4. O MRÅDE BESKRIVELSE
4.4 N ATURRESSURSER
4.4.2 Koraller
O conceito de depressão no contexto da nossa problemática remete-nos para o que está definido e aceite a nível mundial no seio da psiquiatria, ou seja, é uma perturbação de humor caracterizada por sintomas como apatia, tristeza, irritabilidade, múltiplas queixas somáticas, ideias agressivas e perda de interesse. Alguns dos aspectos desta doença que causam impacto são: a elevada frequência na população e o caminho traçado para a cronicidade; a cormobilidade com outras problemáticas psiquiátricas; e a forte associação a problemas físicos (A. Maia, 2001).
Contudo, na nossa sociedade a palavra depressão pode adoptar vários significados referindo-se a um estado normativo transitório ou estado de humor, a um sintoma que pode estar relacionado com uma patologia crónica ou então a um síndrome ou uma desordem severa.
É uma doença aceite e banalizada pelos mass media, assunto trivial em diversos círculos, sentida por qualquer um de nós ou por alguém que nos é próximo.
Mas afinal o que é uma depressão, como podemos identificá-la e qual a sua gravidade? A sua identificação tem sido explorada segundo duas organizações: a Organização Mundial de Saúde através da Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados com a Saúde (1992) - na sua décima revisão (CID- 10) e a Associação Americana de Psiquiátrica com o Manual de Diagnóstico e Estatística das Perturbações Mentais (DSM-IV) (1994).
No CID-10 as perturbações depressivas estão enquadradas nas perturbações de humor e subdividem-se em episódio depressivo leve, moderado ou grave e ainda perturbação depressiva recorrente ou transtorno persistente de humor. No DSM –IV, igualmente agrupada nas perturbações de humor, dividem-se em quatro grupos, perturbação depressiva major (mais associada a factores do foro biológico logo, mais receptiva a tratamento psicofarmacológico), perturbação distímica (sujeita a alterações biológicas e factores psicossociais logo, com prognóstico mais reservado pois as condicionantes promotoras de um novo episódio são várias e difíceis de controlar), perturbação depressiva sem outra especificação e finalmente outras depressões (aqui incluem-se as depressões pós-parto, sazonais, pré-menstruais). Em ambas as classificações a sua duração pode ser episódica, recorrente ou crónica. Em qualquer um dos casos conduz a uma diminuição acentuada da capacidade funcional e uma marcada desmotivação e tristeza. De forma sucinta, o quadro n.º 1 explana claramente os componentes afectados e os sintomas a eles associados.
Quadro n.º 1
Sintomas da depressão (adaptado de Wilkinson, 1989)
Humor Pensamento Impulso Físicos Julgamento
- Tristeza - Infelicidade - Melancolia - Desespero - Ansiedade e tensão - Falta de prazer - Falta de satisfação - Falta de afecto - Choro - Humor débil - Mau feitio - Irritabilidade - Desvalorização -Défice de memória - Perda de interesse - Perda de auto- estima - Sensibilidade excessiva - Sentimento de inadequação - Sensação de apatia - Sensação de futilidade - Incapacidade de adaptação - Dificuldade em tomar decisões - Vergonha - Desespero - Auto-censura - Lentificação motora e incapacidade para se concentrar - Desejo de fuga - Evitamento - Sensação de rotina - As actividades parecem fastidiosas ou sem sentido - Desejo de refugiar -Rituais compulsivos - Obstipação - Sensação de esgotamento - Cansaço - Dores contínuas - Dores agudas - Perda de apetite - Perda de peso - Perturbações do sono - Perda do desejo sexual - Fadiga - Incapacidade para se relaxar -Sintomas autonómicos - Agitação - Ideias delirantes: tipicamente de culpa, desvalorização ou niilismo e de hipocondria. -Alucinações: tipicamente auditivas, de alguém que fala ao doente, de conteúdo negativo.
Todavia, a noção de depressão pode ser explorada noutras vertentes, tal como a desenvolvida por S. Freud nas suas obras Introdução ao narcisismo (1914) e Luto e Melancolia (1917). Para este autor o indivíduo está preso à imagem do objecto perdido, sendo esse objecto o próprio ego. Portanto a perda melancólica é narcísica, na medida em que as perdas afectivas produzem um vazio no mundo psíquico da pessoa. Nesta linha de pensamento analítico J. Bowbly (1985:258) distingue tristeza de depressão, a primeira como uma reacção normal e saudável mediante qualquer infortúnio e a segunda como um estado de espírito ocasionalmente experimentado pela maioria das pessoas, em que há desorganização de comportamento contudo esta é potencialmente adaptativa.
