4 CHAPTER 11-PROSESSER I MØTE MED KKL. § 163
4.6 Kravet om gjensidighet («resiprositet»)
4.6.2 Kravet til åpningsstatens «anerkjennelse»
Duas casas adiante, batemos palmas na residência de D. Vanda. Sem obter resposta, Lúcia abriu o portão, no qual havia um cadeado fechado em falso. Um pequeno corredor de cimento nos levou direto à porta de entrada, a qual estava entreaberta. Lúcia bateu na porta e já foi colocando a cabeça no vão que se formara com o batente, pois me disse que a usuária não saia da cama e, portanto, não tinha como vir nos receber. De fato, D. Vanda estava deitada em uma cama de casal disposta no meio da sala, ainda de camisola, ouvindo músicas que vinham de um aparelho de som antigo contíguo ao televisor, ambos colocados sobre uma mesa de madeira velha e descascada, logo atrás da porta. Ao lado da cama, havia um criado-mudo que continha meio copo com água, um pacote de biscoito maisena pela metade e uma sacola de supermercado repleta de medicamentos: antibiótico para uma inflamação na bexiga, anti-hipertensivo, neuroléptico, antiinflamatório, e diversos remédios para dor, entre eles, um derivado da morfina.
A usuária tivera um acidente vascular cerebral (A.V.C) que deixara como seqüela a imobilização do lado direito de seu corpo. Além disso, fora diagnosticada há alguns meses com um câncer de intestino e, dois dias antes, iniciara um tratamento para uma inflamação na bexiga. Na guia da UNICAMP que D. Vanda nos entregou estavam agendadas 33 sessões de radioterapia. Em folha anexa, o horário que a Van da Prefeitura Municipal viria pegá-la, diariamente, até o término das sessões. Em decorrência desse quadro, sua vida resumia-se àquele aposento. Até mesmo suas roupas estavam em uma espécie de prateleira improvisada no canto da sala. Levantava-se da cama apenas para ir ao banheiro e, ainda assim, com muita dificuldade. Ela havia pedido para que um vizinho adaptasse um pedaço de ferro para fazer barras nas paredes entre a sala e o banheiro e, recentemente, havia colocado um grande bambu próximo ao chuveiro, para que pudesse se apoiar ao tomar banho. Aliás, era também com uma vizinha que ela contava para arrumar sua residência e fazer companhia de vez em quando. “É uma moça muito boa; às vezes ela me traz até um prato de comida prá comer”.
Mas, naquele momento, o grande problema de D. Vanda referia-se à alimentação. Sua nora, quem residia a cerca de cinco quadras dali, ficara de preparar suas refeições. Entretanto, com a prisão do marido e uma gravidez inesperada, ela descuidara da obrigação, deixando a responsabilidade para o outro filho da usuária. Este, esquizofrênico e alcoólatra, levava, vez ou outra, algum salgadinho de bar. Todas essas informações eram dadas pela usuária intercaladas com exclamações: “Mas, eu estou bem, não se preocupe”. Só viemos a saber da real situação de D. Vanda quando, já de saída, ela timidamente “confessou” que vinha sentindo uma forte dor de estômago há alguns dias. A agente Lúcia retrocedeu alguns passos e, mediante breve interrogatório, viemos a descobrir que a usuária vinha passando fome há, pelo menos, cerca de dez dias. O único alimento que ela tinha em casa era o biscoito maisena. Havia três meses que ninguém ia buscar sua cesta básica no CRAS, pois essa era uma incumbência do filho que havia sito detido. Assim, a dor de estômago de D. Vanda era fome associada à medicação. A usuária estava nos pedindo desculpas por estar faminta e eu já estava me contendo para não deixar escorrer umas insistentes lágrimas.
Ao sair da casa, disse para Lúcia que iria naquele instante comprar uma cesta básica no supermercado que distava dali apenas algumas quadras. E lembro-me dela ter sido muito firme comigo: “Ju, nós vemos isso todos os dias e, realmente, é de partir o coração. Mas se você der uma cesta hoje, amanhã terá fila na USF procurando por você. Temos outros meios de conseguir isso. Vamos acionar a rede que temos à disposição. Em último caso, se nem o CRAS e nem a Igreja resolver o problema, aí sim veremos o que fazer, ok?”. A agente fez anotações em sua prancheta e assim que chegou à USF entrou em contato com a assistente social, quem afirmou que as cestas de D. Vanda ficaram disponíveis por três meses consecutivos sem que ninguém fosse buscá-las e, seguindo o protocolo, ela havia, por esse motivo, sido descadastrada do Programa. Após as explicações da agente, Rosinha lhe informou que a cesta estaria novamente à disposição desde que alguém se comprometesse a ir buscá-la. O técnico de enfermagem da Unidade, penalizado, resolveu, imediatamente, ir de carro buscar e entregar a cesta para a usuária.
Neste caso, o que ficou mais explícito foi o papel da ACS não apenas enquanto interventora, mas também como interlocutora de uma usuária que, dada a sua fragilidade física e emocional, não se encontrava em condições de reivindicar nada. Percebemos que ao trabalhar com um conceito ampliado de saúde, a Estratégia de Saúde da Família acaba por pressupor ações que extrapolam os limites restritos do setor saúde e procuram estender-se em redes de apoio “intersetoriais”. Como vimos no capítulo anterior, essa malha institucional do
PSF na Praia Azul é ainda muito limitada, mas suficiente para resolver casos como o de D. Vanda, pelo menos no que se referia a sua alimentação.