3. METODE
3.4 K RITISKE REFLEKSJONER RUNDT EGNE METODEVALG
Robert Merton, sociólogo americano, foi pioneiro ao pensar a Ciência, Tecnolo- gia e Sociedade como um trinômio indissociável. Este campo, que logo passou a ser conhecido pela sigla CTS, expandiu a compreensão da ciência e sua atuação no contexto contemporâneo.
De acordo com Merton (1979, p. 38), após um longo período de “relativa segu- rança, durante o qual o culto à ciência e a difusão dos conhecimentos tinham chegado a uma posição de destaque (...) na escala de valores culturais, os cientistas se vêem obri- gados a justificar os caminhos da ciência para os homens”. Isso representou uma mu- dança de pensamento sobre a ciência, em que seus resultados seriam auto-explicativos, dispensando a necessidade de convencimento social de suas atividades.
Muito disto resultou da utilização da ciência e da tecnologia para desenvolvi- mento de aparatos que contribuíram para a violência, durante a Segunda Guerra Mundi- al. O desenvolvimento da ciência começa a ficar marcado por interesses de cientistas e não-cientistas – sejam estes ligados à política, à religião ou grupos de pressão.
Na década de 1960, a ideia de Merton era estudar as comunidades científicas, mais especificamente: os cientistas. Sua visão era externalista, ou seja, buscava conhe- cer como as outras instituições influenciavam a ciência. Uma virada epistemológica ocorre na década de 1970, quando Thomas Kuhn propõe uma investigação internalista,
45 isto é, visando às influências dos próprios pesquisadores. Kuhn e suas teorias serão revi- sadas adiante.
No contexto da Guerra Fria, com o estímulo da corrida armamentista e separação do mundo em dois lados políticos, Merton (1979, p. 38) pensou num ethos baseado no “alargamento dos conhecimentos certificados”, que resulta nos quatro imperativos da ciência: universalismo, comunalismo, desinteresse e ceticismo organizado, cujos con- ceitos se complementam.
“O imperativo de universalismo tem raízes profundas no caráter impessoal da ciência”, explica Merton (1979, p. 41-42)3. O autor acrescenta que “a aceitação ou a rejeição dos pedidos de ingresso nos registros da ciência não devem depender dos atri- butos pessoais ou sociais do requerente; não têm importância em si mesmas a raça, a nacionalidade, a religião e as qualidades de classe ou pessoais”.
Este fundamento estaria amparado nas bases da democracia, que oferece a opor- tunidade de livre exercício de pesquisas científicas, independentemente a quais grupos sociais pertence o cidadão. Os trabalhos científicos devem seguir parâmetros universais, para que sejam compreendidos por especialistas de todas as nacionalidades.
O comunalismo, ou comunismo, sustenta que “as descobertas substantivas da ciência são produto da colaboração social e estão destinados à comunidade” (MERTON, 1979, p. 45). A propriedade intelectual estaria limitada à “gratidão e à estima” de seu reconhecimento.
Neste cenário, o conhecimento científico deve ser visto como propriedade da humanidade, não podendo estar restrito a grupos dominantes. Para Merton, o objetivo seria uma “cooperação competitiva”, cujos resultados seriam “comunizados”. “O con- ceito institucional da ciência como parte do domínio público está ligado ao imperativo da comunicação dos resultados (...). A pressão para a difusão dos resultados é reforçada pela meta institucional de ampliar as fronteiras do saber (...)” (MERTON, 1979, p. 47).
Outra justificativa para o comunalismo seria a dependência das novas descober- tas de herança cultural à qual os cientistas não têm direitos diferenciais. Este quadro reforça o caráter cooperativo da ciência.
Com relação ao desinteresse, Merton (1979, p. 49) explica:
Ao cientista têm sido atribuídos a paixão pelo saber, uma curiosidade ociosa, um interesse altruísta pelo benefício da humanidade e muitos
46 outros motivos especiais. A procura das motivações distintivas parece ter sido mal orientada. É antes um padrão típico de controle instituci- onal de uma ampla margem de motivações o que caracteriza o com- portamento dos cientistas.
