Junto ao litoral, na zona das masseiras, a proximidade do nível freático à zona radicular, a elevada permeabilidade dos solos e a utilização intensiva de adubos constituem factores de grande vulnerabilidade à poluição das águas subterrâneas, com nitratos de origem agrícola.
No sistema forrageiro, a actual prática de fertilização azotada do milho, com incorporação de chorume e uma única aplicação de adubos de libertação lenta de azoto, à instalação da cultura, associada aos volumes de rega, normalmente praticados pelos agricultores, não origina grandes problemas de lixiviação na ZV1. Há, no entanto, poluição pontual nos seguintes casos (Agostinho, 2005):
i. quando ocorre precipitação após o agricultor ter realizado regas;
ii. quando os volumes de rega aplicados excedem a capacidade de retenção dos solos; iii. quando o excesso de fertilização dá origem a teores altos de azoto residual, no final
da cultura e, portanto, passíveis de serem lixiviados no Outono-Inverno.
Pelo contrário, no azevém, a prática tradicional de incorporação de chorume de bovino, antes da sua instalação, no Outono, dá origem à lixiviação de azoto e não traz benefícios para a cultura, uma vez que a extracção de azoto, nas primeiras dez semanas, é muito reduzida, devido às condições normais de saturação do solo e baixa temperatura ambiente. A lixiviação que ocorre, durante o ciclo cultural do azevém, depende dos fluxos de drenagem causados pela precipitação, que é um acontecimento aleatório de difícil previsão (Agostinho, 2005).
O chorume, efluente acima referido, é uma mistura dos dejectos sólidos e líquidos dos animais, com maior ou menor grau de diluição, contendo, por vezes, restos de rações, de palhas ou de fenos. As escorrências provenientes das nitreiras também são vulgarmente designadas chorumes. A quantidade de chorume depende, do seu grau de diluição com águas de lavagem dos
estábulos e outras que afluem à fossa onde são recolhidas as urinas com quantidades maiores ou menores de fezes em suspensão e com restos de rações, de palhas, de fenos, de silagem ou de outros materiais. É, habitualmente, transportado para o campo em tanques ou cisternas e distribuídos à superfície do terreno nú, precedendo as sementeiras ou plantações de culturas anuais, ou do terreno ocupado com pastagens e/ou forragens. Na sua aplicação é fundamental ter certos cuidados para conseguir, por um lado, obter os benefícios do seu poder fertilizante e, por outro, para evitar ou reduzir os riscos de contaminação ambiental e de degradação do solo como, por exemplo, verificar o estado de humidade do solo. As melhores épocas e dias para a sua aplicação serão aquelas ou aqueles que possibilitem o maior benefício para as culturas e, ao mesmo tempo, os menores riscos de poluição da água e do ar. Sempre que o chorume seja aplicado sobre o terreno nú convirá, logo de seguida, proceder à sua incorporação no solo. A técnica tradicional de aplicação de chorumes por espalhamento, a mais usada em Portugal, apresenta vários inconvenientes um dos quais, a compactação do solo. A libertação de cheiros desagradáveis, a perda de azoto amoniacal para a atmosfera e, ainda, a conspurcação e contaminação das plantas com os efeitos negativos daí resultantes são outros inconvenientes (MADRP, 1997).
É, também, vulgarmente utilizado um outro tipo de efluente: o estrume. O estrume é uma mistura de dejectos sólidos e líquidos dos animais com resíduos de origem vegetal, como palhas e matos, com maior ou menor grau de diluição. A composição dos estrumes varia bastante com a espécie pecuária, sua idade e fim com que é explorada, com o seu regime alimentar e tipo de estabulação, com quantidade e natureza do material utilizado nas camas, com a técnica de produção utilizada e com outros factores. É um excelente contribuinte de matéria orgânica para o solo e é frequentemente espalhado em elevada quantidade nos campos. Algumas das vezes é espalhado em épocas erradas, quando as colheitas não podem efectivamente absorver nutrientes; outras das vezes é espalhado em culturas fixadoras de azoto que requerem pouco ou nenhum azoto. Como cada cultura só extrai uma determinada quantidade deste nutriente, grande parte dele acaba sob a forma de poluição na água, no ar e no próprio solo. Relativamente, ao espalhamento do estrume, toda a manipulação deste aumenta com o ar, e as perdas de azoto recomeçam. É preciso, portanto, enterrar o estrume rapidamente. Sendo assim, as palhas de estrume não devem ficar muito tempo no campo antes de serem espalhadas. O espalhamento deve ser feito em tempo encoberto e bastante frio, assim, as perdas de azoto são mais reduzidas (MADRP, 1997).
As adubações tradicionais realizadas pelos agricultores da ZV1, em hortícolas, excedem, normalmente, as quantidades máximas impostas pelo programa de acção. No caso das hortícolas de Primavera-Verão, ao ar livre e em arenossolos, a adubação tradicional dos agricultores contribui significativamente para a poluição com nitratos, quer durante o ciclo cultural (poluição directa), quer pelo armazenamento residual de azoto, no final da cultura (poluição potencial). No caso das hortícolas de Outono-Inverno, a dimensão do problema é ainda maior, pois os agricultores tendem a realizarem mais adubações, em resultado das chuvadas, para evitarem quebras de produção. O problema pode ser minimizado com o maior fraccionamento do azoto mas a condição de não exceder os limites máximos impostos pelo programa de acção pode pôr em causa os padrões de produção comercial normais na ZV1, principalmente no caso das hortícolas de folha (couves, nabiça, etc.) (Agostinho, 2005).
Idealmente, a técnica de aplicação dos adubos ao solo e à cultura, designadamente dos adubos fornecedores de azoto, conviria ser tal que conduzisse à sua máxima eficiência, isto é, que todo o azoto aplicado fosse absorvido pela cultura. Numa situação destas não haveria qualquer risco de contaminação das águas com nitratos. Seria uma situação óptima não apenas do ponto de vista ambiental mas, também, do ponto de vista económico. Porém, tal não é possível na prática: a quantidade do azoto absorvido pelas culturas é apenas uma fracção, maior ou menor, do azoto fornecido pelo adubo. Não podendo alcançar-se o óptimo, deverá, no entanto, tentar conseguir-se o bom ou o razoável através de um processo de aplicação do adubo ao sistema solo-planta que facilite ao máximo a absorção do(s) nutriente(s) contido(s) no adubo. Os adubos podem ser distribuídos uniformemente sobre toda a superfície do terreno a fertilizar (adubações a lanço) ou aplicados apenas em zonas restritas do terreno (adubações localizadas). Quer nas adubações a lanço, quer nas adubações localizadas, os adubos podem ou não ser enterrados. A técnica de aplicação a adoptar depende de vários factores relacionados: com o adubo, com a cultura, com o solo, com o clima e com o custo da fertilização. Qualquer que seja a técnica de aplicação escolhida, ela deverá ser correctamente executada por forma que o adubo seja distribuído uniformemente no terreno a fertilizar, evitando-se, assim, zonas com excesso de adubo e elevado risco de arrastamento do azoto excedentário nas águas de infiltração, a par de outras com escassez de azoto e consequentes baixas de produção (MADRP, 1997).
Devido a estes factores e ás fontes de poluição responsáveis pela contaminação das águas superficiais e subterrâneas, o problema da poluição na ZV1, sendo de natureza difusa, só pode ser
resolvido através de um planeamento integrado que envolva todos os agentes e entidades com responsabilidade sobre ela.