• No results found

A EE Antonio Carlos Ferreira Nobre está localizada no município de São Paulo, no Bairro Parque São Domingos, Região Noroeste de São Paulo, uma das áreas mais carentes da cidade, apresentando imensa desigualdade social, com escassez de escolas, hospitais e transporte e aumento de áreas de invasão. O Parque São Domingos tem uma área de 10 km², população de 90.777 habitantes (2010), densidade demográfica de 90,78 hab/ha, renda média

de R$ 1.279,40 e Índice de Desenvolvimento Humano - IDH2 6

0,854, considerado elevado em comparação com outras regiões do Estado. Uma contradição, se considerados outros indicadores da região.

Para facilitar a gestão das 5.33527 (cinco mil trezentas e trinta e cinco) unidades escolares estaduais, a Secretaria de Estado da Educação de São Paulo vinculou-as a uma Diretoria de Ensino Regional, localizadas em regiões estratégicas do Estado. A EE Antonio Carlos Ferreira Nobre vincula-se à Diretoria de Ensino da Região Norte 1.

Entre as unidades escolares da DER/Norte 1, no ano de 2010, a escola em questão foi a 14ª no ranking do Sistema de Avaliação do Rendimento Escolar do Estado de São Paulo – Saresp. Seu índice IDESP 2010 é 2,83, sendo que em Língua Portuguesa é 3,3980 e em Matemática, 2,5237. Seu IDEB 2007 é 4,6. O resultado da escola em avaliações externas é considerado satisfatório e atrai alunos de outros distritos e municípios.

O IDESP é o Índice de Desenvolvimento da Educação do Estado de São Paulo, instituído juntamente com o Programa Qualidade da Escola – PQE, por Resolução SE 74/2008, sendo medido anualmente. Para compreender o significado do IDESP para as escolas estaduais e, especialmente para a escola investigada, sugere-se uma consulta ao Boletim da Escola 2010, divulgado no site da Secretaria de Estado da Educação de São Paulo.

De modo geral, a escola apresenta indicadores educacionais – Prova Brasil, IDEB, IDESP, SARESP - superiores às demais escolas localizadas no mesmo município, Estado e país, de acordo com os registros expressos em seu Plano de Gestão (2009, p.6).

No ano de 2011 a escola atendeu 446 alunos do Ensino Fundamental - Ciclo II (6º ao 9º ano), nos períodos manhã e tarde, e contou com 21 professores, sendo 12 efetivos. Os gestores da escola não são efetivos. A escola tem 5 funcionários. A infraestrutura do prédio é adequada, o espaço físico é amplo e organizado, as carteiras usadas na sala de aula são as tradicionais; tem uma quadra de esportes, uma biblioteca adaptada, no entanto, não conta com outros espaços pedagógicos, tais quais, Sala de Leitura, Laboratórios de Ciências e Sala de

26

O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) é um dado utilizado pela Organização das Nações Unidas (ONU) para analisar a qualidade de vida de uma determinada população. Os critérios utilizados para calcular o IDH são: grau de escolaridade, renda e nível de saúde.

Informática. No Plano de Gestão da Escola (2009, p.2), há um item que trata da caracterização do prédio escolar, no qual consta uma Sala de Informática. No entanto, em visita à escola, verificou-se que não existe um espaço destinado exclusivamente à SAI.

Em relação à infraestrutura necessária ao funcionamento dos laptops educacionais, a escola não dispõe de espaço físico adequado, tampouco de uma rede lógica eficiente para a instalação dos equipamentos e acesso à internet - 245 KBP, oficialmente 512KBP. A escola recebeu 460 laptops no segundo semestre de 2010, sendo que em maio de 2011, 454 estavam em condições de uso. A condição de uso desses laptops foi avaliada, tendo sido constatado que o problema dos seis laptops considerados deficitários consistia na necessidade de reconfiguração do sistema.