Ou então, numa óptica sociológica e fazendo uso das palavras de Wilkinson et al (2003:131) a depressão é “o resultado de uma estrutura social que priva o indivíduo,
com certos papéis na vida, do controlo do seu destino. Esta concepção atende a processos como a urbanização, a influência da classe social, o grupo racial, o ambiente étnico e forças políticas e económicas na causalidade da depressão e que fornece uma explicação para o aumento das taxas de perturbações mentais em certas populações como o das mulheres da classe trabalhadora”.
Esta definição enquadra-se na abordagem da rotulação social sugerida por C. Helman (2003:229), defendida pelos sociólogos relativamente ao aparecimento das doenças mentais, ou seja, é a sociedade que decide quais os sintomas ou padrões de comportamentos desviantes ou como aquele tipo de desvio pode ser designado de doença mental.
Esta panóplia de concepções permite-nos reconhecer as dificuldades existentes nas questões que envolvem a definição de uma etiologia e identidade nosológica única para a depressão. Esta parece ser uma missão árdua e impossível, com desfecho em aberto, pois pertencendo a depressão ao universo psicossocial, é influenciada por este e vice-versa, construindo-se desta forma significados e representações colectivas, próprias de cada uma das culturas mundiais.
O desenvolvimento de uma nova área de investigação designada de psiquiatria cultural, assenta os seus picos de pesquisa em três pilares: estudos transculturais, crítica cultural teórica e prática e estudos da população migrante e variações culturais. Esta última vertente tem tido um desenvolvimento acrescido, em consequência das constantes migrações a que o nosso planeta tem estado sujeito.
Quando se aborda estudos de teor cultural, o nome de Arthur Kleinman é referência obrigatória na medida em que foi o responsável pelo enquadramento cultural de noção de doença. O focus da sua pesquisa era compreender a doença na perspectiva das características culturais de cada população e mais em concreto como eram manifestados e expressos os sintomas. Foi identificado como denominador comum a tendência para a somatização perante conflitos psicossociais. Outros factores tais como, a capacidade de expressão verbal, a literacia, a comunicação não-verbal, o vocabulário mais ou menos rico em terminologia, são reconhecidos como extremamente influentes na descrição das doenças e na elaboração de um diagnóstico correcto.
Contribuiu de forma significativa para as investigações sobre a depressão ao concluir que esta reúne características, tanto universais como especificas, de uma dada cultura. A. Kleinman em muitos dos seus livros utiliza a China (país onde desenvolveu alguns dos seus estudos na década de 80) como meio de comparação entre culturas. Por
exemplo neste país o diagnóstico de depressão raramente é utilizado, a doença mental representa um estigma profundo para o indivíduo e para a sua família. Contrariamente à cultura norte americana que intitula de depressão o mesmo conjunto de sintomas (sentimento de tristeza, exaltação, ansiedade e medo).
A psiquiatria americana baseia-se fundamentalmente na abordagem biológica na justificação da depressão. Contudo, e pela evidência da impossibilidade de dissecar a cruzamento do biológico e do cultural, na última revisão do DSM-IV observa-se uma pequena abertura ao factor cultural, constatada com a seguinte passagem “a cultura pode influenciar a experiência e a descrição dos sintomas da depressão. A atenção à especificidade das condições culturais e étnicas pode diminuir os riscos de erros de diagnóstico” (2000:353).
C. Helman (2003:237) diz que o aparecimento desta sintomatologia é “particularmente uma característica da apresentação clínica da depressão, do sofrimento e da infelicidade pessoal. Nesses casos, as pessoas deprimidas geralmente queixam-se de uma série de sintomas físicos difusos e frequentemente mutáveis, tais como “cansaço o tempo todo”, dor de cabeça, palpitação, perda de peso, tontura, “dores por todo o corpo” e assim por diante”.
Como tal é particularmente complexo definir a depressão sustentada única e exclusivamente na vertente biológica, uma vez não ser possível classificar e quantificar o sofrimento humano da mesma forma em todas as partes do mundo.
A própria evolução da modernidade tem enfatizado a concepção do triunfo da cultura sobre a natureza (C. Levi-Strauss, 1967). Os seres humanos incorporam a cultura em que vivem, a maior parte das vezes inconscientemente.