Ao contrário do que faria supor o leitor, este não é mais um trabalho que tem como perspectiva debater, academicamente, apenas a relevância e o status histórico do modernismo em suas mais variadas facetas. O que interessa é debater a trajetória intelectual de Oswald de Andrade (1890-1954), especificamente, no que diz respeito aos seus escritos literários e não apenas “adicionar um novo e gracioso rodeio teórico”33 à extensa literatura que abarca a análise do movimento modernista iniciado em São Paulo, no limiar do século XX.
É certo que alguns diálogos intelectuais promovem o contato entre diversos escritores e demais artistas que se viram imersos na composição de um quadro cultural amplo, que permitiu a intervenção do modernismo em São Paulo. Graça Aranha, Mário de Andrade, Anita Malfatti, Di Cavalcanti, Monteiro Lobato, Menotti del Picchia, Victor Brecheret, entre tantos outros, estiveram no entorno de ações artísticas ao lado de Oswald de Andrade34. Neste sentido, discutir os ditos e escritos de Oswald de Andrade
31 SGANZERLA, Rogério. Por um cinema sem limite. Rio de Janeiro: Azougue Editorial, 2001. p.13-14 32 “Um plano que mostra o assunto à distância. Os personagens são vistos em sua totalidade, geralmente
relacionando-se com seu ambiente.” In: BERGAN, Ronald. ...ismos: para entender o cinema. São Paulo: Globo, 2010. p.147
33 FARIA, Daniel. O mito modernista. Uberlândia: EDUFU, 2006. p.13
34 “O núcleo pioneiro que daria as coordenadas do modernismo era constituído pelos poetas Mário e
Oswald de Andrade, Menotti Del Picchia, Guilherme de Almeida, Agenor Barbosa, os pintores Anita Malfatti e Di Cavalcanti e o escultor Victor Brecheret. Do Rio de Janeiro, receberam a adesão de Ribeiro Couto, Manuel Bandeira, Renato de Almeida, Villa-Lobos, Olegário Mariano e Ronald de Carvalho entre
por meio do modernismo se tornou o horizonte analítico de considerável parcela dos trabalhos acadêmicos que versam sobre o tema.35 Entretanto, a preferência daqueles que analisam tanto o tema “modernismo” quanto a trajetória de Oswald de Andrade tem ocorrido através da instituição, quase unilateral, de análises que privilegiam perspectivas que se orientam, sobretudo, por interpretações estilísticas, reforçando ora o “ideal” modernista (como as tentativas, efetuadas pela mudança de postura de alguns autores como Mário de Andrade e Graça Aranha, por exemplo, no que concerne ao estabelecimento de um novo discurso literário para o país), ora o empenho público, político de alguns escritores em fazer parte de um “movimento novo”, deixando de lado suas respectivas “contribuições” no tocante à literatura nacional.
Nossa proposta de estudo segue outra orientação. Conquanto não se possa desmerecer todas essas reflexões surgidas em torno do modernismo, não partimos, a
priori, para uma discussão que procure avaliar a legitimidade do “movimento” ou os interesses particulares daqueles que estiveram envolvidos com o tema. Importa-nos mais, neste sentido, compreender o quadro histórico que permitiu a Oswald de Andrade empreender, no campo das ideias, perspectivas literárias, políticas e estéticas que, perpassando a esfera do movimento modernista, puderam contribuir para a formação do artista e intelectual Oswald e, ao mesmo tempo, alçaram voo sobre outros períodos históricos na cultura brasileira.
Entendo ser mais relevante avaliar, historicamente, os alicerces que deram suporte aos anseios oswaldianos, no intuito não apenas de confeccionar um “novo estilo literário/artístico” mas, sobretudo, como aquela nova conjuntura artística e cultural pôde ser apreendida em outras paragens históricas por outros agentes, por meio de outras linguagens artísticas, configurando, desta forma, uma espécie de continuum artístico que, neste caso particular, poderia ter mesmo o sentido de legado.
