Um momento relacionado ao mundo profissional por quase todos os pesquisados é a saída da educação básica e o ingresso no ensino superior. A mudança no espaço de atuação também ocorreu mediante circunstâncias específicas da história de vida de cada um, sobretudo no interjogo entre as condições objetivas e subjetivas.
Alzira, por exemplo, destaca dificuldades no cenário educacional de sua cidade natal e, sobretudo, as condições objetivas atreladas ao exercício da atividade docente nesse contexto, como principal explicação de sua decisão de ingressar no ensino superior, apontada em trecho de sua narrativa como o abaixo:
Bom foi mais ou menos em [19]90-[19]92 estoura no estado de Alzira a maior greve de professores na história da educação do estado de Alzira, nós professores passamos dois anos em greve, dois anos sem receber dinheiro, dois anos em que os professores foram perseguidos pelo governo aí foi quando eu decidi fazer o concurso da Universidade Federal de [...] porque eu não via mais espaço de retorno dessa escola. Eu até achava que essas escolas iriam fechar mesmo. Eu cheguei a pensar que a educação em [...], não tinha mais saída e não foi só eu que pensei assim, muitos colegas também e
alguns deles passaram a ir buscar trabalho nas escolas particulares, outros abriram escolas, mas eu achava que o meu espaço era a escola pública, tanto é que nessa época eu recebi o convite para ser coordenadora pedagógica das escolas maristas de [...] e eu não aceitei. Eu fiz a opção de ser professora substituta na universidade federal ganhando mais ou menos uns duzentos e cinquenta reais, e aí você vê a disparidade salarial, mas era uma opção política mesmo e de muita consciência do que eu queria. [Alzira]
(...) não vou contar essa história, que é muito longa, mas após esse processo de luta nessa greve eu fiz concurso na universidade federal, primeiro substituta e depois efetiva, pronto passei para professora efetiva no curso de Pedagogia, e fiquei com dedicação exclusiva da rede federal, e aí eu tive mesmo que pedir minha aposentadoria do Estado porque eu tinha vinte e dois anos e alguns meses, ai eu fui buscar esses anos e meses que eu era do município, juntei e me aposentei. Pronto então nesse momento eu era só professora da [...]. [Alzira]
Os trechos acima indicam que, para Alzira, diante de inviáveis condições de trabalho na educação básica, a mudança para o ensino superior surge como oportunidade de continuar atuando na educação pública, já que a permanência na educação básica ficou comprometida após dois anos de paralisação de aulas por conta das péssimas condições de trabalho.
Consideramos importante dizer que sua narrativa ilustra que esse ingresso no ensino superior não foi planejado. Este representa a possibilidade de continuar atuando na rede pública de ensino, uma de suas bandeiras na educação básica, conforme outros excertos de sua narrativa. O ingresso ocorre com a aprovação em dois concursos públicos31 numa universidade federal, sendo o primeiro para professora substituta e o
segundo para professora efetiva, com regime de trabalho de dedicação exclusiva. Identificamos nesse trecho da narrativa de Alzira que o ingresso no ensino superior ilustra uma vivência importante em sua trajetória profissional, tendo em vista que ao se recordar desse acontecimento, o tom emocional da narrativa altera-se e Alzira fica com os olhos marejados ao referir-se a sua saída da rede estadual, na qual atuou na educação básica por 22 anos.
31 De acordo com a Lei no 7.596, de 10 de abril de 1987; sobre o Plano de Carreira e Cargos de
Magistério do Ensino Básico, Técnico e Tecnológico e sobre o Plano de Carreiras de Magistério do Ensino Básico Federal, o ingresso na carreira de docente no ensino superior ocorre mediante aprovação e concurso público. Na oportunidade destacamos que a referida lei prevê dois tipos de contratação: a de professor temporário, denominado igualmente de substituto e professores por tempo indeterminado, condição denominada de professor efetivo.
Identificamos nesse momento da vida uma espécie de sentimento de perda, indicados pela expressão “eu tive mesmo que pedir demissão”, possivelmente em razão de seu longo envolvimento com o trabalho desenvolvido nesse segmento, que é a educação básica, onde pôde atuar não apenas como docente, mas como supervisora, diretora de escola e secretária municipal de educação.
A história de Alzira ilustra as metamorfoses vividas em relação à própria docência, especialmente se recordarmos, por exemplo, o momento da escolha profissional em que a docência não era tão significativa para Alzira. No entanto, ao relatar sobre sua saída da educação básica, Alzira demonstra alguma dificuldade em verbalizar o que a impedia de ter ficado mais feliz ou de pelo menos se sentir um pouco mais aliviada quando ingressou no ensino superior em virtude de garantir uma remuneração razoável.
Estes movimentos empreendidos por Alzira, a nosso ver, relacionam-se com a perspectiva de transformação do ser humano, sobre a qual ancora-se a perspectiva de Ciampa (2007), ao postular que, ainda que as tentativas de evitar mudança envolvam muito esforço, mesmo assim estão fadadas ao insucesso, tendo em vista que a constituição da identidade humana envolve essencialmente movimento.
