O uso de entomopatógenos pode ser uma ferramenta útil no controle de T. absoluta. Trabalhos realizados em laboratório mostraram a possibilidade de utilizar fungos entomopatogênicos no controle de ovos desse inseto, com obtenção de mortalidades de 60 e 80 % para isolados de B. bassiana e Metarhizium anisopliae (Metsch.) Sorokin, respectivamente (RODRÍGUEZ-HERNÁNDEZ; GERDING; FRANCE, 2006a). Rodríguez-Hernández, Gerding e France (2006b) avaliaram o efeito dos isolados testados em ovos, sobre lagartas de T. absoluta, constatando até 90 % de mortalidade em condições de laboratório para os mesmos isolados.
Giustolin et al. (2001c) avaliaram o efeito de B. bassiana sobre T. absoluta criada em genótipos de tomateiro e observaram que a aplicação do fungo sobre o genótipo resistente apresenta efeito sinérgico na redução da sobrevivência larval, além de constatarem que a suscetibilidade das lagartas é maior nos primeiros ínstares.
Giustolin et al. (2001a e 2001c) avaliaram, também, o efeito associado de Bacillus thuringiensis var. kurstaki (Btk) e genótipos de tomate sobre o desenvolvimento de T. absoluta. Segundo os autores, a presença de metabólitos secundários das plantas pode influenciar no desenvolvimento do inseto e do entomopatógeno, no entanto não observaram efeitos adversos dos aleloquímicos produzidos pelos genótipos de tomate sobre a eficácia de Btk. Efeitos antagônicos não foram observados para nenhum dos ínstares avaliados. De acordo com Berenbaum (1988), se o patógeno é mais resistente
que o inseto ao aleloquímico que está sendo produzido pela planta, a patogenicidade do entomopatógeno poderá ser maior na presença desses compostos.
A interação entre Btk e genótipos de tomateiro é dependente da idade das lagartas de T. absoluta. O efeito do genótipo foi maior que do entomopatógeno, no entanto a aplicação de Btk em genótipos resistentes e suscetíveis aumentou a eficiência de controle do inseto (GIUSTOLIN et al., 2001a,c). Btk foi testado em experimentos de laboratório (MARQUES; ALVES, 1996) e campo (SOUZA; REIS, 1992, IMENES et al., 1994). Em laboratório observou-se que a média de mortalidade das lagartas de 3º e 4º ínstar foi superior àquela observada para as lagartas de 1º e 2º ínstar e que o aumento da mortalidade está relacionado à movimentação das lagartas, o que estaria facilitando a contaminação (MARQUES; ALVES, 1996).
Em trabalho recente foi observado o efeito de um granulovírus sobre T. absoluta (MASCARIN et al., 2010). O vírus que foi utilizado em bioensaio de laboratório é proveniente de P. operculella, sendo denominado Phthorimaea operculella granulovírus (PhopGV). Mascarin (2009) apresenta uma revisão sobre a ocorrência e eficiência desse patógeno para P. operculella. Considerando que T. absoluta pertence à mesma família que P. operculella, o efeito de PhopGV foi avaliado sobre T. absoluta. Segundo Mascarin et al. (2010), T. absoluta é mais suscetível ao PhopGV do que P. operculella. Os resultados obtidos demonstraram que a razão de suscetibilidade foi de 10 vezes, ou seja, com base no valor da CL50, T. absoluta é 10 vezes mais suscetível que P.
operculella a PhopGV, caracterizando um promissor agente de controle para T. absoluta.
No entanto, a utilização de entomopatógenos dentro de programas de manejo de insetos-praga precisa considerar a compatibilidade desses agentes com os outros métodos de controle, principalmente o uso de inseticidas, herbicidas e fungicidas (CLARK; CASAGRANDE; WALLACE, 1982). As interações entre fungos entomopatogênicos e produtos fitossanitários podem ser positivas, com ação sinérgica ou aditiva, ou negativas, quando um dos componentes da interação é afetado, geralmente o patógeno (SILVA; NEVES; SANTORO, 2005). Diante desses aspectos, considerar a compatibilidade entre os fungos e os agrotóxicos em agroecossitemas,
onde fungos são importantes ferramentas no manejo do inseto-praga, garante a conservação desses organismos no ambiente.
A compatibilidade entre o fungo e agrotóxicos tem sido demonstrada em estudos realizados para culturas como cana-de-açúcar (COSTA et al., 2004), alface e crisântemo (LOUREIRO et al., 2002), café (ANDALÓ et al., 2004), arroz (RAMPELOTTI- FERREIRA et al., 2006, 2007, 2010), entre outras. Em trabalho específico com inseticidas observou-se que o controle do inseto-praga foi ainda mais eficiente, já que o agrotóxico desempenha sua capacidade estressora sobre o inseto, facilitando a ação rápida e fácil dos fungos entomopatogênicos (BATISTA FILHO; ALMEIDA; LAMAS, 2001).