Consideramos 1922 como o início de uma revolução cultural no Brasil. Naquele ano existiu forte movimento cultural de reação à cultura acadêmica e oficial. Deste período o expoente principal foi outros. A eles se somariam, posteriormente, a pintora Tarsila do Amaral, na Europa por ocasião da
Semana, os escritores Antônio de Alcântara Machado, Raul Bopp, Cassiano Ricardo, Plínio Salgado e o arquiteto Gregori Warchavchik.” In: CAMARGOS, Márcia. A Semana de 22: entre vaias e aplausos. São Paulo: Boitempo, 2002. p.73
35 Certamente, uma das primeiras análises literárias acerca dos escritos de Oswald de Andrade foi
efetuado por Antônio Cândido com Brigada Ligeira, no qual o referido autor volta-se para o “aspecto romanesco da obra de Oswald de Andrade”. Cf. MARTINS, Wilson. O modernismo: literatura
Oswald de Andrade. Seu trabalho cultural, sua obra, que é verdadeiramente genial, ele definiu como antropofágica, referindo-se à tradição dos índios canibais. Como esses comiam os homens brancos, assim ele dizia haver comido toda a cultura brasileira e aquela colonial. Morreu com pouquíssimos textos publicados.36
Numa entrevista à revista Caros Amigos, José Celso Martinez Corrêa afirma, ao ser reportar à sua juventude , que toda uma geração não optou nem pelo comunismo nem pelo fascismo; não abaixou a cabeça ao colonialismo americano e, assim,
(...) começou a querer descobrir a “via brasileira”, não no sentido nacionalista, mas, por exemplo, a via de você criar a partir da experiência que você tem, do seu corpo, do lugar em que você mora.37
As palavras de Zé Celso ecoaram como um libelo sobre outra geração, anterior à do diretor teatral que buscou, do seu jeito, a “via brasileira” por meio dos escritos literários da chamada “geração de escritores modernistas”38. No Brasil, principalmente na cidade de São Paulo, alguns nomes se destacaram em meio a uma proposta estética radical que propunha, numa linguagem diferente porque própria, compreender o país revelando-o a si mesmo. Ao contrário do que fora proposto acerca da ideia de “nação” que deu vazão a esse conceito na primeira década do século XIX, o limiar do novo século que se avizinhava urgia por mudanças significativas tanto na forma de estabelecer paradigmas relativos ao “ideário nacional” quanto no tocante ao conteúdo e na forma de dizê-lo.39
Sob essa perspectiva, Oswald de Andrade é um escritor emblemático. Estudos biográficos, literários, antropológicos, sociológicos e históricos buscaram, em suas especificidades, traçar linhas particulares de interpretação em relação à escrita
36 ROCHA, Glauber. Revolução do cinema novo. São Paulo: Cosac Naify, 2004. p.150 37 Zé Conselheiro. Revista Caros Amigos, São Paulo, Ano VIII, n.º85, abril de 2004, p.31
38 “O Modernismo no Brasil não foi apenas um movimento de alguns criadores, fazendo de sua visão
particular uma visão geral. (...) Abarcou todo um período do existir nacional, dentro de um processo social e econômico que se estende, num certo sentido, com renovação e aguçamento de suas premissas na mutação do tempo. (...) Quem sintetiza a necessidade do Modernismo é Alceu Amoroso Lima ao afirmar: ‘A sensação de esgotamento das formas consagradas começou a agitar profundamente a nova geração, enquanto as gerações anteriores se acomodavam às situações já adquiridas.’” [Grifos meus] In: NEJAR, Carlos. História da literatura brasileira. Rio de Janeiro: Relume Dumará; Copesul; Telos, 2007. p.188
39 NAXARA, Márcia Regina Capelari. Cientificismo e sensibilidade romântica: em busca de um
sentido explicativo para o Brasil do século XIX. Brasília: Universidade de Brasília, 2004. p.115-138
No trecho intitulado “A perpétua (re)criação das origens: história e literatura”, a autora traça um instigante quadro acerca da produção de imagens do Brasil tanto na literatura (como no romance Iracema, de José de Alencar ou por meio da análise minuciosa acerca de História da literatura brasileira de Sílvio Romero), quanto com a criação do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, IHGB, criado em 1838 e que coincide com o momento em que “a história estava se consolidando como disciplina (...)”.
oswaldiana e sua posterior análise crítica.40 A trajetória do escritor, iniciada no meio jornalístico, se mescla à história inicial do modernismo literário no Brasil, num jogo discursivo, ideológico e estético41 que, no início do século XX, marcou profundamente o mundo das artes na cidade de São Paulo. Das crônicas redigidas no jornal O Pirralho à sua produção literária mais adensada que inclui poesia, prosa (romances), escritos teatrais e manifestos de vanguarda, o percurso traçado por Oswald de Andrade se confunde com a história da literatura no Brasil.