Tendo em vista a composição heterogênea do grupo pesquisado, nos dirigimos à história de Joaquim e verificamos que o momento do ingresso no ensino superior foi vivenciado de modo diferente ao que nos foi possível visualizar com a história de Alzira, conforme sua narrativa:
Quando eu terminei em 1995 esse curso, e foi nesse ano também que eu fiz o concurso para universidade, e a vaga era para professor auxiliar; era a universidade estadual e estou lá até hoje. Na graduação, eu fui bolsista de iniciação científica, de uma professora que me incentivou muito para ir pra universidade; ela me disse: Joaquim, faça o concurso, faça, faça, faça! Eu acho que ela foi a professora com quem eu mais me identifiquei na universidade porque ela era aquela pessoa muito comprometida, muito competente. [Joaquim]
Fui chamado em 1996, foi quando eu ingressei na carreira do ensino superior. Entre 1996 e 2005, logo que eu entrei na universidade, eu fiz especialização lá mesmo quando comecei a trabalhar em Educação: pesquisa educacional. Então, eu tinha quarenta horas como professor auxiliar e a universidade me liberou vinte horas da minha carga horária pra eu fazer o curso. Então eu trabalhava vinte horas e tinha vinte horas para realizar estudo. Saí do ensino básico...e aí eu fiquei só na universidade. [Joaquim]
Os trechos acima reportam-se ao ingresso no ensino superior, que ocorreu logo após a conclusão da graduação e foi respaldado pelos incentivos de uma professora da iniciação científica com a qual Joaquim se identificara. Esse momento da narrativa é marcado pela explícita empolgação de Joaquim ao relatar cada detalhe desse momento, o que nos levou a crer que esse ingresso foi vivido com certa satisfação por Joaquim, por estar associado à possibilidade de crescimento pessoal e profissional e melhores condições de vida.
No processo de constituição da identidade de Joaquim como profissional são desveladas mudanças em relação, por exemplo, ao início da docência, momento em que essa atividade profissional parecia pouco significativa. Na universidade, Joaquim sentiu-se feliz e deu indícios de que nesse espaço, mais do que ser identificado como professor, ele se identifica como tal a partir da atividade ali desenvolvida.
Essa apreciação teve por base a mudança de sua entonação de voz e, sobretudo, pelo sorriso fácil, indicativos de satisfação ao dizer que saiu do ensino básico e ficou só na universidade.
A identificação de Joaquim em relação à docência vivida no espaço da universidade é de certa forma confirmada em seu movimento de buscar mais formação, com a realização do curso de especialização, logo que ingressa na universidade, o que parece indicar uma espécie de reposição ao que é esperado para o professor desse nível de ensino que, além de ensino bem fundamentado, deve ser o de protagonista na produção do conhecimento científico no âmbito da universidade.
Observar esses movimentos ao longo da constituição da identidade de Alzira e Joaquim, assim como os outros em relação à profissão, por exemplo, só confirmam as colocações de Ciampa (2006a, p. 61) de que esse processo não é estanque, especificamente pelo fato de que “o homem não é decifrável”.
A trajetória de Alzira é uma das histórias que permitem a identificação da construção de novos sentidos para sua atuação docente, quando esta professora ingressa no ensino superior.
Chegando à universidade eu começo a militar, nos projetos de extensão e onde foi que eu me adaptei mais? Nos projetos que militavam com o pessoal do Programa Nacional de Reforma Agrária conhecido com PRONERA, que era voltado para os assentamentos do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra- MST, este é vinculado ao Incra e Ministério da Agricultura. Na verdade, eu me encantei com essa luta e assim eu fiz isso como uma política da universidade a partir da extensão, mais que virou uma política de vida também, felizmente, até hoje. [Alzira]
Ciente de que esse novo espaço é bem diferente daqueles em que atuou anteriormente, ainda assim Alzira encontra condições no desenvolvimento do papel de professora. Assim, continuar fiel aos compromissos assumidos ao longo da trajetória de vida se faz possível ao priorizar uma atuação em projetos de extensão voltados para movimentos sociais como Movimento dos Trabalhadores Sem Terra - MST.
Nessa ocasião, identificamos a adoção da personagem Alzira-professora-agora-
universitária-e-ainda-militante, que é engendrada pela mesma a fim de materializar
modos de ser e de estar no mundo e, especificamente, no espaço da universidade. Em nosso entendimento, essa personagem esteve muito presente na atuação de Alzira em seus primeiros anos de docência no ensino superior.
Outra história que também reúne informações importantes sobre sua atuação no ensino superior, logo nos primeiros anos e as mudanças na forma de atuar, é a de Joaquim:
Eu entrei na universidade. A universidade foi outro universo, outra coisa. Eu comecei a trabalhar, eu estava em processo de formação e eu passo a dar aula na universidade. Entro na especialização e aí foi sem crise mesmo porque eu estava vivenciando uma coisa que eu havia descoberto e queria viver aquilo mesmo, com aquela intensidade; não tinha mais dúvida; eu estava por inteiro; então você investe em você mesmo, você se dedica, de estudo, de trabalho. E sempre tive uma relação muito boa com os alunos, nunca tive atrito, mesmo considerando lá pra trás, eu diria que nunca tive dificuldade, atrito; eu falo assim, eu tive dificuldade, mas não atritos. [Joaquim] O cenário ilustrado por Joaquim indica que sua atividade profissional adquiriu sentidos diferentes de outrora e reúne nessa ocasião, estados de satisfação, completude e compromisso, alterando suas interações com alunos e pares, bem como a maneira como exerce sua atividade profissional no espaço da universidade.
Em consonância com a concepção de identidade adotada nesta pesquisa, podemos dizer que essa dinâmica se ancora em um processo de significação, responsável pelos movimentos de construção e reconstrução da identidade dos sujeitos pesquisados (CIAMPA, 2007).