4 Arenaer for samarbeid om tilpasning
4.1 Klimakonvensjonen og Kyotoprotokollen
O tema do profissionalismo é aquele que no quadro da sociologia tem estado mais envolvido na problematização do controlo dos grupos ocupacionais sobre formas de expertise. A origem destas questões surgiu ainda no início da década de 1930, tendo sido desenvolvida particularmente por autores como Parsons (1958) e Merton (1982) no quadro de uma conceção funcionalista, que considerava as ocupações a partir do seu papel de resposta a necessidade sociais e contribuição para a integração e coesão social (Gonçalves, 2007). A diferenciação entre ocupações segundo estes critérios produziu um conjunto de esquemas classificatórios que procuravam distinguir as ocupações designadas por profissões que correspondiam a um tipo particular de função social, tomando como exemplos os advogados e os médicos das ocupações comuns. As profissões teriam, assim, um tipo particular de características distintivas tais como a detenção de conhecimentos científicos, racionais, complexos e especializados, obtidos pela frequência de formação universitária. A prática profissional desenrolar-se-ia no quadro de uma disposição altruísta, orientada por princípios éticos e deontológicos. Neste sentido, segundo as posições funcionalistas, as profissões seriam orientadas fundamentalmente para o benefício público, o que as distinguiria das outras ocupações organizadas em trabalho assalariado e de orientação mercantil e empresarial.
A partir da perspetiva interacionista emergiu uma reformulação crítica da noção de profissão, colocando as questões do poder, do conflito e do monopólio sobre as áreas de conhecimento, na análise das profissões. Rejeitando uma definição apriorística de profissão, esta perspetiva considerava a pluralidade de formas e contextos ocupacionais e os processos de legitimação social, a partir da interação entre as ocupações. Desde a década de 1960, as leituras interacionistas sobre as profissões começaram a ser mobilizadas no quadro de uma crítica mais sistemática sobre as teses funcionalistas, oriunda de uma pluralidade abordagens, entre as quais as teses do poder e monopólio profissional ganharam maior destaque (Gonçalves, 2007). É o caso de Johnson (1972) que argumenta, ao contrário do modelo funcionalista, que as relações entre profissionais e clientes são muitas vezes assimétricas, caracterizadas por uma distância social acentuada pela posse diferenciada de conhecimentos. O autor analisa as relações entre ocupações e clientes no quadro de formas de controlo ocupacionais que sistematiza em três tipos: o controlo colegial, que corresponde ao modelo do profissionalismo no qual o profissional tem a capacidade de definir as necessidades do consumidor e as soluções para as
satisfazer; o patrocinato, em que é o consumidor, pela sua posição social ou organização coletiva que define as necessidades e soluções; e o controlo mediado, no qual o Estado intervém na definição das necessidades mediando a relação entre profissionais e clientes.
Numa abordagem mais inspirada em teses marxista e weberianas, Larson (1977) propõe a noção de projeto profissional, que utiliza para analisar a forma como as ocupações adquirem um monopólio legal sobre certas atividades, obtendo garantia exclusiva por parte do Estado para o exercício da profissão em mercados fechados, reclamando exclusividade de posse de determinados conhecimentos codificados e abstratos atestados por credenciais universitárias e, desta forma, beneficiando do acesso a privilégios materiais e simbólicos. Nas palavras da autora: “professionalization is thus an attempt to translate one order of scarce resources - special knowldege and skills - into another - social and economic rewards” (Larson, 1977: xvii). A aplicabilidade da noção de monopólio profissional é um dos focos de crítica sobre esta perspetiva, por parte autores como Freidson (1978). Na conceção deste autor a profissão consiste numa forma de organização do trabalho, sustentada na autonomia técnica, no monopólio sobre uma área de conhecimento especializado, e no credencialismo como critério de acesso à profissão.
Mais recentemente, a partir do final da década de 1980, a perspetiva de Abbott (1988) é particularmente influente no quadro da sociologia das profissões e ocupações. Contrariamente ao enfoque em apenas uma profissão, que caracteriza muitas das análises anteriores, a proposta do autor centra-se na noção de sistema de profissões, sublinhando o carácter conflitual e de interdependência da relação entre ocupações. A sua análise centra-se nas dinâmicas de competição interocupacional através das quais os grupos garantem o direito de controlo sobre o exercício de um conjunto de atividades ou provisão de serviços, ou, na terminologia do autor, controlo sobre uma jurisdição. O autor identifica também os fatores que estão na base de mudanças que afetam as relações de poder entre ocupações, tais como os processos de diferenciação, as alterações societais a nível da tecnologia e das organizações, assim como as mudanças culturais que afetam as formas de legitimação das reivindicações jurisdicionais. A abordagem de Abbott rompe, ainda, com uma tradição de negligência relativamente à prática profissional e de exclusiva concentração nos aspetos formais e estruturais das ocupações.
