Bolk 4: Grensehandel
7.0 KONKLUSJON
Iniciamos as considerações finais dessa tese trazendo ao leitor uma citação de Konder (1992), na qual ele nos provoca a refletir sobre a necessidade de revermos constantemente os nossos conceitos e a nossa compreensão de mundo para garantir que eles de fato nos instrumentalizem para a compreensão da realidade que nos cerca. Nas palavras do autor:
Estamos todos, por mais resolutamente revolucionárias que sejam nossas disposições subjetivas, vulneráveis a impregnações conservadoras sutis. Temos medo de assumir todos os riscos inerentes à autotransformação. Como poderíamos alterar tranquilamente as bases da construção teórica que faz de nós
aquilo que somos? A palavra “alterar” vem do latim alter, o outro.
Quem empreende um ajuste de contas com as suas convicções e decide alterar seus conceitos corre o risco de virar outro, de perder sua identidade. É compreensível que a mudança nos assuste. O saudoso Hélio Pellegrino, com sua autoridade de psicanalista, nos advertia para não subestimarmos o conservadorismo que existe
dentro de cada um de nós. “Mudar é correr o risco de morrer”,
dizia Hélio. E constatava que, por isso, os neuróticos se aferram à neurose deles, que os faz sofrer, mas já é uma velha conhecida... Se querermos crescer, precisamos evitar a tentação de nos aferrar a modos de sentir e de pensar que estão funcionando mal, precisamos fazer um esforço cansativo, difícil, incômodo, no sentido de abrir nossas cabeças para a aventura de pensar o novo. E esse esforço passa por uma reflexão impiedosamente crítica a respeito do caminho percorrido. Estamos sendo desafiados a reexaminar nosso patrimônio teórico, nosso instrumental conceitual. (KONDER, 1992, p. 14)
O autor escreve essas palavras no livro O Futuro da Filosofia da Práxis, em que faz uma análise crítica da construção do conhecimento marxista e apresenta elementos dessa teoria que sobreviveram ao tempo e ainda se fazem necessários para a compreensão da realidade em nosso contexto histórico. Destacamos tal citação neste momento do trabalho com o intuito de compreendermos que este é o papel da ciência, qual seja, o de renovar-se pela constante reflexão de seus próprios métodos, pela crítica do caminho percorrido, para não corrermos o risco de nos deixarmos impregnar por ideias sutilmente conservadoras.
É nesta direção que entendemos que o objetivo desta pesquisa foi cumprido, uma vez que demonstramos que o Materialismo Histórico-Dialético fornece parâmetros para
153 uma avaliação científica do desenvolvimento infantil a serviço de práticas pedagógicas que o promovam. Não estamos usando um canhão para matar uma formiga. Ao contrário disso, o referido Método nos capacita a desvelar a essência a partir da aparência do desenvolvimento, trazendo as múltiplas determinações do nosso objeto de estudo. Assim também o referido Método coloca o professor em sua legítima posição de ensinar, de ser professor, trazendo a renovação necessária à Educação Infantil, que, em nossa concepção, ainda se encontra fortemente vinculada a antigas formas de funcionar que não são suficientes para captar a realidade em seu movimento.
Dessa forma, nos capítulos 01 e 02 dessa tese trouxemos, respectivamente, os fundamentos teóricos do Materialismo Histórico-Dialético e da Psicologia Histórico- Cultural, os quais subsidiaram nosso modelo de análise do desenvolvimento de um indivíduo representativo, no capítulo 03. O processo de desenvolvimento da criança de 1 a 3 anos de idade foi o nosso objeto de estudo e, por meio deste, chegamos aos elementos metodológicos para uma análise científica do desenvolvimento, que foi sistematizada no capítulo 04.
Com a análise realizada, entendemos que o desenvolvimento da criança escolhida como representativa do grupo observado encontra-se dentro do esperado para a faixa etária, sendo então um desenvolvimento satisfatório. No entanto, quando analisamos os processos pedagógicos, entendemos que estamos longe de oferecer o melhor ensino para as crianças, uma vez que identificamos alta frequência de conceitos espontâneos como mediadores dos conhecimentos da professora e não identificamos nas ações da mesma a intencionalidade de atuar na área de desenvolvimento iminente.
