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No caso do perfil empreendedor, as motivações levam o criador a encarar o projeto dentro de uma experiência de empreendedorismo ou desenvolvimento profissional. Isto é, a motivação relacionada ao projeto é de cunho mais profissional e isto perpassa seu desenvolvimento.

O entrevistado identificado com este perfil é o estudante de ciência da computação Guilherme Miranda, criador do aplicativo Obras Rio. Quando questionado sobre o que o chamou a atenção para participar do Desafio Rio Apps, ele elege dois motivos, relacionados a desenvolvimento profissional e competitividade. “Duas coisas. A primeira é a visibilidade caso eu ganhasse, e acabei recebendo menção honrosa nela. Acabou que me deu uma certa visibilidade, consegui fazer alguns contatos em virtude disso. E outro motivo é pelo prêmio” (MIRANDA, 2013).

Miranda destaca que um prêmio como o dessas competições é algo que acarreta um bom envolvimento em networking e chama a atenção em um currículo. Ele o divisa como uma contribuição que poderia alavancar a carreira e demonstra que este potencial foi um fator fundamental para que decidisse não apenas entrar na participação, mas se envolver de um modo em geral com dados públicos, visto que anteriormente não possuía nenhuma experiência nesta área.

Eu vi que (...) algumas pessoas iriam chegar até mim através da competição, por eu ter me saído bem nela. É uma coisa legal também pra se colocar no currículo, para quando chegar em uma empresa poder dizer que você participou de uma competição desse porte e ganhou ou recebeu algum tipo de premiação (MIRANDA, 2013).

Ele afirma inclusive que acredita que a menção no Desafio tenha sido um diferencial para a contratação na empresa em que trabalha atualmente, uma vez que foi questionado na entrevista de seleção sobre o projeto. Além disto, expõe o projeto em seu site pessoal54 junto a outros trabalhos que desenvolveu e procura usar como portfólio. Ele demonstra uma preocupação em efetivamente aproveitar esta experiência como uma realização profissional. De fato, este tipo de aplicativo acaba recebendo destaque por tratar de algo próximo das pessoas em geral, sobretudo quando recebe algum tipo de premiação. Em um mercado de trabalho competitivo, faz sentido que muitos programadores acabem se envolvendo com a área para se destacar profissionalmente. Ele demonstra ainda esta motivação empreendedora quando questionado sobre se pretendia criar outros projetos de dados abertos.

A princípio não, porque estou focando na minha empresa. (...) Eu vejo oportunidade com Copa no ano que vem e Olimpíadas em 2016, então meu objetivo, assim que tiver um tempo mais livre, é pensar em alguma coisa que seja voltada para isto. (...) Vai ter muita gente aqui na cidade, muita coisa pode ser desenvolvida. Muito aplicativo pode ser feito para auxiliar os turistas e a própria população (MIRANDA, 2013).

O discurso do entrevistado relembra como os dados públicos podem servir de material para a área dos negócios e empreendedorismo. Não só pessoas físicas, mas também organizações podem se beneficiar da circulação e reformatação de informações públicas, que acabam tendo um impacto para empreendedores com intenção de criar serviços e sistemas vendáveis em torno dela. O aplicativo de Miranda em questão não possuía nenhuma forma de renda, mas ele vislumbra esta área de um modo em geral como uma possível fonte para criação de negócios e serviços. Felipe Barreto, outro entrevistado, também demonstra ter esta preocupação em mente: “Eu acredito que os dados públicos possam ser usados mesmo por empresas pra acabar melhorando serviços e gerando talvez uma nova indústria, um novo tipo de economia” (BARRETO, 2013). Mesmo Barreto se enquadrando em outro perfil, o matemático, ele destaca esta importância. Similarmente, Rondon também integra outro perfil mas ressalta o mesmo tipo de uso. “Hoje, você vê, existem empresas de tecnologia que montam relatórios baseados em dados de governo. Sejam dados de licitação, movimentos que

existem dentro do governo. Esses dados podem ser utilizados por empresas” (RONDON, 2013). A comercialização é mais uma esfera na qual a transparência pode acabar gerando aplicações, que também estão sendo exploradas, como se observa. Como Castells (2003) resgata, os empresários são um dos grupos que ajudou a formar a internet como se conhece hoje, desenvolvendo empresas e negócios que foram explorando os limites da rede e a comercializando. A criação de negócios e oportunidades profissionais em torno de mais esta instância do ambiente digital está muito amparada por este antecedente histórico.

