Esta pesquisa contou com a participação de trinta e três crianças, alunos integrantes do 3º ano G, do ensino fundamental, com idades variáveis entre 7 e 8 anos, incluindo Adriana Alonso Sylvestre, professora regente da turma e a pesquisadora responsável e autora desta dissertação.
A pesquisadora, por exercer a função de assessora de Filosofia para o ensino fundamental I no colégio, iniciou a coleta dos dados, observando e investigando uma turma de cada ano, do 2º ao 5º. Havia dupla intencionalidade nesta atitude: a primeira, a realização da assistência de aulas, proposta da equipe diretiva e da coordenação. A segunda, a seleção de dados para análise da pesquisa em questão. Decorridas as primeiras análises, a disponibilidade da professora Adriana, bem como as características fortes de ligação cognitiva e afetiva com e entre seu grupo de alunos despertaram maior interesse para os propósitos deste estudo. Assim, a característica afetiva motivou a seleção dessa turma, existindo a concepção da pesquisadora de que o caráter de vínculo emocional favorece qualquer tipo de relacionamento e influencia as interações interpessoais substancialmente.
Para a divulgação dos dados coletados em áudio e vídeo, foram obtidas autorizações dos responsáveis pelos alunos, assim como, da instituição na qual a pesquisa foi realizada. Solicitou-se à professora Adriana que escrevesse seu perfil e de seu grupo de alunos, o 3º ano G, assim como fez a pesquisadora. Abaixo, seguem seus relatos.
4.3.1 Sobre a professora participante
“Meu nome é Adriana Alonso Gonçalves Sylvestre. Tenho 40 anos e sou professora desde os 17 anos. Fiz magistério no Colégio Campos Salles e graduei- me em psicologia pela Unip – Universidade Paulista.
Em 2002, fiz uma especialização também pela Unip, em Psicopedagogia e, em 2010, terminei a especialização em Educação Matemática, pelo Mathema em parceria com a Unifran – Universidade de Franca.
Fiz também cursos de Filosofia para crianças – Educação para o Pensar, pelo Centro Brasileiro de Filosofia para Crianças e estou em busca de um mestrado na área da Educação Matemática.
Tive a oportunidade de clinicar como psicóloga por cerca de quatro anos e seis meses como psicopedagoga. Essa experiência serviu para reafirmar em mim o desejo de continuar na sala de aula, em uma relação de troca de experiências/aprendizagens com os meus alunos.
Trabalhei como professora de pré (hoje, 1º ano), 3º, 4º e 5º anos e sinto que tenho um prazer maior em dar aulas para crianças de 7 a 10 anos (3º ao 5º ano).
Hoje, leciono no Colégio Albert Sabin e sou polivalente. Nesse colégio, já dei aulas de Matemática para o 5º ano, mas atualmente sou professora do 3º ano nos períodos da manhã e da tarde. As disciplinas que ministro: Português, Matemática, História, Geografia, Ciências e Filosofia, sendo que sou responsável pelo planejamento de Matemática.
Amo o que faço, pois acredito no potencial que toda criança traz dentro de si. As crianças me surpreendem com suas descobertas, me encantam com seu jeito de elaborar seus conhecimentos, verbalizando o que pensam, construindo e reconstruindo seus saberes.”
4.3.2 Sobre o 3º ano G
“O 3º ano G é uma classe composta por 33 alunos, reorganizada a partir de um sociograma. Vieram de três agrupamentos do 2º ano e, rapidamente, se constituíram em um grupo muito bom, como se houvesse estudado juntos há mais tempo.
É uma sala falante, mas demonstra assimilar os conteúdos propostos com facilidade. Os alunos questionam bastante e cobram a verdade e os combinados (justiça) constantemente. São respeitosos e conseguem escutar a professora quando é necessário, no entanto, é necessário retomar alguns combinados com
frequência, o que é feito não somente pela professora, mas principalmente pelos próprios alunos. Eles próprios repetem algumas frases que parecem reger o comportamento/postura deles: “Uma pessoa feliz é aquela que faz a coisa certa na hora certa”; “Faça aos outros, o que você gostaria que fizessem a você”.
Alguns alunos destacam-se por conseguirem expor seus pensamentos e emoções mais vezes, como é o caso da Beatriz Afonso, Filippo, Gabriela Bayler, Letícia, Matheus, Pedro Aricó e Rubens.
Letícia, Filippo e Beatriz Afonso buscam sempre fazer uma relação entre o que está acontecendo no momento da aula com o que já foi discutido e acordado ou aprendido. A Natália, o Matheus, o Mário e o Thiago Akira são alunos do integral e permanecem o dia todo no colégio.
Assim é o 3 ºano G, uma sala encantadora e desafiadora, pois sempre vão além do esperado nas discussões e descobertas diárias, mobilizando em mim reflexões constantes.”
4.3.3 Sobre a pesquisadora
Com formação em magistério, iniciei minha trajetória profissional como professora do ensino fundamental I, enquanto realizava o curso de graduação em Pedagogia. Fui aprovada em concurso público estadual, trabalhando como professora da rede pública, com alunos do 2º ao 5º ano até o ano de 1993.
Decorridos quinze anos de atuação em algumas escolas da rede pública, houve um interesse em conhecer e atuar em outras realidades, fato que me mobilizou a pedir afastamento por dois anos e buscar um colégio particular, local onde esperava encontrar novos desafios e a possibilidade de identificação com o projeto pedagógico dessa instituição.