Esta afirmação estaria amparada pela revisão dos pares, em que os resultados das pesquisas passariam pelo crivo dos colegas peritos. Esta circunstância contribuiria, se- gundo Merton (1979, p. 50), para a “integridade do homem de ciência”. “O cientista não lida com uma clientela leiga, como o fazem o médico e o advogado. A possibilidade de explorar a credulidade, a ignorância ou a necessidade do leigo está assim consideravel- mente reduzida”, defende Merton (1979, p. 50).
O quarto imperativo proposto pelo autor (1979, p. 51), de ceticismo organizado, sugere que o cientista compactue com a “suspensão do julgamento (...) e o exame im- parcial das crenças, de acordo com os critérios empíricos e lógicos”. Isso quer dizer que o cientista, ao desenvolver sua pesquisa, deve se privar de preconceitos, conclusões pre- cipitadas, interferências políticas, religiosas e de outras naturezas. Ele deve ter a liber- dade de pesquisar os assuntos que julgar pertinentes e submeter os resultados ao escru- tínio da comunidade científica. É por isso que Merton (1979. p. 51-52) afirma que o “pesquisador científico não respeita a separação entre o sagrado e o profano, entre o que exige respeito sem crítica e o que pode ser objetivamente analisado”.
Estes quatro imperativos foram alvo de muitas críticas. Uma delas se refere ao tom moralizante e normativo que imputa à ciência e aos cientistas, afastando-se da prá- tica e retratando um modelo idealizado de comunidade científica.
Contemporaneamente, o comunalismo está cerceado pelo sigilo das patentes. O conhecimento certificado oferece meios de se garantir o direito de exploração comerci- al, refutando os ideais deste imperativo. O desinteresse, como uma extensão das “in- fluências” das patentes, estaria comprometido pelo uso comercial do conhecimento, em que os cientistas não estariam comprometidos apenas com “a paixão pelo saber” e em “benefício da humanidade”. Haveria também interesses econômicos, de poder, de posi- cionamento social, entre outros.
Com relação ao ceticismo organizado, não é comum que os cientistas façam a suspensão do julgamento crítico e do exame imparcial das crenças (suas próprias e da comunidade). Esses trabalhos, muitas vezes, são produzidos com vieses econômicos ou políticos, com interferências religiosas e da sociedade, distanciando-se dos ideais do imperativo de ceticismo organizado.
47 É verdade que as pesquisas científicas passam por avaliação de pares, ou seja, é submetida ao escrutínio de outros cientistas. Mas para por aí. A comunidade não- científica não tem voz nesse julgamento, tornando comprometida a questão do escrutí- nio. A avaliação dos pares não foi suficiente, por exemplo, para impedir que alguns ex- perimentos resultassem em tragédias e genocídios, como as produções bélicas.
Esta forma de concepção da sociologia da ciência esbarrou no questionamento de vários autores a partir da década de 1960. Um dos problemas identificados era que a sociologia da ciência não “se ocupa com qualquer influência do meio social no conteú- do da ciência, mas apenas com as condições sociais que moldam a organização da ciên- cia” (PESSOA JUNIOR, 1993, p. 4).
Das perspectivas que propunham uma nova visão sobre a sociologia da ciência, em detrimento daquela funcionalista apresentada por Merton, a de Thomas Kuhn obteve grande repercussão. Para ele, a transição entre teorias científicas ocorre através de revo- luções. Os períodos em que não há revoluções são classificados pelo autor como “ciên- cia normal”. As teorias científicas que predominam neste período constituem o “para- digma”, que é o conjunto de crenças e valores de uma dada comunidade científica, inse- rida em seu período histórico e contexto social.
De acordo com as ideias de Kuhn (1979), a revolução ocorre se uma teoria (ou conjunto de teorias) apresenta-se em crise, ou seja, quando encontra dificuldades para resolver problemas. Um novo paradigma surge quando novas propostas solucionam as lacunas anteriores, levando a uma refutação do paradigma anterior.
As novas perspectivas indicam rupturas na a transição entre teorias – ao contrá- rio da ampliação cumulativa de conhecimento concebida anteriormente. Há influências do contexto social na escolha das teorias. Assim, as tecnologias e correntes científicas são pautadas não apenas por bases sólidas de pesquisas e experimentos, mas também de acordo com forças externas ao campo científico.
