3 OSLO, ETTER 1968
3.1 K ONKURRERENDE IDEOLOGIER
Escolhido em 2008 pela revista Diapason para representar o violoncelo francês, juntamente com cerca de dez colegas de sua geração, Alexis Descharmes é um embaixador ativo de vários repertórios violoncelo. Nascido em 1977 e formado no Conservatório de Paris (nas classes de Michel Strauss e Philippe Muller), ele foi o vencedor do Concurso Valentino Bucchi (1997) e do Concurso Avant-Scenes (1999) e sucessivamente recebeu apoio de diferentes fundações (Fondation Jean Brizard, Fonds Instrumental Français, Fondation Meyer, Mecenat Musical Société Générale e Fondation Natexis). Ele já trabalhou com o Ensemble Intercontemporain, com o Ensemble Alternance, com o Ensemble Court-circuit e colabora regularmente com o IRCAM.
Dedicatória de cerca de cinqüenta obras contemporâneas, concertantes e também solo (Durieux, Fedele, Francesconi, Hervé, Hurel, Imai, Lanza, Levy, Mantovani, Matalon, Nillni, Pesson, Posadas, Reynolds, Saariaho, Schoeller, Solbiati, Stroppa...). A discografia de Alexis Descharmes é composta por cerca de vinte gravações, em projetos solo ou com os conjuntos acima mencionados, com os
quais ele tem aparecido em vários festivais e em cerca de trinta países. Desde 2004 ele grava para o selo æon, que lançou os premiados discos com as obras para violoncelo de Kaija Saariaho, Franz Liszt, e as antologias de Schubert e de Klaus Huber com seu fiel parceiro Sébastien Vichard. Alexis Descharmes entrou para a Orquestra da Ópera Nacional de Paris em 2006. Desde 2004, colabora regularmente com a embaixada francesa em Washington para o Ciclo de Música Contemporânea de La Maison Française. Ele também se juntou ao NGA New Music Ensemble em 2010.
1- Qual foi o maior desafio e o maior crescimento que Sept Papillons ofereceu a você, como intérprete?
Alexis Descharmes: Esta peça me ensinou a trabalhar as relações de alturas físicas das cordas entre si. A mistura permanente de notas presas e harmônicos (quer sejam eles naturais ou artificiais) modifica o ângulo das cordas entre elas, e implica em que o performer ajuste/ adapte permanentemente os seus movimentos de arco para obter uma fluência que ele certamente teria caso todas as notas fossem presas (ou harmônicos) (ver o Papillon 2). Esta peça também me fez tomar consciência da significativa diferença de altura das cordas à medida que nós tocamos em direção ao cavalete ou ao espelho. O último compasso do Papillon 1 é o exemplo mais eloqüente, que permite que ao caminhar em direção ao espelho sejam alcançadas as notas de volta sucessivamente vibrando as cordas I + II e I + II + III e III + I, o que demonstra o incrível conhecimento dos instrumentos de cordas por Saariaho.
2- Sept Papillons é uma peça com amplo uso de harmônicos. Os harmônicos desempenham um papel essencial na construção tímbrica e formal da peça, contribuindo para a atmosfera etérea da peça. Levando em conta sua formação anterior à peça, você possuía todos os conhecimentos necessários para trabalhar com os harmônicos de Sept Papillons? Caso a resposta seja sim, como foi sua formação com relação ao conhecimento, compreensão e prática dos harmônicos? Caso a resposta seja não, como você enfrentou e superou o desafio de lidar com harmônicos na preparação da performance de Sept Papillons?