Figura 2: Caricatura de Oswald de Andrade
Fonte: Disponível em <http://www.iel.unicamp.br/cedae/Exposicoes/Expo_Caricaturas/caricaturas_6.html>; Acesso em 05 set.2013
Não obstante todo o esforço empenhado pelo escritor em renovar os escritos literários, seus trabalhos não foram bem recebidos, à época, pela crítica literária do país, especialmente nas cidades de São Paulo e Rio de Janeiro. Restrito ao círculo
40 Em termos biográficos, consultar FONSECA, Cristina. O pensamento vivo de Oswald de Andrade.
São Paulo: Martin Claret, 1987, em que a autora traça, de forma abreviada, um perfil biográfico do autor e de algumas de suas respectivas obras literárias; FONSECA, Maria Augusta. Oswald de Andrade 1890-
1954 – biografia. São Paulo: Ars Editora, Secretaria de Estado da Cultura, 1990. No tocante a uma
abordagem literária dos escritos oswaldianos, consultar FONSECA, Maria Augusta. Por que ler Oswald
de Andrade. São Paulo: Globo, 2008; HELENA, Lúcia. Totens e tabus da modernidade brasileira: símbolo e alegoria na obra de Oswald de Andrade. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro / Universidade
Federal Fluminense, 1985. No que se refere à sociologia e a história, podemos citar: CÂNDIDO, Antônio. Oswald viajante. In: Vários Escritos. São Paulo: Duas Cidades, 1970, (p. 51-56); CÂNDIDO, Antônio. Digressão sentimental sobre Oswald de Andrade. In: Vários Escritos. São Paulo: Duas Cidades, 1970, (p. 57-88.).
41 De acordo com Lafetá, “O estudo da história literária coloca-nos sempre diante de dois problemas
fundamentais, quando se trata de desvendar o alcance e os exatos limites circunscritos por qualquer movimento de renovação estética: primeiro, é preciso verificar em que medida os meios tradicionais de expressão são afetados pelo poder transformador da nova linguagem proposta, isto é, até que ponto essa linguagem é realmente nova; em seguida, e como necessária complementação, é preciso determinar quais as relações que o movimento mantém com os outros aspectos da vida cultural (...). Decorre daí que qualquer nova proposição estética deverá ser encarada em suas duas faces (complementares e, aliás, intimamente conjugadas; não obstante, às vezes relacionadas em forte tensão): enquanto projeto estético, diretamente ligada às modificações operadas pela linguagem, e enquanto projeto ideológico, diretamente atada ao pensamento (visão-de-mundo) de sua época.” In: LAFETÁ, João Luiz. 1930: a crítica e o
modernista, num primeiro momento Oswald de Andrade granjeou certa admiração e respeito por alguns pares da Academia42. Mas a ressonância de sua obra não foi sentida de imediato durante o período em que viveu.43 O reconhecimento tardio de sua obra, no entanto, traz não apenas a importância em repensarmos sua considerável produção literária mas, sobretudo, as possibilidades advindas dessa fortuna crítica de textos, os diálogos estabelecidos por seus escritos com autores contemporâneos e os laços destes com as diferentes linguagens artísticas no Brasil.
Não é hábito, no Brasil, a obra de invenção. É verdade que, com o Modernismo, a literatura brasileira logrou atingir uma certa autonomia de voz, que, porém, acabou cedendo a toda sorte de apaziguamentos e dissoluções. Contra a reação sufocante, lutou quase sozinha a obra de Oswald de Andrade, que sofre, de há muito, um injusto e caviloso processo de olvido sob a pecha de ‘clownismo’ futurista. Na realidade, seus poemas (Poesias Reunidas O. Andrade), seus romances-invenção
Serafim Ponte Grande e Memórias Sentimentais de João Miramar (de tiragens há muito esgotadas, para não falar de seus trabalhos esparsos e inéditos), que ainda hoje, por sua inexorável ousadia, continuam a apavorar os editores, são uma raridade no desolado panorama artístico brasileiro. A violenta compressão a que Oswald submete o poema, atingindo sínteses diretas, propõe um problema de funcionalidade orgânica que causa espécie em confronto com o vício retórico nacional, a que não se furtaram, em derramamentos piegas, os próprios modernistas e que anula boa parte da obra de uma Mário de Andrade, por exemplo.44
O caminho de formação intelectual de Oswald de Andrade começa a se formar no ventre materno. De origens genealógicas45 que amalgamavam, a um só tempo, os