Assim, começa minha história profissional com o Colégio Albert Sabin, na qual minha história de vida se confunde, pois ao longo desses quase 18 anos, venho me constituindo como pessoa e profissional.
Em 1996, quando o grupo de professores regentes do ensino fundamental I do colégio recebeu os cursos de capacitação pelo CBFC, houve logo de início o encantamento com a possibilidade de trabalhar Filosofia com as crianças. A proposta do programa de Lipman se delineava para mim como um novo projeto, cuja materialização por meio dessas aulas criaria momentos para discutir as inquietações, os conflitos, as descobertas tão pungentes e perceptíveis nas crianças.
A receptividade dos alunos às aulas foi imediata e bastante favorável. Ficavam sempre envolvidos com as discussões e se, eventualmente, houvesse cancelamento ou substituição dessa aula por outra matéria, havia reclamações gerais. Eu ainda não tinha o entendimento da importância desse precioso momento de partilha dos sentidos individuais para produção dos significados compartilhados e consequente (re)construção de conhecimento, nem tão pouco de como nos (re)constituímos continuamente por meio da interação com os outros e com os signos culturais e sociais. Ainda me faltava o embasamento teórico e os momentos de discussão das concepções norteadoras com o GP LACE.
Trabalhei como professora regente do 5º ano até o ano de 2001, quando foi opção pedagógico-didática dividir as disciplinas entre as professoras dessa série, passando a ministrar disciplinas específicas, visando uma adaptação ao que
aconteceria no 6º ano do ensino fundamental II. A partir de 2002, assumi somente as aulas de Matemática e Filosofia, no 5º ano do período matutino.
Assim, a aula de Filosofia continuava parte integrante das minhas práticas docentes e ao longo de todo esse tempo como professora, principalmente, nos últimos anos, muitas práticas ou maneiras de organizar o planejamento das aulas, bem os manuais do professor e as novelas filosóficas escritas por Lipman e seus colaboradores me incomodavam sobremaneira.
A partir desse sentimento, igualmente deflagrado pela maioria dos professores, em várias reuniões pedagógicas, começamos a discutir sobre outras formas de trabalharmos assuntos/temas que considerávamos tão importantes para as crianças, mas que poderiam ser abordados por outro viés.
Imbuídos de várias ideias e com o apoio da coordenação, abandonamos a assessoria com o CBFC, fato que possibilitou que gerenciássemos, em primeira instância, qual o material pedagógico cumpriria o papel de apoio às aulas. Essa perspectiva nos impulsionou a optar pelas obras literárias que contemplassem temáticas possíveis para as “discussões filosóficas”. Isso nos tornou agentes e co- produtores dos planejamentos que, mesmo não acreditando na existência de um script pré-determinado ou de um roteiro de perguntas a serem elaboradas, nos dariam algumas alternativas de encaminhamento das discussões. Sabíamos, contudo, que o direcionamento real dos debates dependeria da abordagem e do aprofundamento dos interesses e argumentos de cada turma.
Ministrei aulas de Matemática e Filosofia até 2006, quando fui convidada a participar da equipe de coordenação do ensino fundamental I. Além do trabalho como orientadora educacional, passei a ser responsável pela assessoria das aulas de Filosofia dessas séries. Nesse viés, discuto e analiso com as professoras responsáveis pela elaboração das aulas, a pertinência dos temas e as estratégias para sua aplicação. A seleção dos temas a serem discutidos é feita por mim e pelas professoras, utilizando livros de literatura infantil, músicas e filmes, de acordo com as situações de conflito que consideramos interessantes e pertinentes às turmas e que, de fato, possam promover discussões que fujam do senso comum e do diálogo vazio.
Nessa análise, nossa preocupação é cuidar para que os temas sejam abordados preservando o que se chama de comunidade de investigação, tida aqui
como espaço em que são propiciados o ouvir atento do outro e a fala articulada, por meio de perguntas mediadoras que conduzam ao pensamento crítico-reflexivo.
Em 2006, fiz pós-graduação em Didática e Tendências Pedagógicas pela Universidade São Luís, curso que também contribuiu e ampliou possibilidades de análise e sugestões para elaborações dos planos de aula com o grupo de professores.
No ano de 2008, desde abril, comecei a integrar o GP LACE. Durante os Seminários de pesquisa, em contato com as teorias discutidas, percebi embasamentos teóricos, que puderam explicitar e contribuir com muitas práticas vivenciadas por mim e outros docentes que comigo trabalhavam. Essa vivência me possibilitou refletir e atuar de uma forma diferenciada nas discussões e nas possíveis intervenções junto às professoras.
A participação nesse GP possibilitou conhecimento e aprofundamento teóricos, por meio de inúmeras discussões nos seminários de pesquisa e orientação, em congressos e em outras oportunidades de encontro com o grupo, que contribuíram substancialmente nas minhas concepções, despertando um interesse incessante na busca pelo aperfeiçoamento de minhas práticas profissionais.
Além do aprendizado pessoal possibilitado pela participação no GP LACE o que mais me encanta nesse grupo é o comprometimento ideológico e cidadão de seus participantes. É um grupo reconhecido por suas brilhantes produções acadêmicas, sobretudo, engajado em projetos comprometidos com a compreensão- transformação das condições de vida de comunidades carentes.