Mesmo com a existência de servidor próprio para uso do projeto, rede sem fio, e a aquisição de banda larga via telefônica para o desenvolvimento das atividades do Projeto UCA, o acesso à internet permaneceu instável durante o curso de formação. O uso da intragov, infraestrutura única de comunicação em implementação pelo Governo de São Paulo, passou a ser exclusivo para atender as demandas administrativas da escola, fato que deveria facilitar o desenvolvimento das atividades online previstas pelo curso. No entanto, parece que tal iniciativa não teve os efeitos desejados, no que diz respeito a facilitar o acesso à internet.

Em muitos momentos os professores, os gestores e até os alunos, manifestaram insatisfação diante deste problema relacionado à internet. Durante uma das rodadas do grupo focal realizado na escola, uma professora comentou que ao tentar realizar uma atividade em sala de aula com o laptop, os alunos, inicialmente motivados, ficaram frustrados, pois “só

alguns alunos conseguiram acessar e isso prejudica bastante. Espero que aumente a velocidade do speed”, disse ela.

Esta questão foi confirmada pelo Professor Coordenador da Escola, que disse: “a

dificuldade da velocidade não será resolvida de imediato”. Esta observação foi registrada no mês de dezembro/2011, quando o curso já estava em sua fase final, sugerindo que os cursistas enfrentaram problemas de conexão ao longo de todo o período em que participaram da formação.

Durante a primeira experiência de uso do laptop em sala de aula, ocorrida no primeiro semestre de 2011, foi dada aos alunos a oportunidade de falarem sobre a atividade realizada. Como nesse dia, somente 17 laptops conseguiram acesso à internet, um dos alunos, ao fazer referência à internet, disse: “sem chance, muito lenta”. Ainda assim, os alunos disseram que a atividade foi interessante. Um deles, disse: “a internet é lenta, mas é válida. Mesmo assim,

vale tentar”.

Assim, apesar dos problemas de acesso à internet causar certa instabilidade no curso e momentos de frustração aos cursistas, observou-se que este fato não inviabilizou o andamento do curso, pois os formadores, tanto da DE/Norte 1, como da Universidade, sempre atentos e em constante contato com a escola, conseguiram encontrar estratégias que possibilitaram a continuidade do processo, aproveitando a situação para discutirem com os professores e gestores a importância do planejamento das aulas com tecnologias, que não pode deixar de considerar outras possibilidades de uso além da internet.

Por esta razão, é de suma importância que problemas dessa natureza sejam previstos e discutidos com professores e gestores, a fim de que possam lançar mão de outras estratégias que deem conta de atender as expectativas de alunos e dele próprio, durante o desenvolvimento de uma atividade pedagógica com tecnologias. O fato de não haver possibilidade de acesso à internet não significa que uma determinada atividade não possa ser realizada. Usar tecnologia em atividades pedagógicas não quer dizer necessariamente que este uso deva estar condicionado a atividades por meio da internet. Este fato sinaliza a importância de uma reflexão sobre as características das diferentes tecnologias disponíveis, suas possibilidades e seus limites.

Este assunto foi discutido pela equipe de formação com os gestores e com os professores, na presença de representantes da DE e da SEE. A representante da SEE demonstrou preocupação e orientou a escola sobre as alternativas possíveis, enfatizando que seria“bom ir pensando em estratégias factíveis agora, pois os alunos estão interessados em usar o laptop”.

Dando continuidade às dificuldades relacionadas à infraestrutura e equipamentos, cabe observar que a não existência de armários próprios para guardar os laptops e de instalações adequadas para o carregamento das baterias, obrigou a escola a mantê-los dentro das caixas

originais. Os laptops são retirados e carregados somente para atender às ações de formação dos professores e uso esporádico dos alunos.

A chegada dos carrinhos e armários não aconteceu na data prevista em virtude de problemas burocráticos enfrentados pela administração da Secretaria de Estado da Educação de São Paulo durante processo licitatório. Mesmo com a chegada dos carrinhos, eles não puderam ser utilizados conforme o previsto, pois o modelo das tomadas existentes na escola é incompatível com os cabos e adaptadores dos carrinhos. Este problema foi detectado pela equipe gestora e encaminhado para providências da SEE. Alternativas, como o uso de “réguas de tomadas com várias saídas”, foram sugeridas pelo gestor da escola e pelos formadores, até que uma solução definitiva seja posta e concretizada. Os problemas com o carregamento e com os carrinhos também foram mencionados como uma dificuldade, em diversas ocasiões, por professores e gestores da escola.