42 Podemos citar, a título de exemplo, Antônio Cândido e Mário da Silva Brito.
43 Sobre esse aspecto, é interessante o relato de Marília de Andrade, uma das filhas do escritor, para
percebermos o distanciamento temporal e o momento em que os trabalhos de Oswald de Andrade começaram a ser revistos no Brasil. Diz Marília de Andrade: “Em 1967, finalmente, treze anos após a morte do Oswald, o Paulo Marcos chegou em casa excitado com a notícia de que José Celso resolvera montar O Rei da Vela. Todas as vezes em que assisti ao espetáculo, não pude conter a emoção ao perceber o entusiasmo do público. Queria que o Oswald estivesse vivo para ver seu texto aplaudido de pé. Esta encenação marcou, para mim, o primeiro reconhecimento público do Oswald, o início de sua trajetória de mito e de herói popular.” ANDRADE, Marília. Oswald e Maria Antonieta – Fragmentos, memórias e fantasia. In: ROCHA, João Cezar de Castro; RUFINELLI, Jorge (Orgs.). Antropofagia
hoje? Oswald de Andrade em cena. São Paulo: É Realizações, 2011. p.42-43
44 Augusto de Campos / Haroldo de Campos em entrevista ao Jornal Popular, de São Paulo, em 22 de
dezembro de 1956. Apud: CAMPOS, Augusto de. Pós-Oswalds. Jornal O Estado de S. Paulo. São Paulo, Sabático, sábado, 2 jul. 2011, p.S4-S5
45De acordo com Antônio Cândido, Oswald de Andrade “com ar de estar fazendo blague, nunca deixava
de mencionar por escrito ou em conversa, quando fosse o caso, que era descendente do capitão-mor Tomé Rodrigues Nogueira do Ó, fundador de Baependi no começo do século XVIII e tronco de uma importante família mineira depois alastrada por São Paulo e Rio, com marqueses, condes e barões no império. Isso, do lado do pai, José Oswald Nogueira de Andrade. Pelo lado da mãe se orgulhava de descender dos
“(...) indolentes fidalgos de Mazagão”, do lado materno e, do paterno, a tenacidade dos “açorianos”46, Oswald de Andrade se deu o direito de transitar livremente por diferentes espaços culturais e “edificar” sua personalidade literária entre dubiedades e paradoxos existenciais.47 Neste pêndulo intelectual, que ora arranha a verve do populacho, ora se vê enquanto parte de uma corroída aristocracia, Oswald de Andrade colocou em cena não apenas as influências literárias que o fizeram tecer, de formas nada convencionais, o Brasil dentro de São Paulo, Paris no cotidiano da Avenida Ipiranga, Wall Street sob as cortinas do Teatro Municipal em São Paulo. Se Oswald de Andrade fez de si o protótipo do escritor errante por meio de sua trajetória intelectual ou através da diversidade de seus escritos, é preciso, então, traçar uma linha interpretativa deste horizonte de expectativas que seja capaz de apontar os significados e os sentidos afeitos a uma estética artística que projetou, por meio da literatura, outra concepção do “ser brasileiro”, do “caráter brasileiro” nas primeiras décadas do século XX.
Em Oswald de Andrade, o esteio jornalístico insinua, por meio de uma análise refinada de seus artigos, uma crítica social que se ajusta ao cômico e ao trágico. “Penando”, o primeiro artigo publicado no jornal Diário Popular em 1909, já indicava por onde passaria o senso crítico do jornalista: o traço da galhofa sustentando a análise do articulista.48 A escrita “ligeira”, amparada pela rapidez do jornalismo e pela sintaxe literária desvela, nas entrelinhas, as preocupações do intelectual e do artista consciente de sua ação no mundo.49
“Sousas de Mazagão”, defensores desta última praça-forte portuguesa em Marrocos, aos quais contava que o rei d. José I mandara ‘dar o Pará’, depois de Pombal lhe haver dito, em reposta a uma pergunta desdenhosa, que eram ‘tão nobres quanto Vossa Majestade’”. In: CÂNDIDO, Antônio. Recortes. Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul, 2004, p.43. Sobre a família do menino Oswald de Andrade, Marcos Augusto Gonçalves observa que “a mãe, Inês Henriqueta de Sousa Andrade, e o pai, José Oswald Nogueira de Andrade, descendiam de famílias tradicionais; ela, com raízes na Amazônia, vinha dos Souza Marzagão, fundadores do Pará; ele, de Minas Gerais, tinha sangue do bandeirante Thomé Rodrigues Nogueira do Ó, que morou em Baependi no início do século XVIII e é antepassado de outros brasileiros conhecidos, como o escritor Raul Pompeia e o senador Eduardo Suplicy.” In: GONÇALVES, Marcos Augusto. 1922:
a semana que não terminou. São Paulo: Companhia das Letras, 2012. p.134
46 FONSECA, Cristina. O pensamento vivo de Oswald de Andrade. São Paulo: Martin Claret, 1987.
p.13
47 Afirma Oswald de Andrade: “(...) É natural, pois, que dentro de mim se debatam o trabalhador e o
aristocrata, o homem da rua, que atravessa na frente dos automóveis para não parar e o enlevado que quer ficar em casa, escrevendo ou lendo”. Ibid.