Um dos aspetos importantes que importa reter aqui do trabalho de Abbott (1988) é a sua discussão sobre o conceito de profissionalização. O autor refere existirem quatro categorias de modelos de profissionalização, próximos das fases de evolução descritas anteriormente: o funcional, no qual a profissionalização é a evolução de garantias estruturais para o controlo sobre a relação entre expert e cliente; o estrutural, em que a profissão é uma forma de controlo
ocupacional; o monopolista, no qual as profissões seriam grupos com projetos de mobilidade, e os padrões de profissionalização o resultado de forças externas de nível societal; e o cultural, centrando o conceito na legitimação da expertise. Algumas diferenças entre as várias teorias de profissionalização são formais, isto é, focam-se mais numa ou outra dimensão do processo, enquanto outra são substantivas e dizem respeito aos mecanismos e causalidades subjacentes. O autor argumenta que, apesar das suas diferenças, estas várias perspetivas partilham daquilo que designa por teoria sintética e que se refere a uma definição estrita do conceito de profissionalização produzindo narrativas de mudança linear unidirecional e com um destino prefixado à partida. Na sua proposta, os processos de profissionalização são múltiplos e podem conduzir a diferentes destinos: “there are clearly a variety of directions for development, and development towards strong control is but one of them” (Abbott, 1988:18).
Abbott oferece uma poderosa alternativa no ponto de vista do enfoque analítico, ao propôr uma perspetiva holística sobre as ocupações que tem em conta as dinâmicas de competição interocupacional e ao colocar a prática profissional, aquilo que as ocupações fazem, no centro da análise. Por outro lado, é necessário ter em consideração que a longa produção sociológica que cabe nesta descrição de Abbott, produziu, como o próprio admite, resultados regulares, mesmo que aplicáveis a um conjunto limitado de profissões. As características identificadas por estas várias perspetivas, mesmo que não esgotem as várias possibilidades de evolução das ocupações em geral, correspondem, sem dúvida, a pelo menos uma dessas possibilidades. Além disso, apesar das diferenças que Abbott designa por substantivas poderem tornar difícil a compatibilização entre elas, do ponto de vista meramente descritivo, as várias características identificadas são cumulativas e compatibilizáveis.
Uma das formas como esse conceito estrito de profissionalização ainda pode ser útil é como referente ideal-típico (Freidson, 2001) face ao qual se poderiam contrastar outras formas de institucionalização. Uma das abordagens deste tipo é utilizada por Muzio et al. (2011), no contexto de uma análise de processos de institucionalização de ocupações ligadas ao conhecimento69, na qual os autores propõem a noção de profissionalização empresarial para
designar um modo específico de profissionalização, identificável pelas semelhanças e diferenças face ao que designam por profissionalização típica. Esta profissionalização típica não é mais do que uma síntese das características avançadas no quadro das várias abordagens
69 As ocupações estudadas pelos autores são a gestão de projetos, a consultoria de gestão e o
referidas anteriormente e face à qual é possível estabelecer comparações tal como se exemplifica no quadro II.1, retirado do artigo dos autores.
Quadro II.1 - Características da profissionalização empresarial face a modelos tradicionais de profissionalização70
Fonte: Muzio et al. (2011: 457)
Como se explicou a propósito das questões de partida, o objeto desta investigação não se centra no conceito de profissionalização, mas numa noção mais genérica: a de institucionalização. A pertinência do conceito de profissionalização no quadro desta dissertação reside na mobilização de um conjunto de contributos que podem ser úteis na caracterização do processo de institucionalização da análise financeira. É na medida em que se trata de uma ferramenta útil que importa aqui referir esta discussão. Nesse sentido, importa reter um entendimento do conceito que permita flexibilidade suficiente para adaptação a uma área de expertise que pode ter variadas formas de institucionalização ocupacional e integrar outras
70 O termo jurisdição usado pelos autores refere-se à jurisdição geográfica e não ao sentido em que o
contribuições como a refletida na noção de institucionalização transnacional de Fourcade que se considerará seguidamente.
O conceito de institucionalização transnacional é proposto por Fourcade (2006) para enquadrar o desenvolvimento profissional das ocupações ligadas à economia enquanto processo definido tendencialmente em termos globais. A autora apresentou a sua proposta com o objetivo de responder a uma propensão na literatura sobre profissões para considerar a profissionalização como definida essencialmente a partir de dinâmicas nacionais. A sua análise das ocupações ligadas à economia identifica três fatores de institucionalização transnacional que concorrem no sentido criar uma jurisdição internacional: a) A criação de uma retórica alargada e universalista na ciência económica que permite a transposição de conhecimentos para contextos diferentes; b) A associação da ciência económica à ascensão do Estado-Nação Moderno em que desempenha um papel de tecnologia de poder político e burocrático. A expansão do Estado-Nação como modelo de administração do território facilitou e foi facilitada pela associação a uma ciência da administração com um carácter de aplicação universal; c) A existência de ligações transnacionais dominada pelos Estados Unidos visível não só na hegemonia das universidades e publicações americanas, mas em instituições em que os EUA têm uma forte influência como o Fundo Monetário Internacional (FMI) ou Banco Mundial.
No que respeita a esta investigação, que tem um enfoque nacional, a contribuição de Fourcade permite ter em consideração que o desenvolvimento da análise financeira em Portugal não é independente de lógicas transnacionais, a nível da reprodução do conhecimento, da regulação profissional e da criação de um mercado nacional ligado à análise financeira. A perspetiva aqui adotada é, portanto, a de que é necessário explicar de que forma esses fatores transnacionais estão presentes, não apenas como tendências globais, mas também como influências mediadas pela posição específica que o contexto português tem nesse contexto global.
Apesar da organização desta dissertação não seguir exatamente a divisão por dimensões de análise – o que se justifica pela necessidade de organização para efeitos de leitura sequencial de uma série de elementos que por vezes se entrecruzam – a grelha proposta por Muzio et al. (2011), e a contribuição de Fourcade (2006), serve de orientação transversal para a análise dos dados empíricos no que respeita à institucionalização da análise financeira, desde logo a partir da próxima secção.