Alexis Descharmes: A resposta é SIM. Eu já conhecia muito bem as possibilidades harmônicas do violoncelo, embora eu me lembre de ter me surpreendido com a possibilidade de uma bariolage entre 4 Lás idênticos em 4
cordas diferentes (Papillon 2, compasso 18). Mas eu havia tocado há apenas alguns anos a peça Près, de Saariaho, para violoncelo e eletrônicos, que me fez trabalhar em profundidade a alternância entre notas presas e harmônicos (o segundo movimento em particular), isso envolveu um trabalho de mão esquerda em 3 dimensões, o que é bastante difícil, especialmente com velocidade. A principal dificuldade é que a corda não vibra da mesma forma com um harmônico ou uma nota presa, por isso, é necessário ajustar/adaptar o ponto de contato do arco na corda para cada nota, e modificar constantemente a relação entre Pressão/ Velocidade do arco. Mas essa é a base do trabalho na música espectral ou mais geralmente nas músicas que exploram o som em profundidade, desde seus mais puros harmônicos até seus sons saturados mais complexos (ver todos os sons esmagados, no Papillon 4, por exemplo).
3- A partitura de Sept Papillons indica os harmônicos a serem tocados. Entretanto não há uma linha auxiliar indicando as alturas que devem soar com aqueles harmônicos, procedimento encontrado em peças como Spins and Spells, também de Kaija Saariaho e Aye theres the rub, de Marco Stroppa. O que você acha, como intérprete, deste tipo de indicação? Para você esta indicação adicional é necessária ou desnecessária? Por quê?
Alexis Descharmes: É muito diferente! "Spins e Spells" e "Aye there's the rub" são peças nas quais o violoncelo está outra afinação [scordatura] (e está muito [em outra afinação]!). Por isso, é importante especificar o som da nota, além da nota que deve ser tocada, para se certificar de que os intérpretes vão tocar a nota certa. Em Sept Papillons não há uma scordatura particular/ específica. A única dúvida que poderia ocorrer é aquela sobre a escolha das cordas em que tocaremos os harmônicos. Mas Saariaho faz esta especificação toda vez que existem aí várias possibilidades (ver Papillon IV, compassos 12-14).
4- Há uma rica e interessante contradição na preparação da performance de Sept Papillons: grande controle e domínio técnicos são necessários para uma bem-sucedida performance da peça, que cria, por sua vez, uma atmosfera sutil, frágil, mágica e etérea. Do ponto de vista da intensidade e do volume, a peça exige do intérprete uma gama diversa de dinâmicas de médio e baixo volume. A dinâmica forte é indicada apenas em 2 papillons (IV e VII). Como você trabalhou e compreendeu, como intérprete, a preparação de uma peça tão singular neste sentido?
Alexis Descharmes: Este é todo o interesse da obra: sua fragilidade! Para ver e ouvir o desenvolver/ desabrochar de uma borboleta, é preciso um grande silêncio, uma bela luz, e uma flor bonita! Para interpretar/ representar as Sete Borboletas de Saariaho, você precisa de um bom som, um público silencioso, e uma excelente preparação do intérprete: a este respeito, esta é, sem dúvidas, a mais difícil de todas as peças de Kaija. É preciso estar absolutamente receptivo a todas as sensações digitais e auditivas, para restituir com precisão cirúrgica cada forma de tocar. Uma borboleta é veloz, frágil, precisa, rápida, muda de direção o tempo todo, mas quando ela pousa, ela torna-se perfeitamente imóvel e não deve tremer/ hesitar (ver Papillon VI, compasso 7)! (Não é fácil!).
5- Você realizou algum tipo de abordagem analítica de Sept Papillons antes ou durante a preparação da performance que pôde melhorar ou auxiliar sua interpretação? Caso a resposta seja sim, você pode nos falar sobre isto? Caso a resposta seja não, como você construiu sua interpretação desta obra?
Alexis Descharmes: Eu analiso as peças na medida em que eu trabalho com elas. Por isso, a análise não é, logicamente, uma análise da forma (que é evidente), mas sim uma análise dos diferentes campos harmônicos. Isso permite que não percamos de vista de onde partimos e para onde estamos indo, e que não nos percamos em público (e percamos o público, ao mesmo tempo!).