A visão de Merton é externalista, ou seja, investigava as influências que a ciên- cia sofria de outras instituições sociais. Com a virada epistemológica, os estudos passam a investigar o funcionamento da própria produção científica e as influências que sofre dos próprios pesquisadores, de maneira internalista.
Outras perspectivas são desencadeadas a partir de então, quando David Bloor propõe o Programa Forte de investigação da ciência, sugerindo que os fatos seriam soci- almente produzidos.
48 A sociologia do conhecimento concentra-se na distribuição da crença e nos vários fatores que a influenciam. Por exemplo: como o conhe- cimento é transmitido, quão estável ele é, que processos intervêm na sua criação e manutenção, e como ele é organizado e distribuído em diferentes disciplinas ou esferas? (BLOOR, 2010 p.18)
Como ressalta o autor, as formas de comunicação do conhecimento devem ser objetos de estudo científico. Para Bloor (2010, p. 21), há quatro princípios que regem o Programa Forte: causalidade, imparcialidade, simetria e reflexividade. A sociologia “deverá ser causal, ou seja, interessada nas condições que ocasionam as crenças ou os estados de conhecimento”. Há outras causas além das sociais que devem ser investiga- das nesse processo de pesquisa. “Ela deverá ser imparcial com respeito à verdade e à falsidade, racionalidade e irracionalidade, sucesso ou fracasso”. O autor explica que ambos os lados devem ser investigados. A fisiologia, por exemplo, deve estudar o orga- nismo tanto na saúde quanto na doença e a mecânica, tanto a máquina que funciona quanto a que não funciona. A sociologia “deverá ser simétrica em seu estilo de explica- ção. Os mesmos tipos de causa deverão explicar, digamos, crenças verdadeiras e falsas”. Por fim, sobre a reflexividade, Bloor (2010, p. 21) explica que “seus padrões de expli- cação terão que ser aplicáveis, a princípio, à própria sociologia”.
Para Karin Knorr-Cetina (1999, p. 377), a ciência enquanto prática está envolvi- da em diversos contextos e envolve atores com variados repertórios, cunhando-se a ex- pressão “cultura epistêmica”. “São as culturas dos cenários do conhecimento: os pa- drões agregados e as dinâmicas que se exibem na prática dos peritos e que variam con- soante os diferentes cenários dos saberes de peritos”. De acordo com a autora, há desu- nião da ciência e do conhecimento.
Por ser um empreendimento coletivo, que necessita de validação e reconheci- mento social, a ciência necessita da comunicação para atingir seus públicos – ora os próprios cientistas ora os não-especialistas. “Tal como aumentaram o número de cientis- tas e o volume de financiamento da investigação, também aumentou a quantidade de informação científica e o número de revistas e publicações”, explica Knorr-Cetina (1999, p. 379). As primeiras revista científicas datam de 1665, segundo a autora.
A interação e a divulgação do conhecimento científico, contudo, podem acarre- tar tanto modificações na mensagem original quanto resultados emergentes. Esse pro- cesso foi batizado por Knorr-Cetina (1999) como “negociação interativa” e “definição
49 de sentido”. As negociações de sentido não se restringem à esfera científica: influências externas também ditam caminhos e definições a serem adotados.
O processo de comunicação também envolve o que a mesma autora classificou como “folga epistêmica”, que leva em consideração:
a deriva e a flexibilidade em questões relativas à identidade dos re- sultados experimentais (“O que é eu estou a ver?”), em questões de validade (“Estou ou não a ver um artefato?”), de objetividade (“Será que, de uma maneira ou de outra, tive influência no resultado?”), re- plicabilidade (“O que é que pode ser considerado uma replicação exata de uma experiência?”), verdade (“Como é que o resultado po- de ser comparado com outros resultados?”), na identidade através do tempo (na interpretação dos resultados obtidos por outra pes- soa), e assim por diante (KNORR-CETINA, ano, p. 382).
A divulgação do conhecimento envolve crédito e credibilidade científica, que permite ao especialista a obter ainda mais crédito simbólico ao desenvolver sua produ- ção bibliográfica. Para tanto, precisa que os pares referenciem suas obras e atribuam a elas representações de uma realidade.
Bruno Latour e Steve Woolgar também contribuem para as novas perspectivas da sociologia da ciência, analisando práticas linguísticas dentro do laboratório. Neste contexto, os autores discutem os movimentos persuasivos e de negociação que suscitam antes mesmo de conceitos científicos serem publicados. Em síntese, os fatos científicos, e suas formas de comunicação, são entendidos como construções sociais.