Mas esta afirmação certamente não se limita à escola em que coletamos dados, assim como não é responsabilidade individual da professora que analisamos. Afirmá-lo seria incorrer no erro de culpabilizar o indivíduo por um processo que é social e consequência da forte presença de modelos assistemáticos na educação infantil. Por isso, desde o início da tese estamos afirmando que nosso embate é com tais modelos de educação, que retiram do professor o papel de ensinar já desde os anos iniciais da Educação Infantil, sem considerar que do ensino depende o desenvolvimento das crianças em suas máximas expressões.
Afirmar a necessidade de promovermos o máximo desenvolvimento possível dentro de um contexto histórico específico é uma questão importante para a teoria histórico-cultural, pois trata-se de tomar como parâmetro o que é tido como excelência em desenvolvimento e ensino num determinado momento e ao menos lutar para que todas
154 as crianças possam ter acesso a tais procedimentos. Ao menos lutar significa compreender que, numa sociedade de classes, o acesso às apropriações humano-genéricas dar-se-á de forma desigual, e os procedimentos de ensino e de aprendizagem disponibilizados para o desenvolvimento infantil serão diferentes em uma escola para ricos e em uma escola para pobres36. O próprio site do sistema Positivo (material utilizado pela escola analisada) não nos deixa enganar, quando explicita que há linhas diferentes de apostilas para as escolas particulares e para as escolas públicas37, ou seja, mesmo com as prefeituras comprando o material desses grandes sistemas de ensino, os mesmos oferecem uma linha diferenciada ao ensino público.
Cabe ressaltar, antes que o leitor se questione, que não estamos afirmando aqui que o desenvolvimento psíquico dos ricos será melhor que dos pobres. Não se trata de um julgamento de valor, mas estamos, sim, afirmando que há uma diferença significativa no acesso aos melhores recursos pedagógicos já desde a Educação Infantil, e que esta diferença contribui para a manutenção da ordem social vigente, a qual camufla as diferenças sociais com o discurso ideológico da meritocracia.
À medida que compreendemos que a formação do psiquismo se dá em unidade com as particularidades com que a criança acessa o conhecimento universal, fica evidente que as máximas expressões desse desenvolvimento serão dadas pela mediação de particularidades que representem o que de melhor a humanidade já produziu na área pedagógica. Além disso, sabemos que nossas escolas de Educação Infantil estão longe de garantir um ensino de excelência, não só pelo sucateamento da educação, mas também pela ineficiência dos modelos assistemáticos tão presentes nessas instituições. Ainda que nossas crianças se desenvolvam dentro do esperado para o período e de modo satisfatório, somente uma pequena parcela da população tem acesso a um ensino de qualidade.
No entanto, esta não é uma ideia que nos imobiliza, pois não devemos deixar de ensinar somente por estarmos ainda longe de atingir o que esperamos ser melhores condições de ensino. Além de garantir a entrada das crianças na escola, precisamos também lutar pela qualidade do processo educativo, e é a serviço dessa luta que essa tese se coloca. O fato de ainda faltar muito não nos furta do dever de caminhar na construção de melhores condições para as crianças que estão por vir, na direção de uma sociedade justa e humana.
36 Quando nos referimos à pobreza, trata-se da ausência do supérfluo, que se difere de uma situação
miserável, na qual não se tem o necessário.
155 Sabemos que o marxismo precisa sair de dentro dos muros da universidade e de fato se efetivar como práxis no cotidiano da escola. Em outras palavras, o marxismo
precisa “pisar no chão da escola” e também renovar-se, como toda ciência. É nessa
direção que esperamos continuar nossas pesquisas com o intuito de operacionalizar os procedimentos investigativos aqui adotados como forma de auxiliar o professor de educação infantil comprometido com a promoção do desenvolvimento humano. Assim como objetivamos realizar pesquisas longitudinais com atividades pedagógicas que incidam sobre as áreas do desenvolvimento aqui destacadas nas categorias de análise, objetivos que não foram possíveis de serem atingidos com os limites dessa tese de doutorado.
156