No I Encontro entre as três escolas paulistas cuja formação dos professores está sob a responsabilidade da PUCSP, realizado em dezembro de 2010, a EE Antonio Carlos Ferreira Nobre apresentou as ações realizadas até aquele momento e, entre a apresentação de uma ação e outra, o representante da escola comentou: “os alunos já enxergaram a importância do

laptop e estão cobrando o uso em sala de aula. [...] ainda não temos como levar para as classes, não temos como carregar os laptops. Ainda não será possível este ano.

No ano de 2011, o problema ainda persistia, pois segundo o coordenador da escola:

“No início do ano que vem liberaremos os laptops para os alunos levarem para casa, pois aqui na escola não temos como carregar”. “Para carregar há dificuldade...todos os laptops na sala para carregar fica difícil...”

No segundo semestre de 2011, em entrevista realizada pela PCOP de Tecnologia com uma das professoras da escola, que havia planejado uma atividade de pesquisa com seus alunos, usando o laptop para realizar as buscas e elaborar um documentário que seria integrado ao projeto Vivendo a Leitura na Era Digital, a professora comentou que em virtude do problema de acesso à internet, carregamento dos laptops e outros relacionados aos softwares, a atividade não pode ser realizada na sala de aula, frustrando os alunos e a professora. Uma das soluções apontadas pela professora foi a de que os alunos deveriam levar

o equipamento para suas casas, pois “na escola não há tomadas suficientes, isso leva tempo e

acaba prejudicando as atividades em sala de aula”.

De fato, problemas com a infraestrutura acabam por levar o professor a não perceber o potencial da tecnologia, pela impossibilidade de usá-la adequadamente. Trata-se de um problema sério que pode minar um projeto que sequer tem chance de ser devidamente implementado. As dificuldades do ambiente e da infraestrutura acabam sendo interpretadas como dificuldades do dispositivo, da tecnologia ou da concepção do projeto. Felizmente, no caso da professora que planejou o desenvolvimento do documentário usando o laptop, isto não aconteceu. Ela percebeu que o trabalho com tecnologia exige mais tempo, planejamento e preparo do professor.

Ainda dentro do tópico que trata das características da escola, cabem observações sobre a existência ou não de uma equipe de apoio e suporte ao uso de tecnologias, que pode incluir técnicos, monitores e estagiários.

A escola não contou com alunos monitores28 até a metade do curso de formação, não contou com aluno ProInfo Integrado29, e não dispõe de técnico de apoio ao uso de tecnologias. Com base nos documentos do Programa ProInfo Integrado, esses alunos são devidamente preparados para atuarem como monitores nas salas de informática e outros ambientes da escola, em parceria com os docentes, ajudando-os a resolver problemas de ordem técnica, de modo que o professor possa mediar as ações pedagógicas com o uso da tecnologia. Isto significa que na EE Antonio Carlos Ferreira Nobre as dificuldades de ordem técnicas acabam tendo um impacto maior, pois os professores não contam com este tipo de colaboração. A chegada do estagiário30, ainda que tardia, foi avaliada como positiva pelos professores, gestores e formadores.

A professora que contou sobre sua experiência de desenvolvimento do documentário com o laptop, disse que a presença da estagiária foi benéfica para o desenvolvimento das

28 Alunos monitores estão previstos para auxiliar o professor no que diz respeito a questões técnicas. Atualmente, esses alunos são contratados como estagiários, por parceria estabelecida entre a Fundap e a Secretaria de Estado da Educação de São Paulo.

29 O Aluno integrado está vinculado ao Programa Aluno Integrado, instituído pelo MEC, cujo objetivo é a formação técnica de alunos e professores para gerenciar de maneira correta as salas informatizadas, possibilitando o uso eficaz desses ambientes (Portal MEC, 2011).