48 O artigo “Penando” analisa a excursão do então Presidente do Brasil, Afonso Pena, aos Estados do
Paraná e Santa Catarina. A ironia presente no título do artigo indica as dificuldades vividas pelo Presidente em sua passagem pelos dois Estados brasileiros.
49 Diz Oswald de Andrade: “(...) É preciso (...), que saibamos ocupar nosso lugar na história
contemporânea. Num mundo que se divide num combate só, não há lugar para neutros e anfíbios. (...) O papel do intelectual e do artista é tão importante hoje como o do guerreiro de primeira linha”. In: FONSECA, Cristina. O pensamento vivo de Oswald de Andrade. São Paulo: Martin Claret, 1987. p.14
Aqui, a posição política do intelectual/escritor se reveste de um caráter de mobilização que tem como “pano de fundo” a força própria da expressão artística. Neste sentido, pensar o Brasil passa a ser uma de suas maiores preocupações na medida em que o escritor se vê diante de um dilema inerente à estrutura social brasileira que o cerca: um país atrasado economicamente, imerso num mundo que se moderniza a
fórceps. Chama a atenção, neste aspecto em particular, que a identificação do escritor com seu próprio país ocorre por meio do contato de Oswald de Andrade com o estrangeiro, o “outro”, que permite ao autor fazer da “mãe-pátria” o mote de sua escrita: “Se alguma coisa eu trouxe das minhas viagens à Europa dentre duas guerras, foi o Brasil mesmo.”50
O olhar crítico de Oswald de Andrade acerca das “coisas brasileiras” não pode ser confundido, em nenhum instante, com um culto desmedido a qualquer tipo de nacionalismo ou mesmo a uma apologia à “identidade nacional”.51 Seus escritos nos revelam, antes, uma preocupação constante com a vivência cultural brasileira que, sem negar o seu contato intelectual com o dado “estrangeiro”, procura fixar elementos analíticos e estéticos que diferenciem as manifestações artísticas e culturais oriundas de ambos os lados do Atlântico. Importa a Oswald de Andrade não o processo de mimetização da cultura do “outro”, mas o esteio de incorporação e apropriação da cultura do “outro”, por onde soprariam os ventos da novidade. Em visita às cidades históricas mineiras ao lado de Blaise Cendrars na década de 1920, o autor de Serafim
Ponte Grande já realçava a importância de se olhar o local sem perder de vista o estrangeiro. Suas observações sobre a “arquitetura mineira” sugerem tal perspectiva e, de quebra, reverberam uma crítica àqueles que apenas se preocupam em copiar as “coisas europeias”.52
50 FONSECA, Cristina. O pensamento vivo de Oswald de Andrade. São Paulo: Martin Claret, 1987.
p.14
51 “Em oposição às teorias integrativas, Mário (de Andrade) e, com ele, os modernistas estão elaborando
uma teoria pluralista do nacionalismo. Contra a fusão e a mescla, o mosaico. Contra o amálgama, a trama. A nação é uma tradução.” [Grifos meus] In: ANTELO, Raul. Transgressão & Modernidade. Ponta Grossa, PR: Editora da UEPG, 2001. p.91
52Diz Oswald de Andrade: “A arquitetura de São João del Rei, Tiradentes e Sabará e de outras [cidades]
que vamos percorrer está ai como uma censura viva aos inconscientes que pretendem transplantar para o nosso clima o horror dos bangalôs e das casas de pastelaria. As cores vivas e o aspecto sólido e calmo das casas mineiras é a melhor lição que pode ser dada aos nossos construtores. Como é um crime substituir nos altares as velhas imagens maravilhosas feitas a mão pelos nossos melhores santeiros por uma súcia de santos almofadinhas e sem caráter definido, saídos da industrialização italiana e alemã, é outro crime desprezar o cor-de-rosa das fachadas, o abrigo dos beirais e o azul das janelas – nascidos da paisagem