6. Presentasjon av resultater og analyse
6.4. Kontraktør 1
Fradique Mendes pode ser caracterizado como um heterônimo de Eça de Queiroz, pois as semelhanças ideológicas são afins e essa personagem é o reflexo da própria trajetória tanto existencial quanto psicológica de seu criador. Como no momento de sua criação Portugal passava por momento de depressão instaurado no país, que causou a instabilidade e a alternância do poder, é possível observar na personagem valores sociais relacionados à cultura e aos costumes da nação.
O primeiro Fradique, segundo Reis (1999, p.46), era caracterizado pelas “influências baudelairianas, tendências decadentistas, referências exóticas, dandismo, etc”, no entanto, o que o autor queria ressaltar era a autonomização definida como “consequência imediata dessa mistificação de recorte romântico a que aludimos e que desde logo decorre dos termos em que Fradique Mendes é apresentado” (REIS, 1999, p.46). Há que se considerar que Eça, na primeira criação (1869/70), ainda estava sob os efeitos do cenáculo e da boemia
compartilhada com Batalha Reis, cujas atitudes de transgressão e subversão do cenário português eram frequentes. Se no primeiro Fradique havia a efervescência juvenil e os entusiasmos românticos, no último havia o ocaso naturalista; além disso, Eça já havia firmado, junto ao público, sua imagem marcada pela crítica às instituições e pela consolidação de uma literatura que buscava a transformação. Ademais, esse Fradique está intimamente ligado à redescoberta de horizontes estético-literários, alheios ao naturalismo.
Ao retomar as cartas escritas por Eça a Oliveira Martins, Reis (1999, p. 49) aponta que nelas Eça se preocupou em “acentuar o que existe de novo nesse Fradique meio ressuscitado, meio reconstruído: o vigor do temperamento, a originalidade do pensamento, a requintada sensibilidade”. Não se trata apenas de recuperar o que já existiu, mas sim de, além de editar a correspondência, fazer uma apresentação a ela, ou seja, um estudo prévio da personalidade em questão. Eça não quis apenas insistir na existência real de Fradique Mendes, mas reforçar estes efeitos com a proposta de um estudo crítico anterior a sua correspondência. O que ele almejou mesmo foi apresentar “uma reflexão operada num registro não literário, porque se não deseja confundir Fradique com uma personagem de ficção” (REIS, 1999, p. 50). Primeiramente, ele insinuou a existência real de Fradique, depois a reafirmou e a estabeleceu.
Ao atribuir a ficcionalidade a Carlos Fradique Mendes, Eça desestabeleceu o processo de heteronímia, no entanto, ao atribuir-lhe realidade, corpo, movimento e vida, o projeto semi-heteronímico se esboça. Eça, no terceiro Fradique, preocupou-se em criar alguém muito além de uma personagem de ficção, alguém que possuísse componentes biográficos e também atividade literária própria. „Memórias e Notas‟ revela uma contribuição à configuração do projeto heteronímico, pois ao atribuir uma biografia pormenorizada a Fradique, fica explícito o fascínio e o encantamento do narrador para com a personagem, revelando a voz de Eça de Queiroz no discurso textual.
Outro fator que corrobora o plano de dar a Fradique Mendes uma existência real são os testemunhos de pessoas vivas sobre sua vida, testemunhos esses que possuem uma validação autoritária, visto a fonte da qual provêm: Oliveira Martins, Ramalho Ortigão, Guerra Junqueira, Carlos Mayer, Antero de Quental, ou seja, pessoas de ilibada e notória capacidade crítica lançaram sobre essa personagem testemunhos diversos e positivos. Numa proporção pormenorizada, os testemunhos desfavoráveis sobre Fradique Mendes provêm de J. Teixeira de Azevedo (Batalha Reis), sendo em menor quantidade e um tanto precários.
Segundo Carlos Reis (1999), o poeta das Lapidárias possui dimensão plena e entidade heteronímica. Desse modo:
[...] a sua proclamada independência intelectual constitui, afinal, uma característica de certo modo genérica que convida a colocar a questão que neste momento se impõe: o Fradique-escritor (faceta, que como sabemos, primeiro do que qualquer outra fascinou o seu amigo-biógrafo) possui a estatura necessária para se impor como interlocutor-heterónimo de um Eça- ortónimo? (REIS, 1999, p. 52).
Fradique foi um escritor inédito, relegando à Libuska os seus manuscritos que, segundo ele, não foram publicados devido a sua preocupação com a forma. No entanto, foi Eça quem publicou as suas cartas, o que motivou Carlos Reis a chamá-lo de “narrador- biógrafo-editor”. Portanto, o projeto heteronímico não se concretiza, visto que não há produção literária de Fradique Mendes, a não ser as correspondências.
Por aqui se vê que a frustração do projecto heteronímico acaba por se dever não tanto a deficiência ou limitações das cartas em si mesmas, mas sim a uma ausência inquietante que paira silenciosamente sobre a personalidade de Fradique aos (poucos) textos que dele são publicados: a ausência dessas obras (desconhecidas ou inexistentes) que teriam revelado a verdadeira dimensão estética e ideológica do Fradique escritor; sem o ser de papel de interlocutor-heterônimo de um Eça-ortónimo (REIS, 1999, p. 54).
É sabido, segundo Reis (1999, p. 54), que para se concretizar a heteronímia são necessários três fatores fundamentais, que se resumem em: ter outro nome, outra identidade; ter a autonomização desta identidade, biografia e cultura, com poética própria e, decorrentes desses, ter “a configuração de uma especificidade discursiva traduzida em dominantes estilísticas precisas e entendida como projeção, no plano da práxis literárias” dos dois fatores citados. Fradique Mendes não atinge a heteronímia plena, mas somente parte dela, pois não assume integralmente a alteridade artística, e também não possui um estilo/características próprias em seus textos, visto que ele mal publicou. Além disso, o fato de, na posteridade, suas obras terem sido mantidas como inéditas comprometem, segundo Reis (1999), definitivamente o projeto heteronímico. Deste modo, Reis (1999) finaliza afirmando que “[...] por outras palavras, pode dizer-se que Eça, não atribuindo a Fradique uma voz e um estilo literário autónomos e perfeitamente configurados, deixa inconcluso um esboço de heterónimo que o obrigaria a incorporar-se por inteiro na sua condição de ortónimo (REIS, 1999, p. 60).
Ainda que ele tenha tido vida própria, identidade, cultura e tenha sido aceito até pelos leitores, faltou ainda a configuração de um terceiro fator para a realização da
heteronímia plena; no entanto, ele embora limitando-se a um esboço de heteronímia, certamente é um “precursor da modernidade que está por vir”(REIS, 1999, p. 60).