De acordo com Valadares-Inglis et al. (2002), a sobrevivência dos propágulos dos fungos é altamente dependente da temperatura, umidade e composição do solo. Os autores ressaltam também que em ambientes agrícolas a exposição freqüente dos entomopatógenos aos agrotóxicos reduz a sobrevivência dos propágulos presentes no solo ou sobre cadáveres de hospedeiros, prejudicando o estabelecimento da relação patógeno/hospedeiro e a manutenção de epizootias. Jaramillo et al. (2005) avaliaram o efeito combinado de imidacloprid e M. anisopliae sobre Cyrtomenus bergi Froeschner em condições de laboratório e de casa de vegetação, constatando que a mortalidade para os tratamentos contendo fungo + baixas doses de imidacloprid poderia ser uma importante ferramenta no MIP desse inseto-praga. Batista Filho, Almeida e Lamas (2001) citam que a aplicação de tiametoxam não interfere no potencial de inóculo de bactérias e fungos entomopatogênicos. Neves et al. (2001) avaliaram o efeito de inseticidas neonicotinoides sobre B. bassiana, M. anisopliae e Paecilomyces sp. (=Isaria sp.) e concluíram que os inseticidas são compatíveis na maioria dos casos com os fungos nas formulações e doses testadas, sugerindo sua utilização no MIP.
No entanto, estudos complementares precisam ser realizados para avaliar se a compatibilidade se mantém durante o contato contínuo do fungo com o inseticida. Rampelotti-Ferreira et al. (2010) avaliaram o efeito de agrotóxicos utilizados na cultura do arroz sobre a viabilidade de esporos de M. anisopliae obtidos de colônias mantidas em meio de cultura puro e contendo os respectivos produtos nas doses recomendadas e observaram que para alguns herbicidas e inseticidas houve efeito negativo sobre o
fungo e que, ao compararem o resultado da viabilidade dos esporos, detectaram que para alguns produtos houve redução da viabilidade dos conídios após o contato prolongado com o agrotóxico.
Castiglioni-Rosales (2001) apresenta uma revisão sobre a compatibilidade de fungos entomopatogênicos com inseticidas utilizados no controle de cupins, ressaltando a importância da compatibilidade desses microrganismos com produtos obtidos de plantas com atividade inseticida. Segundo o autor, a combinação de inseticidas com entomopatógenos pode incrementar o controle do inseto-praga de interesse. Ações sinérgicas podem ser observadas para cupins, por exemplo, onde os inseticidas podem afetar a resistência comportamental desses insetos, afetando seus hábitos de limpeza e, conseqüentemente, favorecer o crescimento do fungo.
O efeito de óleos vegetais foi avaliado sobre a produção de conídios de fungos entomopatogênicos. Aguda, Rombach e Shepard (1986) verificaram efeitos prejudiciais de óleo de nim sobre M. anisopliae nas concentrações que esse óleo é aplicado em casa de vegetação e campo. A presença de aleloquímicos em substratos como cutículas do inseto ou folhas pode impedir a sobrevivência dos conídios dos fungos (VEGA et al., 1997).
Trabalhos realizados por Devi e Prasad (1996), Rodríguez et al. (1997) e Gupta, Paul e Sharma (1999) avaliaram a compatibilidade de extratos de plantas inseticidas com fungos entomopatogênicos. Para Nomuraea riley (Farlow) Devi e Prasad (1996) não detectaram efeitos negativos de extratos de A. indica, M. azaderach e outras plantas sobre o fungo. Avaliações do efeito de extratos aquosos de sementes de nim associados ao fungo B. bassiana no controle de Hypothenemus hampei (Ferrari) mostraram que, o referido extrato é compatível com o fungo, não afetando a germinação dos conídios e o crescimento micelial. No entanto, em trabalhos realizados por Hirose et al. (2001), foi observado que o óleo de nim causou a redução do diâmetro de colônias para isolados de B. bassiana e M. anisopliae, sendo B. bassiana mais afetado.
Gupta, Paul e Sharma, 1999), comparando sete formulações comerciais e extratos alcoólicos ou aquosos de folhas, de casca do caule e de torta da planta de nim quanto à compatibilidade com B. bassiana, observaram que três formulações
comerciais e o extrato aquoso de torta de nim inibiram o crescimento micelial; outras duas formulações e o extrato alcoólico de torta de nim não tiveram nenhum efeito sobre o fungo; e duas formulações comerciais e os extratos aquosos e alcoólicos de folhas de nim tiveram efeito estimulante sobre o fungo.
Dessa forma, visando à utilização de B. bassiana e sua aplicação juntamente a novas formulações de nim para o controle de T. absoluta, testes de compatibilidade são necessários para estabelecer estratégias de manejo que englobem essas duas alternativas de controle, contribuindo para o MIP na cultura do tomate.