Como a motivação não estava ligada a algum tema específico (como se daria com o perfil especialista, por exemplo), a área trabalhada pelo aplicativo de Miranda acabou sendo incorporada por razões de outra ordem. A qualidade dos dados teve papel importante. Ele explica que, a partir do interesse em participar da competição, pediu sugestões a familiares sobre que tipo de projeto poderia desenvolver. Uma das ideias, que ele acabou aceitando, era esta sobre visualização e avaliação de obras públicas.

Eu estava na internet, aí vi que ia ter essa competição, o prêmio era legal, decidir entrar. Vi essa parte do database55 deles, o Rio Datamine56. Aí entrei no site pra ver

quais eram os dados que eles tinham abertos lá para a gente usar. Tem alguns dados que são bem legais: esse de obras, por exemplo. Eles têm alguns dados de trânsito também (...). É, os dados de obras estavam bem legais sim (MIRANDA, 2013).

O fato de os dados estarem organizados, com nomenclaturas e metadados57 corretos e atualizados foi importante para que o criador investisse nessa temática específica. Na verdade, Miranda também inscreveu um aplicativo de restaurantes na competição, mas cujos dados não estavam devidamente organizados.

Mas embora tenha iniciado dentro deste quadro de motivações, não é possível dizer que a intenção de Miranda não tangencie também uma preocupação com um lado social de seu projeto. Ele destaca que sua intenção desde o início também era construir algo que “fosse útil para a população” (MIRANDA, 2013). Apesar de essa não ser sua motivação primária, ele percebe importância social no seu app.

Acho que seria uma coisa muito boa para as pessoas participarem mais, saberem o que tá acontecendo com o dinheiro público, onde está sendo investido. Você vê uma obra e pensa „o cara está gastando tudo isso nessa obra, essa obra não tem nada demais‟, então você acaba controlando também essa parte. Aqui na minha cidade, Niterói, o que mais acontece é isso. Então acho que o aplicativo ajudaria. (...)

55 Banco de dados, em inglês.

56 Site que reúne os bancos de dados da Prefeitura do Rio de Janeiro: http://riodatamine.com.br/.

57 Precisamente, os “dados sobre os dados”. São as informações em uma base de dados que relatam o que são os

Quando você tem uma interface que te auxilia a ver isso, fica fácil pra qualquer pessoa ter acesso. Com a população tendo acesso a esses dados acredito que a corrupção e o desvio de verbas seriam menores porque o povo estaria de olho. Você acaba então de repente melhorando a qualidade das obras que são feitas, porque o pessoal vai reclamar e eles vão ter que dar um jeito de melhorar aquilo. Senão o povo vai pra rua de novo (MIRANDA, 2013).

Aparece também uma intenção de aproximar governo e pessoas em geral, hoje esferas que podem acabar parecendo distantes uma da outra. Isto é uma demonstração das tensões que o objeto contém. A motivação inicial era relativa ao campo profissional e ao consequente desenvolvimento pessoal. Mas uma preocupação com o que o uso do aplicativo vai gerar também se faz presente. Embora haja essa atenção, o enquadramento do entrevistado é no perfil de empreendedor pois esta motivação se mostra anterior a outras. Esta primeira intenção de se desenvolver profissionalmente o levou inicialmente à iniciativa, que por sua vez pode acabar abrindo portas para outras agendas.