Para Woolgar (1995), o sociólogo que se dedica ao estudo das relações no labo- ratório, em trabalho etnográfico, deve demonstrar diversas normas sociais e cognitivas que influenciam os cientistas durante o processo de produção do conhecimento. O autor descreve duas vertentes desta pesquisa: a etnografia instrumental e a reflexiva.
A instrumental trata da observação in loco do trabalho em laboratório. “Assim, os conteúdos de informes formais de investigação poderiam contrastar com o que ‘re- almente’ ocorre no laboratório para defender que a ciência é um processo social” (WO- OGAR, 1995, p. 2244). Ao contrário desta prática, Woogar defende que a etnografia reflexiva foge da mera descrição sobre o cotidiano dos laboratórios.
50 Em primeiro lugar, o objetivo da etnografia reflexiva é obter conhe- cimento sobre os processos gerais das práticas de raciocínio. (...) Se- gundo, contudo, a localização da experiência etnográfica oferece o estímulo para (...) a indagação reflexiva; a etnografia reflexiva da ci- ência supõe um estudo feito em um laboratório, não de um laborató- rio. Terceiro, prevê-se que a etnografia reflexiva gere um conheci- mento das práticas de raciocínio tal e como se desdobrem nas análi- ses. Em quarto lugar, o objetivo de se aceitar o que foi denominado como o problema da possibilidade de falha. Em vez de fingir que não existe, que não afeta a nossa prática analítica, o que ser chamado se- letivamente com propósito de crítica, uma etnografia reflexiva busca- ria vias de reter e destacar sua presença (...). (WOOGAR, 1995, p. 229).
Para Latour (1995), a diferença entre internalismo e externalismo é irrelevante para os estudos de laboratório. Isso porque os procedimentos que envolvem a rotina de um laboratório ignoram o exterior. Em sua formulação, há três etapas essenciais para a formulação de uma sociologia da ciência: “a dissolução da fronteira interno/externo, a inversão de escalas e níveis e, finalmente, o processo de inscrição” (LATOUR, 1995, p. 2525).
De acordo com o autor, o laboratório é o único lugar em que o cientista é apto a desenvolver seu trabalho. Isso porque, longe dos olhos do público, ele pode cometer quantos erros forem necessários até que um resultado plausível e que possa ser reprodu- zido fora do laboratório seja alcançado.
No laboratório, é possível inverter as escalas, tornando as epidemias pequenas e os micróbios grandes. Assim, é possível investigar todas as variáveis dos agentes causa- dores de grandes males e buscar soluções que satisfaçam às necessidades e anseios para a solução do problema. O laboratório é um microambiente que amplia a escala de atores microscópicos, isolando-os da macroestrutura existente fora do laboratório e reprodu- zindo quantas vezes forem necessárias as investigações.
O processo de inscrição, ou de escrita, é o que determina o compartilhamento dos resultados obtidos com as pesquisas. É quando o cientista passa para o papel, atra- vés de gráficos, tabelas e texto, as conclusões sobre seus estudos. Aí, inicia-se o proces- so de convencimento de outros cientistas e da sociedade. Dificilmente, argumentos ori- undos da macroestrutura externa aos laboratórios superará aqueles gerados pelos estudi-
51 osos em seu ambiente de trabalho, cujos dados e repetidos erros lhes dão respaldo para sustentação de sua argumentação.
A especificidade da ciência não reside em suas qualidades cognitivas, sociais e psicológicas, mas está na construção especial dos laborató- rios e em como eles invertem a escala dos fenômenos de maneira que as coisas resultem legíveis e seja possível acelerar a frequência das provas para que se possam praticar e registrar todos os seus er- ros. (LATOUR, ano, p. 254).
Latour atribui ao laboratório o crédito obtido pelas pesquisas científicas. Mesmo estudos que não são desenvolvidos dentro de laboratórios buscam esta valoração para aumentar o crédito de suas análises. Adiante, será discutido Bourdieu e as relações entre poder simbólico e crédito científico. Antes, contudo, revisamos a comunicação pública da ciência, tema da próxima seção.
2.2 Comunicação pública de ciência e tecnologia