30 Os estagiários foram contratados pela Fundap, após processo de seleção específico, tendo iniciado suas atividades na escola no segundo semestre/2011.

ações. O documentário incluía a elaboração de um rap pelos alunos para ser apresentado no dia do evento representativo do projeto Vivendo a Leitura na Era Digital. Em virtude do intenso envolvimento dos alunos com a professora e a estagiária, os mesmos pressionaram as duas para que elaborassem e apresentassem o “rap das professoras”. Isto é um demonstrativo de que o envolvimento da estagiária com o projeto e com os alunos foi, de fato, positivo.

Sobre o envolvimento do corpo docente em projetos pedagógicos, verifica-se no Plano de Gestão da unidade escolar e em depoimento da representante da SEE que a escola procura incluir esta prática no seu cotidiano. De fato, no Plano de Gestão da EE Antonio Carlos Ferreira Nobre (2009, p. 10), há um item denominado “Ações da Escola”, que inclui o desenvolvimento de projetos interdisciplinares, como os projetos Vivendo a Leitura, Vivendo a Matemática, Meio Ambiente e Olimpíada Cultural.

Além dessa informação, segundo a representante da SEE, a escola foi selecionada para participar do Projeto pelos bons resultados obtidos em projetos de naturezas diversas, sinalizando um corpo docente compromissado. No entanto, essa seleção ocorreu há três anos, na gestão anterior.

Sobre a participação da escola no projeto, cabe informar, ainda, que ela foi selecionada para ser a escola de pesquisa da PUCSP, uma vez que o Projeto UCA prevê, também, o desenvolvimento de pesquisas sobre as ações que estão sendo desencadeadas nas unidades escolares, com o objetivo de aprimorar constantemente as estratégias utilizadas nos cursos de formação e ações afins. A avaliação em processo e o acompanhamento das ações são pilares do projeto e, por essa razão, as universidades globais, além de coordenar a formação dos professores, devem realizar pesquisas sobre o projeto e seus desdobramentos.

Em relação a sua indicação pela SEE, há três anos, os professores disseram que não tomaram conhecimento dos objetivos do projeto e quando a notícia sobre a chegada dos laptops foi divulgada, trouxe consigo a ideia de que os equipamentos seriam um prêmio pelos bons resultados da escola e que seriam doados aos professores para uso pessoal. Segundo os professores, sequer foram informados sobre a necessidade de formação para uso do laptop em atividades pedagógicas. De fato, em questionário aplicado pela pesquisadora, constatou-se que 69% dos cursistas só conseguiram entender os objetivos do projeto ao longo do processo de formação.

Há depoimentos sobre a insatisfação do professor sobre esta questão, durante o curso e também durante a realização do grupo focal.

“ me senti (sic) mal no começo, parecia imposto, vinha sem vontade.” “o professor é obrigado a fazer este curso, este projeto?”.

“Por que os professores não foram consultados?”

“estava na época da consulta. Disseram que fomos contemplados, pois tínhamos projeto de leitura, então,..mas não foi colocado isso...a princípio foi colocado como prêmio e não como coisa tão complexa e grandiosa. Foi colocado que era um computador por aluno, como um prêmio e que cada professor também receberia um...foi colocado que o projeto de leitura teve sucesso e que receberíamos prêmio.”

“entendi que era para uso pessoal .... teve professor que ficou até feliz pois não tinha computador...” “...e em nenhum momento foi colocado isso, e que era projeto”.

Dúvidas sobre a participação da escola no projeto só foram sanadas durante a retomada da formação, quando a equipe formadora possibilitou aos professores e gestores a oportunidade de manifestarem suas angústias e dúvidas sobre o curso.

Durante o grupo focal, uma professora retomou este problema e disse que a possibilidade de diálogo com a equipe formadora foi fundamental para que os professores continuassem a participar do curso. Ela disse: “foi nesse dia que vocês conquistaram os

professores.” Este depoimento ratifica a importância do diálogo enquanto elemento

importante para os projetos educacionais, pois além de demonstrar respeito e o reconhecimento à palavra do outro, é o meio mais propício à identificação dos fatores que estão favorecendo ou minando a ação educativa.