do estudante.
E, na graduação, seja na Licenciatura em Matemática ou em Pedagogia, fica mais difícil realizar uma revisão do que o aluno não aprendeu.
Os depoimentos dos sujeitos da pesquisa mostraram a consciência que os professores iniciantes têm de seus saberes e limitações para atuarem, como bons profissionais para um ensino que considere essa realidade.
É importante salientar que é responsabilidade das instituições de ensino modificar seus cursos, pois a formação vem mostrando-se distante da realidade específica do contexto escolar, ficando assim reduzida a discussão das questões teóricas, sem ter como alicerce a relação teoria/prática.
C
ONSIDERAÇÕES
F
INAIS
Ao tecer as considerações finais deste estudo, não posso deixar de expressar que não tenho a pretensão de esgotar aqui as reflexões sobre o tema. Dessa forma, considero esta pesquisa com a perspectiva de que é imprescindível mudanças no cenário atual da formação de professores.
O estudo desenvolvido põe em discussão os desafios e as dificuldades expressos pelos professores ao se verem diante da iniciação docente no Ensino Superior.
Considero importante retomar as questões iniciais do projeto, que direcionaram o trajeto percorrido: Quais as dificuldades e desafios vivenciados pelos professores de Matemática em início de carreira no ensino superior? Que estratégias os docentes utilizam para os desafios enfrentados?
Os sujeitos que participaram deste estudo foram três professores formadores que atuam nos cursos de Licenciatura em Matemática e Pedagogia. Eles estão em início de carreira e possuem até 5 anos de exercício nesse nível de ensino, independentede possuírem ou não experiência em outros níveis.
Diante das informações obtidas, posso argumentar que os desafios e as dificuldades dos professores entrevistados foram semelhantes nos primeiros anos da docência, mesmo com a diferença no tempo de atuação de cada profissional.
Após várias leituras dos dados, foram elaborados seis eixos de análise com a finalidade de identificar as principais dificuldades e desafios que o professor de matemática em início de carreira enfrenta no ensino superior. Dentre
Dificuldades, Dificuldade com conteúdos matemáticos, Insatisfação no exercício da docência, Socialização: apoio ao professor iniciante e Papel dos alunos frente à dificuldade com a Matemática: uma dimensão emergente.
Durante as entrevistas, os docentes comentaram que a forma de ingresso no ensino superior ocorreu por meio de convite. Entretanto, a atuação inicial desses formadores foi marcada por muitas tensões, demonstradas pela angústia e insegurança na atividade docente, mesmo quando possuíam conhecimento do campo específico de sua formação.
No início da carreira, conforme evidenciaram os dados da pesquisa, o professor vai se constituindo de forma isolada ao se deparar com os desafios que se apresentam nessa fase da docência.
Com base na análise dos depoimentos dos professores entrevistados, posso mencionar que as principais dificuldades enfrentadas no início da carreira docente referem-se à ausência dos conhecimentos básicos da Matemática demostrada pelos alunos, seguida pela falta de experiência dos professores no ensino superior e pelo trabalho solitário desenvolvido.
Os professores declararam que sua maior dificuldade é lidar com os alunos que chegam à licenciatura com defasagem dos conhecimentos básicos da Matemática. Ressaltam que estão buscando alternativas para sanar as defasagens dos discentes, como por exemplo, fazendo a revisão dos conceitos do ensino básico e atendimento individual para tirar dúvida. Assim, com estas alternativas, os professores tentam investir em uma melhor compreensão dos conteúdos abordados.
Discutir esta problemática da defasagem de conteúdos dos alunos, é muito importante, pois, estes futuros professores, atuarão na educação básica, com o agravante de não dominarem os conteúdos básicos de Matemática. Sabendo que o ensino básico é um alicerce da educação, as falhas nessa fase da vida, provavelmente, resultarão cada vez mais em jovens com defasagem de conteúdos matemáticos.
de formadores de professores, de seus saberes e limitações para atuar como bons profissionais. Entretanto, diariamente, deparam-se com o desafio de repensar sua prática em sala de aula, e suas iniciativas individuais, como por exemplo, sanar as dificuldades dos futuros professores não é um projeto proposto pela instituição.
Neste estudo, podemos constatar que a necessidade formativa foi revelando os docentes que demonstraram preocupação com seu desenvolvimento profissional e revelaram a necessidade de atualização constante.
A dificuldade com o processo de adaptação revelado como difícil e solitário, e as alternativas encontradas para enfrentar alguns desafios evidenciaram o pouco envolvimento das instituições com a questão. Os iniciantes mostraram-se ficar mais à vontade com os amigos experientes, a quem recorrere nos momentos de dúvidas e de esclarecimentos.
Um dado preocupante trazido pelos dados analisados refere-se às próprias dificuldades desses iniciantes em relação ao conteúdo que ministram. Reconhecem que sentem dificuldades e evidenciam a distância entre a formação e a prática. Diante disso, pode-se alertar para o processo de formação que é necessário para o professor que atua no ensino superior, e, especialmente, para aos professores que são formadores dos professores da escola básica. Programas ou políticas de formação voltadas a esses formadores e que estejam fortemente alicerçadas na teoria e na prática mostram-se urgentes nesse momento.
Outro indicativo trazido pela pesquisa refere-se ao regime de contrato trabalhista nas instituições analisadas. Podemos constatar o fato de serem horistas e receberem os vencimentos somente pelas aulas dadas, sem apoio financeiro para reuniões de pesquisa ou de formação continuada, também trazem impactos à atuação desses docentes.
Outro aspecto importante a ser aprofundado referiu-se ao papel das instituições de formação de professores, no sentido de que programas de inserção do docente iniciante sejam voltados à valorização dos professores com o
oferecimento de formação continuada e que lhes permita o desenvolvimento profissional.
Os desafios, dificuldades e problemas apontados pelos docentes traduzem, assim, a necessidade de maior ênfase no preparo, no que se refere a aspectos didático-pedagógicos. Dessa forma, no contexto da formação dos docentes em início de carreira no ensino superior, é essencial que as instituições de ensino superior reflitam sobre a formação pedagógica dos docentes, sempre enfatizando compreender os processos que os docentes vivenciam para construir saberes para o ensino.
Esperamos que este estudo conduza a novas pesquisas que envolvam os professores formadores dos cursos de Licenciatura em Matemática e Pedagogia, e que este tenha sido uma contribuição para a área.
R
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